Script = https://s1.trrsf.com/update-1785522911/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

A dois meses do 1º turno da eleição, veja os desafios dos candidatos à Presidência

Polarização, alianças, ampliação da base eleitoral e dificuldades para romper bolhas estão entre os obstáculos apontados por especialista

3 ago 2026 - 07h08
(atualizado às 07h19)
Compartilhar
Exibir comentários
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), candidatos à Presidência da República
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), candidatos à Presidência da República
Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto / Estadão

A dois meses do primeiro turno das eleições de 2026, a corrida pelo Palácio do Planalto entra em uma fase decisiva, com os principais candidatos diante do desafio de transformar intenções de voto em força eleitoral. Com a disputa ainda marcada pela polarização e pela concentração de votos entre os primeiros colocados, ampliar a base, consolidar alianças e conquistar eleitores fora dos grupos já identificados com cada candidatura estão entre os principais obstáculos no caminho até o dia 4 outubro.

Até o momento, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecem à frente dos adversários na corrida presidencial. Pesquisa Datafolha divulgada em 24 de julho mostra o presidente com 40% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo senador, com 32%. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), aparece com 4%, enquanto o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) têm 3% cada.

Em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, o petista também aparece à frente, com 48% contra 43%. O levantamento ouviu 2.004 pessoas e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-01166/2026.

Para o cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Rogério Baptistini, a disputa será influenciada tanto pelas características de cada candidatura quanto por um cenário marcado pela polarização política, pela perda de confiança nas instituições e por demandas sociais que ainda aguardam respostas.

Lula precisa conciliar base eleitoral e governabilidade

Aos 80 anos e em busca de um quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá, entre os principais obstáculos, a necessidade de conciliar as expectativas de seu eleitorado, mais progressista, com a construção de uma relação capaz de garantir governabilidade diante de um Congresso que tende a permanecer fragmentado e conservador, segundo aponta o especialista ouvido pelo Terra.

Na avaliação de Baptistini, o presidente também precisará demonstrar que consegue avançar em políticas sociais sem ficar excessivamente dependente de alianças com setores políticos resistentes a mudanças.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

"Os avanços sociais havidos em seu governo são insuficientes para garantir ao eleitor, que enfrenta as dificuldades geradas em uma sociedade desigual e atormentada pelos novos problemas estruturais do capitalismo financeirizado, a segurança quanto ao futuro", diz o cientista político. "A lógica do capital, que prioriza a acumulação em detrimento do bem-estar, limita até mesmo governos com intenções progressistas, e isso é explorado pela oposição", acrescenta.

Com a definição de Geraldo Alckmin como vice, oficializada pelo PSB nesta semana, Lula entra na reta de preparação para a campanha com a chapa encaminhada. PDT e PCdoB também já formalizaram apoio ao presidente, enquanto PV, Psol e Rede ainda realizam suas convenções nos próximos dias. A composição da aliança pode dar ao petista uma vantagem importante no horário eleitoral. Caso Flávio Bolsonaro (PL) realmente não consiga incorporar União Brasil, PP e Republicanos à sua base, Lula deverá ter o maior tempo entre os presidenciáveis nos blocos de propaganda.

O espaço destinado a cada candidatura é calculado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a partir da representação dos partidos no Congresso. A divisão definitiva só será conhecida depois do registro das candidaturas, cujo prazo termina em 15 de agosto.

Flávio busca ampliar eleitorado sem perder base bolsonarista

Para Flávio Bolsonaro, o desafio está diretamente relacionado ao peso do legado político do pai, Jair Bolsonaro. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão e atualmente em prisão domiciliar, o ex-presidente permanece como principal referência do grupo político que sustenta a candidatura do senador. "Essa sombra pesa sobre a candidatura do filho de um jeito que nenhum outro concorrente carrega", afirma Baptistini.

Na avaliação do cientista político, Flávio precisará encontrar uma maneira de ampliar sua base sem afastar os eleitores que permanecem identificados com o projeto político do pai. Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em janeiro mostrou que 56% dos entrevistados acreditavam que Lula venceria qualquer integrante da família Bolsonaro, enquanto 34% apostavam na vitória de um nome do clã. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 8 e 11 de janeiro.

Flávio Bolsonaro (PL)
Flávio Bolsonaro (PL)
Foto: Reprodução/ / Estadão

"Ou seja, a maior tarefa de Flávio será atrair eleitores além da base bolsonarista sem perder o apoio dos que ainda acreditam no projeto político do pai. Ele precisa mostrar que é capaz de ir além do discurso de legado e apresentar soluções viáveis para problemas como economia, saúde e segurança. Até aqui, isso não tem se mostrado uma tarefa simples", diz Baptistini.

Além das dificuldades apontadas pelo especialista, Flávio enfrenta obstáculos para ampliar sua aliança política na disputa de 2026. A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, já sinaliza neutralidade na eleição presidencial, enquanto o Republicanos, partido que apoiou Bolsonaro em 2022, ainda não confirmou apoio ao senador. O cenário reduz o espaço de articulação do candidato do PL e amplia seu isolamento na disputa contra Lula.

Um episódio desta sexta-feira, 31, evidenciou a dificuldade de Flávio em avançar nas alianças. Ao chegar ao comitê de campanha, em São Paulo, o senador afirmou a jornalistas que o nome da senadora Tereza Cristina (PP-MS) para a vice-presidência já estava definido e que faltava apenas o aval do partido.

