Pestes e pragas

26 jun 2020
18h28
atualizado às 18h29
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Pulgas! Sim, aos milhares. Vindas emaranhadas nos pelos dos ratos, logo que o barco genovês, vindo do Mar Negro,  ancorou em Messina na Sicília, elas fizeram a festa. O ano era o de 1347 e,  em semanas, a difusa presença delas  abateu um quarto da população local. A peste, parece que remotamente originada da China,  alastrou-se então para o restante do continente europeu, subindo pela bota italiana, entrando na França, na Espanha e na Alemanha. A pandemia que tudo  devastou  no século XIV , segundo os estudiosos, resultou de uma rara combinação de bactérias bubônicas ( a Yersinia pestis)  e neumônicas que , como se acertassem um pacto maligno, se associaram a outras sepsias pestíferas, vindo a matar meio mundo. Caldo fértil é o que não faltou. Desde a queda do império romano no século V, a Europa tinha virado numa imundice só.

A vitória da morte (tela de Brueghel)
A vitória da morte (tela de Brueghel)
Foto: Reprodução

O colapso do eficiente sistema sanitário -  aquedutos e  termas -  que os  administradores imperiais haviam construído no tempo do império, ruíra ao atropelo da horda bárbara. Gente habituada a morar nos matos, em acampamentos de guerra ou nas clareiras de florestas, nos climas frios do Norte, os godos, os suevos, os lombardos ou os francos e seus descendentes, não tinham os bons hábitos de  higiene como era o caso dos  moradores das cidades que conquistavam, civilizados há tempos  pelos costumes de Roma.

A falta de higiene

Porcalhões que eram, os bárbaros comiam com as mãos, ou com colheres de pau que  enfiavam todos no mesmo tempo num sopão ou num cozido qualquer colocado no meio da mesa. Limpavam-se onde dava, na crina do cavalo ou num lombo de um coelho, como um manual de bons modos da época recomendava. A maioria nas mangas da camisa, do casaco, ou nas toalhas de mesa. Mesmo entre a nobreza era costume fazer-se a ceia em meio aos animais da casa, especialmente os amados cães de caça do senhor, que avançavam nos pratos com a mesma sem cerimônia que circulavam a vontade ao redor da mesa de jantar.  Quanto aos restos da casa, as sobras,   tinham por hábito jogá-los aos porcos soltos nas ruas, que assim, com seus focinhos,  encarregavam-se de faxinarem o estreito e acanhado espaço público. Banho? Nem pensar. Convertidos ao cristianismo, a maioria dos bárbaros,  ensinados pelos padres.  acreditavam que ensaboar-se era excitar o demônio, atiçar a luxúria, provocar o sexo. Uma tina com água quente era um poço de pecado, uma perdição! Coisa tolerada somente em épocas de núpcias ou de grandes festas. Entende-se assim que, quando a praga bubônica atacou,  “quem almoçava com os amigos”, observou Boccaccio, “jantava com seus ancestrais no Paraíso”.

O odor e os perfumes

O verão europeu era um escândalo em cheiros fortes. Além dos chamados odores naturais -  os miasmas que envolviam uma cidade ou vilarejo sem esgotos - , passar em frente a uma igreja naquela estação era uma temeridade. Os mortos ilustres, os bispos, os  padres, os mestres da capela, os figurões locais, eram todos sepultados no chão delas. Imaginem o suplicio em ter-se que assistir-se, no calor,  uma missa! Lá debaixo daquelas tábuas, que deviam ser  sagradas, os defuntos lá enterrados expeliam a sudoração dos infernos. Daí os franceses lançarem-se a combatê-los,  e aos demais maus odores,  com uma profusão sem-fim de perfumes espargidos sobre lenços sempre levados às narinas. 

Peste e Literatura

Com tais condições sanitárias, ou melhor, com a falta delas,  nada de surpresas em saber-se que, entre 1347 e 1351, dependendo da região, a Peste Negra matou entre 25 a 50%  dos europeus, o que perfaz uns 25 milhões de pessoas mortas. (*). Em Montpellier, por exemplo, só 7 frades num total de 140 dominicanos do convento sobreviveram. Em Marselha todos os 150 franciscanos foram chamados de uma vez só aos céus. Na região do Perpinhão, na Espanha, dos 125 notários que existiam sobraram só 45, dos dez médicos somente um continuou vivo,  e 16 dos barbeiros cirurgiões, entre 18, morreram de peste. Nem o papa Clemente VI, habitando então a bela Avignon, no Sul da França, escapou de incomodar-se. Quando as mortes atingiram a 400 pessoas por dia, entre 1348-9,  na então capital da cristandade,  ele foi removido para um lugar distante para aguardar a praga enfraquecer. Se mesmo o representante de Deus na Terra era perseguido assim, imagine-se o restante. Ao menos tal tragédia legou  dois livros soberbos, divertidos: o Decamerão de Boccaccio, e os Cantos de Canterbury de Chaucer, surgidos um em 1353 e o outro em 1386. Blasfêmia dos autores? Desrespeito aos caídos? Não. O que restava a eles depois daquele dilúvio de mortos senão dar aos sobreviventes um pouco de entretenimento?

