Templários, os Cavaleiros de Cristo

26 fev 2018
14h37
atualizado às 14h39
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"Nekan, adonai !!! Chol-begoal!!! Papa clemente... Cavaleiro Guilherme de Nogaret... Rei filipe: intimo-os a comparecer perante ao Tribunal de Deus dentro de um ano para receberem o justo castigo. Malditos! Malditos! Todos malditos até a décima terceira geração de vossas raças!!!"

Os templários
Os templários
Foto: iStock

Foram com essas derradeiras palavras que Jacques de Monay, o último Grão-Mestre da Ordem dos Templários, proferiu antes de começar a arder na fogueira acesa bem em frente a catedral de Notre-Dame em Paris, nela ele expiou ao anoitecer do dia 18 de março de 1314, imprecando contra o Papa, contra o guarda-selos do rei e contra o próprio soberano da França. E tinha toda a razão em lançar sua fúria contra os três. Um sórdido conluio entre o soberano Filipe o belo e o Papa Clemente V, tendo o agente do rei Nogaret como executor, fora quem determinara o destino da até então mais poderosa ordem dos monges guerreiros que a Europa conhecera e que ele dirigia.

Para suprema infâmia dos cavalheiros do Templo - aprisionados desde que os agentes do rei, num golpe de mão, invadiram-lhes as instalações na noite de 12 para 13 de outubro de 1307, na sua sede parisiense denominada Ville Neuve du Temple e em diversos outros lugares da França -  seus últimos dirigentes, além de terem perdido tudo (a posse dos castelos e das fortalezas, o imenso patrimônio que amealharam na França desde antes de voltaram da Terra Santa) foram arrastados aos tribunais reais denunciados pelas práticas de heresia e de pederastia.

Num processo forjado, nos quais os procedimentos inquisitoriais foram aplicados com toda a crueldade imaginável, acusaram-nos de serem adoradores pagãos do diabólico Baphomet, de cuspirem na cruz e de praticaram licenças sexuais uns com os outros. Arrancaram-lhes as confissões embaixo de terríveis tormentos onde, em meio aos urros de dor, com as carnes dilaceradas e queimadas, eles concordaram em dizer aos seus supliciadores o que eles queriam ouvir.

Filipe o belo, atiçado pelas declarações de um traidor, um ex-cavaleiro chamado Esquiseu de Floyran, o Judas dos Templários, não se conformara em desmantelar a organização e confiscar os valores da Ordem, quis desonrá-la para sempre. Por isso apontou-os como sodomitas. Daí a inclusão das denúncias de homossexualismo durante o julgamento. Acusação feita a De Monay e a outros 140  cavaleiros encarcerados.

Até poucos anos antes da catástrofe, a Ordem dos Templários era a mais prestigiada das três outras milícias de Cristo formadas no tempo em que Jerusalém ainda se encontrava sob o controle direto de príncipes cristãos. Depois da expulsão deles da Terra Santa, em 1291, os Cavaleiros Hospitalários confinaram-se na ilha de Chipre, e, mais tarde, na Ilha de Malta, enquanto os Cavaleiros Teutônicos, de volta à Alemanha, foram orientados no sentido de conquistarem as terras de poloneses e russos pagãos.

Geograficamente mais favorecidos, os Templários, hospedados em Paris (na grande construção denominada simplesmente como Le Temple, cujo erguimento iniciou-se em 1240), ficaram no coração da Europa de então. Suas sedes, mais numerosas na França (um total de 704 conventos e prelazias), espalhavam-se pela Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal, suas propriedades europeias totais, dos mais diversos tipos, somaram há mais de 9 mil. Devendo obediência apenas ao papa, sempre ausente ou distante, usufruíam da mais completa autonomia em relação aos reinos e aos bispados e baronatos que os acolhiam.

Graças ao empenho deles na causa defesa da Cristandade, ao heroísmo e coragem demonstrada nas batalhas contra o Islã, e devido a absoluta correção como se conduziam, os prédios em que aquartelavam os monges - desde que a Ordem fora fundada em Jerusalém, em 12 de junho de 1119, por Hugo Payens - tornaram-se locais seguríssimos.

Era tal a confiança que despertavam na nobreza europeia que não tardou para que seus conventos se transformassem em estabelecimentos bancários, ainda que informais, fazendo deles, entre os séculos XII e XIII, os principais agentes de crédito a quem reis e barões recorriam. Numa era de incertezas extremas, de pilhagens constantes, de guerras feudais intermitentes, acompanhadas sempre por saques, uma fortaleza daqueles monges soldados aparecia a todos os que tivessem bens sonantes como um oásis. Um cofre-forte inexpugnável. Talvez, não seja nenhum exagero dizer-se que a Ordem dos Templários, bem antes dos Fugger e dos Médici,  tornou-se o primeiro banco europeu. Assim foi que se gerou a lenda da fortuna fabulosa, mais jamais comprovada, do Tesouro dos Templários.

