Rússia e Ucrânia: entenda a questão energética por trás da guerra
A dependência europeia do gás natural russo tem impactado as decisões de líderes mundiais e os rumos do conflito
Em 24 de fevereiro deste ano, as tropas russas invadiram a Ucrânia, dando início a uma guerra que, segundo estimativas, já matou mais de 3 mil civis e deixou mais de 4.500 pessoas feridas. Entre as causas mais comuns apontadas para o conflito estão a expansão da Otan no Leste Europeu, as disputas separatistas no leste da Ucrânia e a própria ambição expansionista do presidente russo Vladimir Putin.
As consequências sociais, políticas e econômicas da invasão são muitas, mas existe um ponto específico que impacta diretamente os rumos do conflito e que pode ser cobrado nos vestibulares: a questão energética por trás da guerra.
Os combustíveis russos e a guerra
A Rússia se destaca no cenário mundial por conta da produção de petróleo e da exportação de gás natural. A venda desses combustíveis fósseis tem contribuído para a retomada da economia russa e para a reconstrução de seu poderio militar nas últimas duas décadas, período no qual Putin se consolidou na presidência.
Os países europeus estão entre os maiores importadores de combustíveis fósseis russos. O destaque é o gás natural, muito importante para geração de eletricidade, funcionamento das fábricas e sistemas de calefação, fundamentais no inverno rigoroso do continente.
A Rússia já ameaçou interromper o fornecimento de energia para alguns países que estariam ajudando o governo ucraniano durante a guerra.
"Embora efetivamente não tenha sido usado em grande escala, a estratégia da energia como 'arma de guerra', vem aparecendo constantemente nos discursos e ameaças de Vladimir Putin, que, inclusive, chegou a tomar uma medida recente contra a Finlândia", explica Daniel Simões, professor de Geografia do Curso Pré-Vestibular da Oficina do Estudante de Campinas (SP). A Finlândia é um país que faz divisa com a Rússia e não fazia parte da Otan, mas que formalizou o desejo de participar do bloco. O posicionamento foi avaliado pela Rússia como uma provocação e o governo decidiu interromper o fornecimento de gás para a região.
Os efeitos da dependência do gás russo
Em uma entrevista concedida à BBC News Mundo, Ángel Saz-Carranza, diretor do Centro de Economia Global e Geopolítica da escola espanhola de negócios Esade e professor visitante da Georgetown University, nos Estados Unidos, explicou que cerca de 40% da demanda de gás na Europa depende da oferta do gás russo. "É o calcanhar de Aquiles da Europa nesta guerra, sua grande vulnerabilidade, é isso que permite à Rússia capitalizar e financiar essa aventura."
Por conta dessa dependência, a Rússia acaba tendo um poder de influência sobre o continente, limitando atitudes militares mais drásticas que países europeus poderiam tomar em favor da Ucrânia, como a aplicação de sanções. Em um momento em que as economias mundiais estão se recuperando, com a instabilidade e os danos causados pela pandemia da covid-19, a situação fica ainda mais crítica.
"Temos percebido altas na inflação, o crescimento econômico ocorre de forma lenta e, se de repente ocorrer o encarecimento do gás ou a ausência dele, podem haver paralisações nas indústrias e redução forçada do consumo de energia", diz o professor do Oficina do Estudante. Segundo ele, isso tende a atrapalhar a retomada econômica em um cenário que já não é favorável.
Além disso, em meio ao contexto de instabilidade política como este, o preço do gás e do petróleo e, portanto, da energia em geral, já tende a apresentar uma alta, elevando os custos dos processos produtivos e dos transportes. O resultado são mais processos inflacionários e estagnação econômica.
Por essa razão, muitos líderes têm criticado a Rússia, mas hesitam de tomar posturas mais efetivas. "M esmo sendo contrários à invasão da Ucrânia, os países europeus não têm como promover uma intervenção mais agressiva na situação. Pelo contrário, acabam caindo na contradição e continuam financiando as ações militares russas, por meio da compra de petróleo e gás natural", explica Murilo Medici Navarro da Cruz, coordenador e professor de Geografia e Atualidades do Poliedro Colégio São José dos Campos.
