Retorno presencial da educação infantil será desafio para redes pública e privada

Aulas online para alunos dessa idade acabam mantendo os pequenos muito tempo na frente das telas; especialistas e autoridades ainda discutem retorno presencial em meio aos riscos de contaminação e disseminação da covid-19

5 set 2020
21h10
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A educação infantil, entre todas as modalidades de ensino, talvez seja a mais mal compreendida pela sociedade. Para muitos, a atividade não passa de recreação ou um tipo de assistência em que basta aos profissionais ficarem de olho nas crianças para que elas não se machuquem. Não à toa, as instituições voltadas aos pequenos costumam ser apelidadas de "escolinhas".

Um conceito muito equivocado e cuja discussão voltou à tona no contexto da pandemia. Afinal, se é apenas um espaço complementar nessa fase da vida, por que parece fazer tanta falta após cinco meses de crianças trancafiadas em casa? É exatamente porque a educação na primeira infância é mais importante do que se imagina, defendem os especialistas.

"Com certeza a ausência da escola no sentido de primeiro contexto social para além da família traz prejuízos", avalia Carolina Velho, integrante da Rede Nacional pela Primeira Infância. "Os estímulos e as interações com os pais nessa faixa etária, no estágio em que podem ir à educação infantil, não são suficientes."

Carolina lembra que o País vem no processo de valorização dessa etapa - a primeira da educação básica -, com a matrícula obrigatória a partir dos 4 anos estabelecida em 2016. É na educação infantil que as crianças têm a possibilidade de interações e brincadeiras, com um processo pedagógico baseado em cuidado e aprendizagem.

Agora durante a pandemia há uma tentativa de manter o aprendizado e a interação. Mas, até pela pouca idade dos estudantes, os formatos e os resultados são controversos. As atividades online, por exemplo, são bastante contestadas. Ao mesmo tempo que são um paliativo para a manutenção do contato com colegas e professores, elas expandem o tempo das crianças em frente às telas.

Fora da escola, além dos prejuízos cognitivos, as crianças, em especial as que vivem situação de vulnerabilidade social, sofrem perdas de saúde física - seja pelo sedentarismo ou pela falta de acesso à nutrição balanceada. Sem a alimentação oferecida pelas escolas, cujos cardápios são elaborados por nutricionistas, há risco de desnutrição e obesidade, por causa do consumo de alimentos ultraprocessados com valores superlativos de gorduras saturadas, sódio e açúcar.

Perde-se também o papel zelador das escolas de educação infantil. Em muitas situações, são os professores que, no contato diário com as crianças, descobrem ocorrências de violência doméstica, como trabalho infantil e abusos sexuais.

Arremedo

Por fim, neste momento em que boa parte dos pais já teve de retornar à rotina externa de trabalho, essas crianças acabam passando o dia sob um cuidado improvisado. "Ao ter de trabalhar, uma mãe ou um pai delega o filho a uma vizinha ou a uma pessoa da comunidade, muito menos preparada para estar com essa criança. Daí o prejuízo na formação é aumentado", afirma Marco Aurélio Sáfadi, diretor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Listadas as razões pelas quais a educação infantil é importante e prioritária - e, como tal, não deve ser negligenciada no processo de retomada das aulas -, o desafio é mensurar os riscos do retorno e a adesão da população. "O que as evidências mostram é que as crianças desempenham um papel menor na transmissão (do coronavírus) comparado ao dos adultos, principalmente os adultos jovens, que são no momento os principais vetores de contágio", explica Sáfadi.

Segundo o pediatra, essas evidências não contradizem o estudo que detectou alta carga viral presente em crianças. A explicação está na alta predominância de casos assintomáticos entre a população dessa faixa etária. "Em um grupo de cem crianças infectadas, provavelmente 70 são assintomáticas. Com o mesmo conjunto de adultos, provavelmente 80 terão sintomas, o que significa que haverá tosse, espirro, coriza e vômitos, ações que proporcionam a disseminação do vírus. Por isso, as crianças assintomáticas representam um baixo vetor de transmissão. Porém não podemos bater o martelo, a ciência ainda está acumulando dados", diz.

Os indicativos animadores dos cientistas, no entanto, não se refletem na opinião da população. Uma pesquisa feita pela Prefeitura de São Paulo mostrou que 78% dos pais dos alunos da rede municipal são contrários à volta das aulas.

Comunicação

"Há o desafio da comunicação. Se não conseguirmos convencer a sociedade de que ter a escola fechada é muito mais prejudicial que o eventual risco de abri-la, não vamos ter a autorização social para percorrer todos os outros desafios", afirma Bruno Caetano, secretário de Educação da capital. "Não adianta termos o melhor protocolo de retorno às aulas e uma boa estratégia de recuperação das aprendizagens se não convencermos a sociedade de que há segurança."

Na capital paulista, a data de retorno ainda não foi definida - a Prefeitura aguarda os resultados de mais um inquérito sorológico. "Minha impressão é de que, se nas próximas semanas houver uma avaliação positiva desses indicadores(taxas de infecção e de óbitos), atrelada a uma boa estratégia de comunicação, reverteremos a opinião pública de que não deve haver retorno das aulas de forma imediata", completa o secretário.

Desafio do retorno também para adolescentes

Adolescentes também precisam de muito cuidado depois de cinco meses sem aulas e privados do convívio com os amigos. Principalmente porque é nessa fase da vida que ganha protagonismo o relacionamento com as pessoas fora do convívio familiar.

"Conversei recentemente com um adolescente com alguns problemas ligados ao momento atual. Disse para ele falar com os pais. 'Eu tentei, mas disseram que era bobagem', contou o jovem. Ele estava com ideias de suicídio."

A história narrada pela psicóloga e colunista do Estadão Rosely Sayão ilustra tanto as situações de depressão pelas quais adolescentes atravessam no período de isolamento como os problemas de comunicação com familiares. A transição nem sempre fácil entre infância e a maioridade ganha contornos aflitivos na pandemia.

"Eles foram jogados em uma situação infantilizada, que é estar em casa com os pais sem poder ganhar o mundo, algo que é próprio da adolescência", comenta Rosely. Depois de tanto tempo nessa situação, muitas famílias se encontram em uma espécie de "quarentena tóxica", em que os problemas e conflitos transbordam e quase não há meios de alívio.

Por isso, uma das principais recomendações é valorizar a escuta. Deve-se manter um diálogo para que os adolescentes possam ter segurança e liberdade de expor o que pensam e sentem, já que muitas dúvidas naturalmente rondam suas mentes nessa fase. "Tenhamos humildade para reconhecer que não sabemos de muitas coisas que os adolescentes gostariam de nos perguntar, mas que em nossas dúvidas e ansiedades podemos caminhar juntos e sermos boas companhias", aponta a psicóloga.

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Estadão
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