Aumentando e solidificando ainda mais a estranheza com que eles eram vistos pela gente comum, um véu de segredo parecia cobrir tudo o que dissesse respeito a eles. De fato, os rituais de admissão e iniciação dos monges guerreiros recendiam às práticas esotéricas das sociedades secretas, fato perfeitamente compreensível numa instituição fundada em território inimigo, como foram os primeiros tempos da Ordem dos Pobres Soldados de Cristo (designação original dos Templários). Nada se sabia do que ocorria no seu intra-muros, o voto de silêncio era obrigatório entre os integrantes da Ordem.

Todavia, a continuação daqueles ritos misteriosos em meios aos reinos cristãos somente aumentou contra eles a desconfiança geral. O que tornou plausível junto à opinião da época as incríveis e improcedentes acusações que lhes foram feitas. Ainda que Dante, contemporâneo da tragédia que se abateu sobre os templários,  tenha suspeitado da veracidade delas, o engenhoso pensador maiorquino Raimundo Lullio, o “Doctor Inspiratus”,  creditou-as como verdadeiras.

O templo em Paris (séc.XIII)
O templo em Paris (séc.XIII)
Foto: Reprodução

O declínio do ímpeto cruzado

A perda definitiva de Jerusalém, em 1244, e ocupação de São João d´Acre pelos muçulmanos em 1291, com a conseqüente expulsão dos cristãos da Palestina,  abateu o ânimo das empresas cruzadas. Espírito este já profundamente abalado desde que a Quarta Cruzada, desviando-se totalmente dos seus objetivos, terminara por assaltar Constantinopla, a capital oriental da Cristandade, em 1204. Algo que começara como um forte e sincero apelo da fé: a retomada dos Lugares Santos, desandara numa operação de traição e pilhagem como a que ocorrera com a Maçã  de Prata (apelido de Constantinopla). A própria reciclagem da função da Ordem, de trincheira de cavaleiros cruzados para banco de empréstimos, foi significativa disso. A espada que fora colocada a serviço de Deus, por força das circunstâncias agora protegia o patrimônio dos ricos.

Deste modo, a cabeça coroada de Filipe o belo, monarca sempre carente de recursos,  deu em pensar qual a utilidade verdadeira do tesouro dos Templários? Se não se prestava mais para financiar as incursões e expedições dos cristãos em território muçulmano para que servia?

Além disso, aquela constelação de castelos, fortalezas e conventos, nas mãos dos milicianos de Cristo, formava um império fora do controle do soberano: era um estado dentro do estado, algo perigoso para sua estabilidade.

O rei, despido de qualquer constrangimento moral, agiu como um hábil jogador de xadrez. Para conquistar a “torre” do Templo,  ele primeiro derrubou o “bispo” que lhe dava sustentação: o papa romano. Sempre recorrendo ao prestativo Guilherme de Nogaret, Filipe  simplesmente destituiu Bonifácio VIII, acusando-o de heresia. Em seguida, tramou a indicação de um arcebispo francês, Bertrand de Goth, para assumir o trono de São Pedro sob o nome de Celestino V, em junho de 1305. Ora, a imunidade da Ordem dos Templários derivava da especial proteção do Papado, a quem ela devia obediência. Colocando a mitra sobre  um pontífice obediente aos seus desígnios, Filipe o belo não demorou em obter o consentimento na supressão dos templários por meio de um consistório privado. (*)

(*) Qual seria o motivo do papado retirar sua proteção especial sobre a Ordem do Templo além da narrada acima? Deve-se recuar mais ou menos um século para entender a posição da Curia de Roma, época em se deu a cruzada contra os cátaros, ou albigenses (da cidade de Alba, na região da Provence (sul da França). O papa Inocêncio III convocou os barões a atacarem os castelos dos cátaros, entendidos como hereges sujeitos ao extermínio. A cruzada dos cátaros estendeu-se por 40 e poucos anos (de 1209 a 1255), mas não contou com a presença dos Cavaleiros do Templo que, apesar das ordens papais, se negaram a emprestar suas espadas para matar cristão. Decisão nobre e corajosa que precipitou o seu fim.

 

Fonte: Especial para Terra

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