Ángel Saz-Carranza ressalta, no entanto, que a situação acaba equilibrada pela dependência da Rússia do mercado europeu, ainda relevante. A capacidade do país de transportar gás para o Oriente é residual. À exceção do gás natural liquefeito, que pode ser exportado por meio de navios, quase todos os gasodutos da Rússia vão para o Ocidente.
A Europa tem alternativas?
Não existe nenhuma opção rápida. Segundo os especialistas, uma alternativa seria a importação via navio, em vez do bombeamento por gasodutos. Mas isso implicaria em um aumento considerável no custo final da operação.
Existe também a possibilidade de os países europeus aumentarem o uso de outras fontes de energia, queimando carvão ou usando combustível nuclear. Há, inclusive, uma tentativa de expandir a construção de usinas ou fontes de energia renováveis, como a solar e a eólica.
Mas, apesar do investimento de vários países do continente nos últimos anos, suas fontes de energia alternativa ainda representam uma parcela relativamente pequena de suas matrizes energéticas. " A longo prazo, são boas opções. A questão é que esse tipo de substituição não é feita da noite para o dia. O caminho de romper com o gás russo não é o ideal. Mesmo havendo alternativas, não são simples", diz Daniel Simões, do Oficina do Estudante.
Além da Rússia, Noruega (no Norte) e Argélia (no Sul) também são fornecedores de gás para a Europa que já possuem gasodutos construídos e conectados. Mas ambos os sistemas de produção e distribuição já estão no limite de suas capacidades, exigindo obras para a ampliação do fornecimento, o que demoraria, pelo menos, mais de um ano.
Também é discutido importar o gás de regiões mais distantes, como os Estados Unidos e o Catar. No entanto, por ter que atravessar longas distâncias, o gás precisa ser pressurizado e transformado em líquido para ser colocado em navios. Posteriormente, chegando aos portos europeus, é preciso que o combustível seja desembarcado em terminais de estocagem e de regaseificação (transformação novamente em gás) para só então ser distribuído para o interior do continente. Tais terminais são escassos nos portos europeus e a construção e ampliação do setor para garantir a substituição do combustível russo demoraria anos, segundo o coordenador do Poliedro.
Como o tema pode aparecer nos vestibulares
Os professores afirmam que a chance do tema aparecer nas provas é grande. Por isso, indicam alguns assuntos que merecem a atenção do vestibulando na hora dos estudos.
Para começar, é preciso saber localizar Rússia e Ucrânia no mapa e, principalmente, o Mar Cáspio, que é uma das maiores reservas de gás do mundo. É a partir dali que os gasodutos vão em direção à Europa Ocidental.
Já uma questão mais ampla pode abordar a matriz energética mundial, destacando como ainda há uma dependência muito forte de combustíveis fósseis e que situações como essa podem acelerar uma transição energética em vários países, tanto para diminuir a dependência da Rússia, quanto para avançar no cumprimento de metas ambientais. "É interessante o vestibulando revisar o Acordo de Paris, saber no que ele consiste e o que propõe em linhas gerais. Essa dedicação em busca de energias alternativas, em escala europeia, pode ser uma consequência positiva do conflito", afirma o coordenador do Oficina do Estudante.
Alguns países da Europa, como a Alemanha, preferiram abandonar o uso da energia nuclear nos últimos anos, enquanto iniciam uma tentativa de transição para matrizes energéticas mais limpas (solar e eólica). Mas é importante lembrar que essa transição ainda deve demorar anos, ou mesmo décadas, para se realizar.
Ainda em relação à questão energética, é importante retomar o fato de que as exportações russas de combustível vêm contribuindo de maneira fundamental para a retomada do poder russo após a crise que o país enfrentou com a queda da União Soviética (1991).
Por fim, vale revisar a questão dos sistemas de transporte. O transporte dutoviário é um dos mais eficientes, em termos de custo/benefício. Mas, tende a tornar compradores e vendedores mais dependentes, sendo um modelo menos flexível. Após investir muitos recursos para a construção dos dutos, os agentes envolvidos (empresas e países) precisam utilizar as mesmas rotas para o transporte dos combustíveis. Já no caso dos sistemas fluviais, a desvantagem é que não basta que haja portos, é preciso que estes sejam equipados com estruturas para o embarque ou desembarque dos produtos.