Textos de Olimpíada de Português revelam preocupações de jovens
O objetivo do estudo era conhecer melhor esse público e investigar o que pensam os jovens sobre os lugares onde vivem
Nas 600 redações analisadas entre mais de 12 mil inscritas em três edições da Olimpíada de Língua Portuguesa, a pesquisadora Maria Tereza Cardia e sua equipe puderam perceber que os jovens usaram aquele espaço também para externar situações de injustiça, entre outras questões que os preocupam.
O estudo “O que (nos) dizem os jovens sobre o lugar onde vivem” analisou textos do gênero artigo de opinião escritos por estudantes do segundo e terceiro anos do Ensino Médio de escolas públicas. A amostra contempla alunos de todos os Estados brasileiros - divididos de acordo com o porte de seus municípios - e que participaram do concurso nos anos 2008, 2010 e 2012. A análise foi coordenada por Maria Tereza, doutora em educação que também fazia parte da equipe da olimpíada.
O objetivo do estudo era conhecer melhor esse público e investigar o que pensam os jovens sobre os lugares onde vivem. Segundo Maria Tereza, deve ser produzido um relatório com os resultados do estudo que ficará disponível para consulta na internet. Os textos foram divididos em 12 categorias: Políticos e eleições, Questões urbanas, Turismo e Patrimônio Cultural, Criminalidade e Segurança, Jovens, Degradação Ambiental, Escola, Gestão Pública, Infraestrutura e Serviços Públicos, Investimento Público e Privado, Economia, Emprego e Desigualdade e Direitos Civis.
A pesquisadora se surpreendeu com posições tradicionais entre os jovens. “Em certas situações, você percebe o conflito de interesses em que o jovem defende o interesse dele contra o interesse de uma comunidade maior”, afirma. Maria Tereza acredita que comportamento pode ocorrer por uma questão de sobrevivência, para preservar o emprego e o salário, por exemplo. A categoria relacionada foi a única presente em textos de todas as regiões brasileiras, com predominância no Sudeste e Sul.
Segundo o relatório de imprensa do estudo, divulgado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a desigualdade social é atribuída, pelos alunos, à distribuição desproporcional da riqueza entre as classes sociais, gerando alta concentração de renda nas mãos de poucos. Ela é apontada como um dos principais fatores causadores da violência urbana, principalmente nas cidades maiores. No geral, os autores dos textos sugerem a necessidade de substituir o modelo atual por outras formas de produção sustentáveis, que gerem riqueza e justiça social, sem devastar o meio ambiente.
Nas metrópoles e grandes cidades, a partir de 100 mil habitantes, “economia, emprego e desigualdade” foi o tema que mais apareceu nos textos, seguido por “infraestrutura e serviços públicos” e por “gestão pública”. “Criminalidade e segurança” é outro assunto frequente nas cidades de grande porte e as metrópoles, mas também está presente nas cidades de médio porte. Maria Tereza crê que isso condiz com a imagem que se tem das cidades com grande concentração populacional. “A cidade grande tem mais situações de violência, de assaltos. Em lugares menores isso não é tão forte, embora é sabido que ocorre esse tipo de situação em lugares pequenos”, afirma.
Enquanto isso, a degradação ambiental não se mostrou importante nos artigos de alunos das metrópoles e dos municípios de grande porte, sendo tanto mais importante quanto menor o porte do município. A degradação ambiental chama atenção da coordenadora do estudo. “Parece que, na cidade grande, a gente meio que se distancia do meio ambiente, acaba virando uma questão que não é nossa”, afirma. Entretanto, ela ressalta que, por meio das redações, foi possível perceber que, em cidades pequenas, a exploração do meio ambiente geralmente está ligada ao tema emprego.
Já nas cidades de médio porte, entre 50 e 100 mil habitantes, as questões mais frequentes diziam respeito a “jovens”, seguidas por “infraestrutura e serviços públicos” e “economia, emprego e desigualdade”. Nas cidades de 20 a 50 mil habitantes, “investimento público e privado” e “economia, emprego e desigualdade” são as categorias mais representadas, seguidas por “infraestrutura e serviços públicos”.