Pouco depois, porém, o PP anunciou que, após consultar os diretórios estaduais, a maioria decidiu manter a legenda neutra na eleição presidencial. Com a decisão, o partido de centro-direita não apoiará a candidatura de Flávio, o que também inviabiliza, neste momento, a possibilidade de Tereza Cristina, líder do PP no Senado, integrar a chapa como vice. 

As investigações envolvendo o Banco Master também preocupam a campanha de Flávio Bolsonaro. A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de autorizar um inquérito sobre repasses de Daniel Vorcaro para a produção de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), recolocou o caso em evidência e aumentou o temor de novos desgastes na corrida presidencial.

Caiado tenta deixar de ser visto como candidato regional

Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, terá de ampliar a identificação de sua candidatura para além de seu reduto político. Segundo Baptistini, o ex-governador de Goiás precisa superar a imagem de um candidato associado principalmente aos interesses da elite rural e do agronegócio para alcançar um eleitorado mais amplo em nível nacional.

Inserido no campo liberal-conservador, Caiado também enfrenta o desafio de equilibrar a defesa da austeridade fiscal, que dialoga com o mercado, com propostas capazes de alcançar a classe média e os eleitores mais pobres, especialmente em áreas como emprego e saúde.

Ronaldo Caiado durante convenção nacional do PSD
Ronaldo Caiado durante convenção nacional do PSD
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

"Não bastasse, ele disputa espaço na direita com Flávio Bolsonaro, hoje disparado nas preferências rivalizando com Lula. Superar o isolamento e atrair o interesse do eleitorado é o desafio de Caiado", destaca o especialista.

Esse isolamento também aparece na dificuldade de Caiado para reunir lideranças em torno de sua candidatura. Na oficialização da chapa, o ex-governador de Goiás não contou com a presença de nomes importantes do próprio PSD, como os governadores de Minas Gerais e Pernambuco, Mateus Simões e Raquel Lyra, além do candidato ao governo do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Entre os governadores do partido que estiveram ao lado de Caiado, estavam apenas Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul.

As ausências no evento refletem uma divisão interna no PSD em relação à disputa presidencial. Em diferentes Estados, lideranças da legenda já declararam apoio à reeleição de Lula. É o caso dos senadores Omar Aziz, no Amazonas, e Otto Alencar, na Bahia. Os governadores Fábio Mitidieri (Sergipe) e Raquel Lyra (Pernambuco) também são considerados aliados do petista. Já Eduardo Paes anunciou, ainda no início do ano, ao confirmar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, que apoiará Lula em 2026.

Apesar de admitir as dificuldades para ampliar a coalizão, Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Caiado, minimizou os impactos da falta de apoio em alguns Estados. Segundo ele, o palanque de Eduardo Paes será múltiplo, "porque o Brasil precisa que Eduardo Paes seja governador do Rio de Janeiro", assim como para Raquel Lyra,"que pelas circunstâncias locais, tem eleitores de todos os partidos". 

Zema precisa furar a bolha do discurso ultraliberal

Para Romeu Zema (Novo), o principal obstáculo apontado pelo especialista está na distância entre o discurso adotado pelo candidato e as preocupações de uma parcela mais ampla do eleitorado. Baptistini avalia que o ex-governador de Minas Gerais terá de transformar suas propostas de viés liberal em uma plataforma que dialogue com problemas concretos enfrentados pela população.

Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato do Novo à Presidência da República
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato do Novo à Presidência da República
Foto: Wilton Junior/ Estadão / Estadão

O candidato do Novo, que ainda não conta com apoio de grandes partidos e permanece distante dos líderes nas intenções de votos -- o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro -- costuma concentrar seu discurso em grupos mais escolarizados e urbanos, próximos de uma visão empreendedora e crítica à atuação do Estado, segundo o cientista político. Para ele, porém, a defesa de um Estado mínimo encontra dificuldades para mobilizar eleitores que convivem diariamente com problemas relacionados à desigualdade e à falta de serviços públicos.

A baixa intenção de voto registrada por Zema nas pesquisas, segundo Baptistini, indica que sua mensagem ainda encontra dificuldade para ultrapassar esse público mais identificado com suas ideias.

Renan tenta transformar presença digital em votos

Renan Santos (Missão) parte de uma situação diferente. Mesmo concorrendo por uma legenda criada recentemente, o candidato já conseguiu alcançar um nível de reconhecimento entre setores da direita, especialmente entre eleitores bolsonaristas e liberais mais politizados, avalia Baptistini.

O próximo passo, porém, será converter essa visibilidade em crescimento eleitoral fora desse público e evitar que sua candidatura seja percebida apenas como mais uma opção dentro de um campo já ocupado por nomes como Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado.

Renan Santos é candidato do Missão
Renan Santos é candidato do Missão
Foto: Divulgação/Partido Missão / Estadão

"O desafio dele agora é converter o reconhecimento que já tem entre o público bolsonarista e liberal mais politizado em crescimento real fora dessa bolha, sem se deixar confundir com "mais um" nome da direita tradicional num campo já disputado por Flávio e Caiado", diz.

A estratégia de Renan deve continuar concentrada no ambiente digital, mas o próprio espaço das redes pode impor limites. Segundo o especialista, os algoritmos tendem a reforçar a exposição dos usuários a conteúdos semelhantes aos que já consomem, dificultando a chegada a novos públicos. "O teto de crescimento, não a existência, é agora o obstáculo central", afirma.

Fonte: Portal Terra
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra