Renúncia e Legalidade III: a política esquizofrênica de Jânio
- Voltaire Schilling
Empossado em 31 de janeiro de 1961, em meio a um mar de esperanças, sucedendo o governo bastante desgastado de Juscelino Kubitschek, que legou-lhe uma expressiva inflação, os sete meses de governo de Jânio Quadros revelaram-se uma autêntica esquizofrenia política.
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No plano econômico interno, seguia a cartilha conservadora, aplicando as severas medidas de contenção dos gastos públicos determinadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), de quem obteve um empréstimo, removendo subsídios ao combustível e ao trigo, o que encareceu o transporte público e o pão.
No plano internacional, porém, mostrou-se progressista, advogando uma "política externa independente". Em plena Guerra Fria, quando o alinhamento da política externa brasileira era automático aos interesses dos Estados Unidos, decidiu a reatar as relações com a URSS e a China comunista, enviando João Goulart em visita oficial à Pequim. Igualmente, apoiou Fidel Castro contra os norte-americanos na questão do desembarque na Baia dos Porcos e, para profunda irritação dos militares anticomunistas e próceres da UDN, como Carlos Lacerda, inesperadamente condecorou Che Guevara, o maior símbolo vivo da luta antiamericana no Continente, com a Ordem do Cruzeiro do Sul.
Esta confusa mistura de medidas conservadoras, seguindo a cartilha do FMI, com a ação afirmativa na política externa, identificada com o Movimento dos Não-alinhados, distante dos Estados Unidos, não poderia durar muito. Além disso, esperava-se muito mais dele.
Jânio, num surto de idiotice, ainda proibiu o uso de biquínis nas praias brasileiras e suspendeu as rinhas de galo em todo o país. A impressão que o país passou a ter é de que a "montanha parira um rato", tamanho o despropósito entre as esperanças estimuladas pela ascensão de Jânio Quadros e o resultado obtido até aquele momento. Foi então que se deu o pior: o presidente renunciou!
A solução Gaullista
Líder carismático, autoritário, homem fora dos quadros partidários tradicionais, o presidente revelou-se incapaz de conduzir uma relação harmônica com um Congresso em mãos da oposição. Assim, revelam as fontes, pensou em imitar o presidente da França, Charles de Gaulle, que, em 1958, explorando a situação de crise nacional, conseguiu obter poderes extraordinários de um Legislativo totalmente obediente a ele.
Jânio Quadros pensou que, se renunciasse, o povo e as forças armadas, em uníssono, o trariam de volta numa solução cesarista. Assim, ungido pela vontade popular soberana nas ruas, ele teria as condições de governar o país sem controle, independentemente dos partidos e do Congresso.
Porém, nada disso se deu. A Carta da Renúncia enviada ao Congresso em 25 de agosto de 1961, uma sexta-feira, logo após um tumulto provocado por Carlos Lacerda, que chegara à manchete dos jornais, imediatamente foi aceita. O pretenso golpe de Jânio Quadros caiu no vazio.
À tarde do dia 25 de agosto de 1961, o país, perplexo, estonteado, escutou pelo rádio e pela televisão a inexplicável notícia da renúncia do seu presidente.
Trecho
"Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, neste sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais ao apetite e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantaram-se e me intrigam ou me difamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranqüilidade, ora quebradas, indispensáveis ao exercício da minha autoridade."