Alerta SBP- Avanço do meningococo B no Brasil reacende debate sobre inclusão da vacina no SUS
Pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn destaca que até duas em cada dez crianças com doença meningocócica podem morrer e que uma em cada cinco sobreviventes pode apresentar sequelas permanentes
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por meio do seu Departamento Científico de Infectologia, divulgou uma nota técnica atualizando o cenário epidemiológico da doença meningocócica no Brasil e reunindo as principais evidências científicas sobre a vacina meningocócica B recombinante (4CMenB) em lactentes. O documento ganha relevância diante da mudança no perfil da doença no país: pela primeira vez nas últimas décadas, o meningococo B tornou-se o principal sorogrupo causador da doença meningocócica no Brasil.
A publicação relembra que a vacina meningocócica B recombinante (4CMenB) já foi avaliada para incorporação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) para prevenção da doença meningocócica do sorogrupo B em crianças menores de um ano de idade. Na ocasião, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) emitiu parecer desfavorável à inclusão do imunizante.
Avanço do meningococo B alerta para riscos em lactentes
Diante das mudanças epidemiológicas observadas nos últimos anos e do acúmulo de novas evidências científicas, a nota técnica apresenta uma atualização abrangente dos dados disponíveis sobre a doença e sobre a efetividade e a segurança da vacina. De acordo com o documento, em 2025 o meningococo B respondeu por 55% dos casos de doença meningocócica com identificação do sorogrupo no Brasil. Entre os bebês menores de um ano, faixa etária mais vulnerável às formas graves da infecção, esse percentual chegou a 73% dos casos identificados.
A doença meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis e pode se manifestar como meningite — inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal — ou como meningococcemia, uma infecção generalizada extremamente grave, que pode evoluir rapidamente para choque e falência de múltiplos órgãos. Embora possa acometer pessoas de qualquer idade, a doença apresenta dois picos importantes de incidência: em crianças menores de um ano e em adolescentes.
Especialista defende revisão de estratégias de vacinação no SUS
Para a pediatra Dra.
Anna Dominguez Bohn, a divulgação da nota técnica representa uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a doença e reavaliar estratégias de prevenção à luz dos dados epidemiológicos mais recentes.
"A doença meningocócica é uma das infecções mais temidas da pediatria, e esse temor é justificado. Mesmo com diagnóstico e tratamento adequados, até duas em cada dez crianças podem morrer. Quando há atraso no diagnóstico, esse risco pode chegar à metade dos casos. Entre os sobreviventes, até uma em cada cinco pode conviver com sequelas permanentes, como perda auditiva, déficits neurológicos e comprometimento motor. Estamos falando de uma doença grave, imprevisível e, principalmente, prevenível por vacinação", afirma a médica.
Historicamente, o sorogrupo C foi o principal responsável pelos casos de doença meningocócica no Brasil, motivando a incorporação da vacina meningocócica C ao Programa Nacional de Imunizações em 2010. Posteriormente, a vacina meningocócica ACWY passou a ser ofertada pelo SUS para grupos específicos. No entanto, a vacina meningocócica B ainda não integra o calendário rotineiro de vacinação para lactentes na rede pública.
Segundo a especialista, a dinâmica de circulação dos diferentes sorogrupos reforça a necessidade de monitoramento contínuo e atualização das estratégias de prevenção.
"As bactérias sofrem mudanças ao longo do tempo, e a epidemiologia da doença meningocócica acompanha essas transformações. O Brasil viveu durante muitos anos uma predominância do meningococo C, mas esse cenário mudou. Hoje, o meningococo B responde pela maior parte dos casos identificados no país. É fundamental que as estratégias de prevenção sejam continuamente reavaliadas com base nas evidências científicas e na realidade epidemiológica brasileira", ressalta.
Dados internacionais comprovam eficácia da vacina 4CMenB
A nota técnica reúne ainda dados de efetividade obtidos em países que incorporaram a vacina 4CMenB aos seus programas públicos de imunização. Segundo o documento, experiências internacionais demonstraram redução significativa dos casos da doença causada pelo meningococo B em crianças vacinadas. "A experiência internacional mostra resultados muito expressivos. Em países que adotaram a vacina, mais de oito em cada dez casos da doença causada pelo meningococo B podem ser prevenidos entre crianças adequadamente vacinadas", destaca a Dra. Anna.
Atualmente, a vacina meningocócica B recombinante (4CMenB) está aprovada no Brasil para uso em bebês a partir dos dois meses de idade e encontra-se disponível na rede privada.
Para a pediatra, o principal objetivo da divulgação da nota técnica é promover conscientização baseada em evidências científicas.
"Não se trata de gerar medo, mas de ampliar o conhecimento sobre uma doença extremamente grave e potencialmente prevenível. A vacinação é uma das ferramentas mais eficazes da saúde pública, e discutir formas de ampliar a proteção das crianças significa criar oportunidades para evitar mortes e sequelas decorrentes de uma infecção tão agressiva", conclui.
A nota técnica da SBP destaca que a análise contínua dos dados epidemiológicos e das evidências científicas é fundamental para subsidiar decisões em saúde pública voltadas à prevenção da doença meningocócica no Brasil, especialmente diante das mudanças observadas na circulação dos diferentes sorogrupos do meningococo.
Acesse aqui a nota técnica da SBP.
* Dra. Anna Dominguez Bohn é pediatra formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Terapia Intensiva Pediátrica, Síndrome de Down, Neurociência e Desenvolvimento Infantil. É Presidente do Núcleo de Estudo da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo- SPSP e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria- SBP. Atualmente integra o corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, além de atuar nos hospitais Sírio-Libanês e Vila Nova Star. CRM 150.572 | RQE 106869 / 1068691
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