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Eleições 2018: Deputado federal mais votado no Rio, Hélio Negão desafia quem vê racismo no padrinho Bolsonaro

Com sobrenome Bolsonaro, subtenente negro vai de desconhecido a federal mais votado no Rio.

12 out 2018
10h01
atualizado às 13h51
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"Vamos acabar com essa divisão de classe! Somos todos iguais! Minha cor é o Brasil! A força do Brasil é a união do seu povo!"

Jair Bolsonaro, Hélio Lopes e Flavio Bolsonaro; candidato à presidência e deputado federal recém-eleito se conhecem há uma década
Jair Bolsonaro, Hélio Lopes e Flavio Bolsonaro; candidato à presidência e deputado federal recém-eleito se conhecem há uma década
Foto: Reprodução/Facebook / BBC News Brasil

Com esta mensagem nas redes sociais, o subtenente do Exército Hélio Fernando Barbosa Lopes comemorou o fato de ter sido o deputado federal mais votado no Estado Rio e desafiou quem vê o presidenciável Jair Bolsonaro como racista.

"No PSL do racista Bolsonaro, um negro foi o mais votado no Estado do Rio de Janeiro", destaca Hélio em uma foto ao lado do presidenciável, cujo sobrenome adotou em sua candidatura: Hélio Bolsonaro 1720.

Hélio não foi o único a se candidatar com o nome de Bolsonaro, mas foi escolhido como homem de confiança do capitão reformado, que o conhece há cerca de 10 anos por sua atuação no Comando Militar Leste. Segundo uma fonte próxima ao presidenciável, Bolsonaro viu o amigo militar como a pessoa certa para substituí-lo e chefiar sua equipe em seu gabinete na Câmara dos Deputados - que ficará vago após quase 28 anos, com os sete mandatos sucessivos que exerceu no Congresso.

Em um vídeo postado por Hélio na véspera do primeiro turno, Bolsonaro, ao seu lado, descreve-o como "um velho amigo", que o "acompanha há muito tempo" e por quem tem "especial atenção e carinho" - e pede um voto de confiança a todos que querem "mudar o Brasil".

Hélio participou ativamente da campanha. Acompanhou o presidenciável em viagens e, depois do atentado em que foi esfaqueado, visitou-o no hospital e passou a fazer campanha ao lado de Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do clã, eleito para o Senado.

E acabou personificando uma resposta da campanha às acusações de racismo feitas ao presidenciável. Nas postagens diárias pedindo votos para o capitão nas redes sociais, adotou as hashtags "o negão de Bolsonaro" e o "federal de Bolsonaro".

Candidatura do subtenente foi trunfo usado pela campanha de Bolsonaro para tentar desfazer a associação de sua imagem à discriminação racial
Candidatura do subtenente foi trunfo usado pela campanha de Bolsonaro para tentar desfazer a associação de sua imagem à discriminação racial
Foto: Reuters / BBC News Brasil

De 480 a 345 mil votos

Nascido em Mesquita, município da Baixada Fluminense, no Grande Rio, Hélio tem 49 anos e vinha tentando entrar na política há pelo menos quatro.

Em 2014, saiu para deputado federal pelo PTN, mas não reuniu as condições necessárias ao registro e teve a candidatura indeferida. Em 2016, candidatou-se a vereador pelo município de Nova Iguaçu, também na Baixada Fluminense, pelo PSC.

Na época, apresentou-se como Hélio Negão, como é conhecido, e obteve 480 votos.

Agora, como Hélio Bolsonaro e candidato pelo PSL, viu o número de eleitores saltar para 345.234, surpreendente para um novato na política e um nome pouco conhecido no Rio, ficando à frente do veterano Marcelo Freixo, do PSOL, que obteve 342.491 votos.

"Ele é um cara tranquilo, não se altera, se dá bem com todo mundo. Os militares gostam muito dele, tanto seus superiores quanto seus subordinados. Tanto que teve essa votação tão expressiva, a grande maioria de votos certamente de militares", diz uma fonte próxima à campanha.

Para a campanha, Hélio recebeu R$ 45 mil do fundo partidário do PSL e declarou ter gasto apenas R$ 36 mil, concentrados em serviços gráficos e comunicação. Não declarou bens em sua prestação de contas.

Sua campanha foi centrada nas redes sociais e na participação de eventos ao lado da família Bolsonaro - frequentemente postando vídeos e fotos ao lado dos membros de clã, como o retrato sorridente em que come um espetinho de rua enquanto o capitão come um salsichão.

As demonstrações de apoio mútuo tiveram proveito para ambos os lados. A dobradinha catapultou os votos do subtenente e foi um trunfo usado pela campanha de Bolsonaro para tentar desfazer a associação de sua imagem à discriminação racial, após uma série de declarações controversas feitas ao longo dos últimos anos.

"Bolsonaro não é racista, e eu sou a prova disso", diz Hélio em um de seus vídeos.

Eduardo Bolsonaro e Hélio Lopes; campanha foi centrada nas redes sociais e na participação de eventos ao lado da família Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro e Hélio Lopes; campanha foi centrada nas redes sociais e na participação de eventos ao lado da família Bolsonaro
Foto: Reprodução/Facebook / BBC News Brasil

Nesta quinta-feira, o subtenente postou uma foto sua ao lado de Bolsonaro e de Alana Passos, sargento do Exército que foi a terceira deputada estadual mais votada no Rio, e a primeira entre as mulheres. Sobre a imagem de cada um, as legendas: "O negro + votado - RJ" e "A mulher + votada - RJ".

Negão desafiou: "Alô PTralhas, Comunas, essa imagem diz muita coisa! Quem é mesmo racista? Quem é machista?"

'100% afinado' com Bolsonaro

A BBC News Brasil buscou contato com o futuro deputado federal do Rio, mas ele negou entrevista, afirmando que o momento é de concentração nos esforços para o segundo turno - no qual o presidenciável enfrenta o petista Fernando Haddad.

Nesta quinta-feira, Jair Bolsonaro convocou os 52 deputados federais e quatro senadores eleitos pelo PSL, além de parlamentares de outros partidos que deram apoio, para um evento no Windsor Hotel, na Barra da Tijuca, que tem sido o quartel-general de sua campanha.

Seu filho, Flávio Bolsonaro, eleito para o Senado, afirmou que o objetivo do encontro era traçar estratégias para a campanha, mas também "mostrar o tamanho de Jair Bolsonaro dentro do Parlamento".

Negão construiu a campanha condenando a ideia de "divisão de classes", "divisão racial" e "divisão sexual" e carrega as bandeiras da defesa à família tradicional. Usa o mesmo slogan de Jair Bolsonaro: "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos".

O subtenente adotou o número 1720, o mesmo usado por Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, que se tornou o deputado federal mais votado no História do país, obtendo 1,7 milhão de votos em São Paulo.

Eduardo também pediu votos para Negão nos dias antes da campanha, indicando "o nosso amigo, o nosso irmão Hélio Bolsonaro, também conhecido como Hélio Negão", disse em vídeo. "A gente tem essa liberdade porque aqui não tem mimimi, não tem politicamente correto, e o Hélio é 100% afinado com as ideias do Jair Bolsonaro."

O PSL, que em 2014 tinha eleito apenas um deputado federal, desta vez conseguiu abocanhar 52 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Tornou-se a segunda maior bancada, depois do PT, com 56 deputados. No Rio, passou a ser o maior partido, com 13 das 70 cadeiras da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), contra apenas duas em 2014.

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