Unicamp: documentário mostra como educar meninas pode mudar o mundo
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) exibirá ao meio-dia desta sexta, dia 18, uma versão compacta do documentário Girl Rising, cujo propósito é chamar a atenção para o alto número de garotas fora da escola: são 66 milhões no mundo. O filme, lançado neste ano nos Estados Unidos, dirigido pelo já indicado ao Oscar Richard E. Robbins, conta a história de nove meninas de países em desenvolvimento que superaram barreiras para seguir estudando. Artistas como Meryl Streep, Anne Hathaway, Liam Neeson e Selena Gomez narraram as histórias. Novas exibições estão previstas no Brasil, mas com datas a confirmar.
Educar meninas pode cessar uma história de pobreza e investir em um novo ciclo que ultrapassa a educação e reflete em melhoras na saúde e diminuição da desigualdade social. Essa é a grande mensagem do documentário produzido pela Vulcan Productions, CNN Films e Intel, em parceria com a ONG 10x10 e com o The Documentary Group.
Entre as dificuldades enfrentadas pelas garotas no mundo estão situações como o casamento precoce e forçado ao qual Azmera, de 13 anos, disse não. A menina da Etiópia foi escolhida para protagonizar o documentário pela autora africana Maaza Mengiste, assim como as outras oito garotas foram selecionadas por escritoras de seus países, que apontaram as histórias que gostariam de narrar.
Com o apoio de seu irmão mais velho, Azmera resolveu direcionar seu futuro aos estudos. "Escolhi Azmera porque ela era a mais quieta, mais tímida de todas que conheci. Fiquei fascinada em como ela venceu essa timidez e enfrentou sua família e o vilarejo para dizer não ao casamento", conta Maaza. O filme mostra a decisão de Azmera como uma importante guinada não só no seu futuro, mas no do local onde vive e estuda.
Do destino de Azmera, espera-se que, com os estudos concluídos, seus futuros filhos sejam mandados à escola. E que os filhos dos seus filhos façam o mesmo. "Estamos falando de uma mudança de gerações, que é profunda e significativa", conclui Maaza. A autora conta que o que motivou a adolescente a recusar o casamento forçado foi o que aprendeu na escola: existiam outras opções de vida, e ela não era obrigada a aceitar aquele destino que estavam impondo para ela. "Com o filme, a história de Azmera viajou o mundo. Ela nunca saiu mais de seis quilômetros longe de sua casa e, mesmo assim, fez uma diferença enorme para muitas crianças", diz a escritora.
Poemas
Marie Arana, de pai peruano e mãe americana, é autora de ficção e memórias. Seu trabalho é permeado pelas lutas e desigualdades do Peru. Escreveu um livro de memórias sobre como foi crescer no país latino. Para o documentário, escolheu contar a história de uma lutadora, Senna, uma peruana de 14 anos que mora em La Rinconada, cidade localizada nos Andes e próxima de uma mina de ouro, considerada a cidade mais alta do mundo. A adolescente usa os poemas que escreve e declama na escola e na comunidade como seu instrumento para mudar o mundo ao seu redor.
Situações ruins que ocorrem na vida da pequena poeta são transformadas em lições boas em suas criações. "Nossa conexão aconteceu nas palavras, na poesia. Eu pude notar, no momento em que ela começou a recitar versos do grande poeta peruano Cesar Vallejo, que ela sentia cada palavra que ele havia escrito. As palavras, conforme ela as pronunciava, pareciam enchê-la de força. As palavras são meu refúgio, minha força e inspiração. Também funcionava assim com ela", explica Marie.
Senna vive em um local tóxico, gélido e pedregoso, sem água e muito pobre, mas conseguiu encontrar, na educação, esperança. "Aprender leva tempo, não é uma pílula que escorrega facilmente pela garganta e resolve os problemas, mas é o investimento mais compensador que uma menina pode ter e fazer", diz a escritora.
Para Marie, a história de Senna ganha força por ir além da escrita. Ao falar em voz alta o que escreve, em frente de homens poderosos de sua comunidade remota, onde mulheres são desvalorizadas, ela se mostra corajosa. "Seus poemas eram muito simples, mas profundamente humanos e cheios de gratidão pelo que ela havia recebido em seus 14 anos - apesar de ter recebido absolutamente nada além de amor familiar e uma pequena janela para a educação".
O documentário
As outras sete meninas também são exemplo de como a educação pode mudar a vida de crianças de todo o mundo. Sokha é uma órfã que mora no Camboja e procura metais e garrafas recicláveis no lixão, mas sonha em encontrar lápis ou cadernos para que possa estudar. Wadley é uma pequena haitiana de sete anos que insistiu em ir à escola mesmo sem dinheiro para pagar.
Na Índia, Ruksana, apesar de morar com sua família nas ruas, arranja tempo para ir à escola e, quando fora dela, se dedica a desenhar, sua maior paixão. Suma, é uma ex-escrava que foi mandada aos quatro anos de idade para trabalhar em casas de famílias mais ricas. Na escola, aprendeu música, o que a motivou a mudar de vida. Atualmente, ela dedica seu tempo também em campanhas contra a prática escravagista de seu país, o Nepal.
Apesar das represálias que sofre pelos homens no Afeganistão, Amina decidiu enfrentar a sociedade em que vive e ir à escola, pensando em inspirar outras meninas a fazer o mesmo. Estimular outras garotas é o que faz a adolescente Mariama em Serra Leoa. Ela ajuda meninas a resolverem problemas familiares e a continuarem frequentando a escola por meio de seu programa na rádio local.
O prejuízo de uma vida sem educação fica evidente na história de Yasmin, uma egípcia de 12 anos que nunca foi à escola, pois seus pais têm medo de que saia às ruas e sofra violência sexual. Enquanto as outras meninas sonham em ganhar o mundo, se dedicar à música ou outras expressões artísticas, Yasmin aparece no filme como alguém sem perspectivas.
Por meio dessas histórias, o documentário quer mostrar que a mudança começa pequena, mas quando uma comunidade sai da pobreza por meio da educação, logo outras também seguirão o mesmo caminho. Para o produtor Justin Reeves, fortalecer as pessoas com conhecimento é uma das formas que mais beneficiam os seres humanos em suas interações. O jornalista trabalhou na Argentina e no Chile com ONGs relacionadas à educação de mulheres e meninas. "Elas são o melhor veículo para livrar comunidades da pobreza. Se ensinarmos sobre saúde sexual, como ter filhos de forma saudável, sobre seus direitos e como contribuir em suas comunidades, elas reinvestirão 90% da educação que receberem de volta em suas famílias. É matemática, é a coisa mais inteligente a se fazer. Educar meninas funciona", disse em entrevista ao Terra.
| Girl Rising na Unicamp |
| A exibição será na Sala da Congregação da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). Interessados em participar podem fazer inscrição no site do evento. Mais detalhes podem ser obtidos pelo telefone 19 988-013-938 ou pelo e-mail wie_unicamp@ieee.org. |