Sobre o tema “Investimento público e privado”, o relatório divulgado para a imprensa destaca que se observa clareza sobre o desenvolvimento sustentável. Os estudantes são capazes de reconhecer os benefícios dos investimentos, sem ignorar os prejuízos, e acreditam na possibilidade de progresso e preservação caminharem juntos. Entretanto, eles fazem uma ressalva: desde que haja responsabilidade, planejamento e estudo de impactos ambientais antes do início dessas obras.
O trecho a seguir, escrita pela aluna A.S.L. ilustra o tema:
“ (...) A maioria da população é a favor da pavimentação da rodovia, pois a mesma quando concluída trará como retorno a geração de empregos. Consequentemente acarretará a melhoria da qualidade de vida da população e o desenvolvimento, desde que seja de maneira sustentável, ou seja, devemos usar o que a natureza nos proporciona de maneira racional para que as futuras gerações também tenham acesso aos mesmos recursos.” (BR364: solução ou problema?)
Escola é preocupação maior em cidades pequenas
No total, as cidades de até 20 mil habitantes foram as únicas em que a “Escola” foi tema principal com maior frequência, aparecendo basicamente só nos textos originados nos municípios menores. O resultado chamou a atenção da coordenadora. “Será que num lugar menor a escola é uma instituição mais central, que ajuda a estruturar a vida e a rotina de uma pessoa?”, questiona.
A equipe chegou à conclusão que, de certa forma, os autores esperam muito da escola, passando uma visão romântica de que a educação pode ser solução para tudo. Entretanto, ao mesmo tempo, eles têm a clareza de que, para se caminhar nessa direção, há necessidade de muitos investimentos, e isso só é possível com a pressão dos movimentos populares. Em função da importância atribuída à escola, os textos se posicionam claramente a favor dos professores, vistos como figuras centrais no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. Os autores defendem, para estes profissionais, melhor remuneração, boas condições de trabalho, acesso a congressos e eventos culturais, como ilustra o trecho abaixo, escrito por A.J.V.:
“A educação é o princípio fundamental para a vida de um cidadão. E o principal fator para a contribuição de uma boa educação é um professor capacitado. O profissional que mais deveria ser valorizado é o professor e, para isto, deveria receber salário digno. Com isso, podem se aprimorar profissionalmente, comprar livros, fazer um curso de pós-graduação, aprender outras línguas; isso significa formação”. (Valorize o professor, pague o que ele merece).
Saúde e gestão pública
Na categoria Infraestrutura e Serviços Públicos, as questões de saúde pública constituem o tema mais frequente. Compõem esse quadro a insatisfação com o atendimento pelo SUS, a falta de médicos e de outros profissionais de saúde, a falta de medicamento nos postos, falta de UTI e queixas sobre as relações pouco amigáveis entre médicos e pacientes.
Segundo o relatório de imprensa, as causas dos problemas de infraestrutura e serviços apontadas são a definição errada de prioridades pela prefeitura, a ausência de um planejamento urbanístico, o baixo desenvolvimento do município, a escassez de verbas e a falta de envolvimento e participação da população.
Uma das redações analisadas no estudo critica a gestão pública, como pode-se perceber abaixo:
(...) “a atual gestão da prefeitura só se preocupa com a beleza do centro do município, enquanto a periferia sofre com a falta de água, sistema de esgoto, asfaltamento das ruas e remédios nos postos de saúde (...)” (E.M.N., Os problemas de infraestrutura nas periferias de Manicoré - AM).
Olimpíada de Língua Portuguesa Edição 2014
No dia 24 de fevereiro o Ministério da Educação (MEC) abre o período de inscrições da quarta edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro – O lugar onde vivo. O prazo para a realização termina em 30 de abril. A inscrição começa com os professores de língua portuguesa que lecionam do quinto ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio de escolas públicas. Entretanto, é preciso que as secretarias estaduais e municipais de educação façam a adesão, para que os professores possam participar.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.