RO pede recolhimento de livros como 'Macunaíma' e 'Os Sertões'

Depois, governo mandou a rede de ensino "abortar" o procedimento e disse que secretário de educação não assinou documento

6 fev 2020
19h23
atualizado às 22h17
  • separator
  • 0
  • comentários

O governo de Rondônia pediu nesta quinta-feira que fossem recolhidos dezenas de livros das bibliotecas das escolas, entre eles clássicos da literatura brasileira como Macunaíma, Agosto, Os Sertões e Memórias Póstumas de Brás Cubas. A alegação era de que as obras tinham "conteúdos inadequados às crianças e adolescentes". O governo chegou a negar a existência do documento que pedia o recolhimento, mas depois mandou a rede "abortar" o procedimento e passou a alegar que o secretário de educação não o assinou.

Governador eleito em Rondônia pelo PSL, Coronel Marcos Rocha na ultima carreata do 2º turno em Porto Velho.
Governador eleito em Rondônia pelo PSL, Coronel Marcos Rocha na ultima carreata do 2º turno em Porto Velho.
Foto: Divulgação/PSL / Estadão Conteúdo

O Estadão teve acesso ao memorando no início da tarde, que incluía uma lista com 43 livros brasileiros e estrangeiros que deveriam ser "entregues ao Núcleo do Livro Didático" da secretaria estadual da educação. O texto estava em nome do secretário de educação, Suamy Lacerda de Abreu, mas a assinatura eletrônica no sistema era da diretora de educaçao do órgão, Irany de Oliveira Lima Morais, terceira na hierarquia da secretaria. O Estadão procurou Irany por meio de uma assessora, mas ela não retornou o contato. O secretário Abreu também não respondeu às ligações.

Professores e outros funcionários da rede conseguiram acessar o documento no sistema interno do governo, meio pelo qual os comunicados são feitos atualmente. No entanto, às 14h15, o memorando foi tornado "restrito" e não era possível mais visualizar seu conteúdo.

O governador de Rondônia é o Coronel Marcos Rocha (PSL), que já foi chefe do Centro de Inteligência da PM/RO e secretário municipal de educação de Porto Velho. Professores que falaram com a reportagem pediram para não terem seus nomes publicados por medo de perseguição. "As coordenadorias receberam mensagens já pedindo para que os livros fossem separados porque passariam para recolher", conta um deles. "O governo aqui é diretamente ligado à ideia do presidente Bolsonaro, só se fala em militarização das escolas."

Outros professores disseram que os livros já haviam sido inclusive colocados em caixas para serem recolhidos, a pedido das coordenadorias de educação. A carta do secretário era justamente dirigidas aos coordenadores regionais. No fim da tarde, professores e outros funcionários da rede de ensino receberam mensagem para "abortar" o procedimento. "Missão de recolhimento dos livros abortada. Caso façam contato com vocês sobre o tema, por favor, peçam que entrem em contato com a CRE. Grata!"

Integrantes do governo chegaram a dizer que o documento tratava-se de "fake news", mas depois não confirmaram oficialmente essa resposta. A lista de livros incluia ainda Memórias Póstumas de Bras Cubas, de Machado de Assis, A Vida como ela é e Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. Dezoito livros de Rubem Fonseca e sete de Carlos Heitor Cony também foram considerados impróprios, como O Seminarista e Mil e Uma Noites.  Havia ainda obras de Franz Kafka e Edgar Allam Poe. E também uma obervação indicando que "todos os livros de Rubem Alves deve ser recolhidos".

Veja também:

A igreja evangélica e metaleira que une todas as tribos

 

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade