Alemanha debate limitar acesso de redes por menores
Um quarto dos jovens alemães passa tempo demais nas redes sociais, sendo que 350 mil são considerados dependentes. Ministra da Educação defende idade mínima de 13 anos para uso de redes.Leni percebeu há dois anos que passava tempo demais no celular. Ela raramente saía do quarto para conversar com os pais, deixou de sair nos fins de semana e, às vezes, chegava a passar dez horas por dia no TikTok e no YouTube.
"Percebi que havia negligenciado muito a escola e não estudava quase nada como antes", conta a jovem, hoje com 18 anos. Ela passa agora, em média, cinco horas por dia no celular. "Comecei a monitorar o tempo que passava consumindo mídia no celular, deixar o aparelho de lado com mais frequência e não cancelar mais encontros com amigos."
A situação de Leni é o cotidiano de uma grande parcela de crianças e adolescentes que crescem na Alemanha. Segundo dados recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), jovens de 15 anos no país passam cerca de 48 horas por semana em frente a telas — uma média de aproximadamente sete horas por dia.
No início desta semana, uma comissão independente de especialistas apresentou sugestões sobre como proteger melhor crianças e jovens no ambiente digital. A proposta é que as plataformas assumam maior responsabilidade no tema, com maior proteção a esta faixa etária, incluindo medidas de verificação de idade.
"Estamos vendo como a mídia digital radicaliza discursos e influencia o desenvolvimento de crianças e jovens. Vemos que o tempo de tela está aumentando. E vemos que crianças e adolescentes muitas vezes sofrem com dependência", afirmou Nadine Schön, copresidente da comissão.
Proteção em casa e nas escolas
Em comparação com 36 outros países, a Alemanha ocupa o quinto lugar em tempo de tela, atrás apenas de Polônia e Estônia. Outro estudo, da seguradora de saúde alemã DAK, aponta que 1,5 milhão de jovens na Alemanha usam redes sociais de forma problemática, e cerca de um quarto deles (350 mil) são considerados viciados.
Esses números têm levado a repetidos apelos por uma proibição do uso de redes sociais por adolescentes na Alemanha. A medida seguiria o exemplo da Austrália, que em dezembro se tornou o primeiro país a banir as redes para menores de 16 anos.
"Isso protegeria um pouco mais as crianças e os jovens. Percebi que há coisas no TikTok, Instagram e YouTube que não são reguladas de forma nenhuma," diz Leni.
As 56 recomendações da comissão incluem ainda que plataformas e provedores sejam responsabilizados pelo conteúdo que veiculam, adotem configurações padrão mais seguras para menores, com ofertas apropriadas para cada faixa etária, e disponibilizem formas claras e simples de denunciar conteúdos problemáticos.
Além disso, a legislação deveria prever a responsabilidade dos pais pela educação digital, enquanto as escolas deveriam proibir o uso de smartphones até o sétimo ano, quando os alunos têm entre 12 e 13 anos, segundo a comissão.
A ministra da Educação, Karin Prien, da União Democrata Cristã (CDU), também defendeu a definição de um limite etário, de preferência em nível da União Europeia (UE). "A proposta de uma idade mínima legal de 13 anos para o uso independente de redes sociais é o caminho certo." Essa idade mínima proposta está abaixo de países que já tomaram iniciativas nesse sentido, como a pioneira Austrália, que estabeleceu 16 anos, ou os Emirados Árabes Unidos, que optaram por 15 anos.
Descompasso entre pais e filhos
Quando adolescente, Florian Buschmann mergulhou profundamente no universo dos jogos eletrônicos. Ele chegou a jogar o game de tiro online Warface por até 16 horas por dia — o que hoje descreve como ser "prisioneiro do mundo virtual". Hoje, ele apoia a proibição das redes sociais para menores de 13 anos.
Durante um intercâmbio na Romênia, no qual participou de atividades ao ar livre como fogueiras, escalada e convivência com outros jovens, ele teve uma mudança de perspectiva. Percebeu que era hora de se libertar.
Buschmann escreveu então o guia "Ade Avatar" ("Adeus, avatar"), para ajudar outras pessoas a seguirem o mesmo caminho. Hoje, aos 25 anos, lidera a iniciativa "Offline Heroes" ("Herois Online", em tradução livre), que promove visitas a escolas na Alemanha. Só neste ano, foram realizadas 534 apresentações. Um evento recente reuniu 1,3 mil pais preocupados.
"Muitos não fazem ideia de como se comunicar com seus filhos nessa situação", disse. Ao mesmo tempo, ele ressalta a importância de estabelecer regras claras para o uso de mídia. "Estamos correndo atrás das redes sociais, mas já estamos entrando no próximo problema, que é a inteligência artificial e os deep fakes. Precisamos nos perguntar quanto tempo levamos para agir e realmente fazer algo."
Vício em pornografia e compras
Andreas Pauly confronta diariamente o vício em telas. O educador social dirige uma organização com sede na cidade de Colônia dedicada à prevenção da dependência de mídia. Ele treina novos "pilotos de internet", adolescentes que passam a orientar colegas sobre o uso responsável e os riscos das mídias digitais.
"Observamos dois fenômenos em crescimento: de um lado, a dependência de pornografia; de outro, o consumo descontrolado quando se trata de compras", disse. "Alguns jovens de 17 anos já têm dívidas de 10 mil euros. Isso também ocorre porque plataformas de pagamento não levam isso em consideração."
Leni também atua como voluntária na organização, compartilhando sua experiência. Segundo Pauly, os chamados "multiplicadores entre pares" têm mais facilidade de se conectar com jovens que enfrentam ou caminham para a dependência digital.
"Todos os anos organizamos um acampamento de surfe. Após quatro dias, os jovens sempre dizem: 'É muito bom ficar sem mídia, é menos estressante, consigo realmente conversar com as pessoas de novo'", afirmou Pauly. "Precisamos de mais espaços para que os jovens vivam experiências juntos."
A campanha atual da organização, chamada "One Day Off" (Um dia desligado, em tradução livre), desafia participantes a ficar 24 horas sem usar smartphones no dia 7 de julho.
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