(*) O déficit populacional provocado pela Peste Negra
 

Dados da demografia européia

Ano População estimada
1000 38 milhões
1100 48 milhões 
1200 59 milhões
1300 70 milhões
1347 75 milhões
1352 50 milhões
  Fonte: D.O.Mckay. Brigham Young University

 

A crônica de uma testemunha

         “A mortandade em Siena começou em maio ( de 1347). Foi uma coisa cruel e horrível: não sei por onde começar a falar da sua crueldade e dos seus sofrimentos horríveis. Diria que todos ficaram idiotizados ao ver aquela dor. É impossível para a língua humana narrar a horrível verdade. Na verdade, quem não viu tais coisas horríveis pode considerar-se um bem-aventurado. Já as vítimas morriam imediatamente. Inchavam-lhes os  sovacos e a íngua e caiam mesmo ao estarem falando. O pai abandonava o filho, a mulher ao marido, o irmão ao irmão, porque esta enfermidade parecia atacar o ânimo e a vista. E assim, morriam. Já não podia encontrar-se ninguém que enterrasse os mortos por amizade ou por dinheiro. Os membros de um família levavam seus mortos para uma vala, como podiam, sem sacerdotes e sem ofícios divinos. Tampouco soavam os sinos para os mortos, e em muitos lugares de Siena escavaram-se grandes fossos e os cobriram com a multidão de mortos, que  faleciam às centenas, de dia e de noite, e todos eram jogados nessas valas  e cobertos de terra. E quando as valas estavam cheias, escavavam-se outras. E eu, Agnolo di Tura... enterrei meus cinco filhos com minhas próprias mãos...E assim tantos morreram que todos acreditaram que aquilo era o fim do mundo. “

Agnolo di Tura – Cronaca senese, séc. XIV
 

Outras pandemias

Foto: Reprodução

Três séculos e meio depois, no século XVII,  houve ainda  outra dessas pandemias, a chamada  Grande Praga de Londres, que igualmente devastou Milão e boa parte da Lombardia (Coube a Alessandro  Manzoni, pai da  moderna literatura italiana,   narrar os horrores que ela provocou num impressionante capitulo do Os Noivos, 1825). Ainda 1848-50, no rescaldo da revolução fracassada, uma epidemia de cólera arrasou com grande parte do interior da França. Aliás,  foi na língua francesa que apareceu o último livro importante tratando de uma pandemia: “A Peste” de Albert Camus, editado em 1947. A novela – tida como uma exemplar metáfora da Europa dominada pelos nazistas -  narra os tormentos que a população de Oran, cidade argelina,  sofre durante o período de um longo confinamento em que fica submetida, castigada por uma devastadora peste e de que modo os seres humanos comportam-se naquelas terríveis circunstâncias, onde contrastam a atitude abnegada dos médicos e enfermeiras com a venalidade dos contrabandistas humanos que se dedicam a traficar gente para fora do cordão sanitário que mantinha a cidade afastada do mundo. 


A Peste Negra, enterrando os mortos

Encerrou-se esta sucessão de gravíssimos surtos epidêmicos com a Influenza de 1918/9, chamada no Brasil de a Gripe Espanhola, talvez a primeira pandemia realmente universal, visto o mundo inteiro estar em guerra. Abatendo suas primeiras vitimas nas trincheiras do Somme e de Verdum, ela  espalhou-se em seguida por todos os continentes, ceifando mais de 20 milhões de pessoas ( mais mortos dos que os atingidos pelas balas e estilhaços de 1914-18). Tal  acervo de desgraças não saiu mais da memória dos europeus, deixando-os assim com a sensibilidade à flor da pele. Hoje, basta um par de garotos passar mal do estômago por causa de uma barra de chocolate ou por terem ingerido uma lata de refrigerante, para que o pânico se alastre por lá. A psicose que os assalta faz com que fábricas inteiras se vejam constrangidas a suspender a produção de alimentos ou bebidas. Tudo isso é revelador de como o inconsciente coletivo dos europeus ainda armazena poderosas recordações das desgraçadas  pragas que varreram no passado o continente deles. 

Camus, o autor de “A Peste”, 1947
Camus, o autor de “A Peste”, 1947
Foto: Reprodução

A superstição moderna

Os surtos de histeria coletiva que volta e meia assolam os europeus nos dias de hoje nada mais são do que uma sobrevivência supersticiosa dos tempos pestíferos. Resulta, as paranóias atuais,  da lembrança que a bubônica e o cólera  ainda exercem sobre o imaginário deles. Petrarca, que escapou da Morte Negra, perplexo com o que a sua geração passara naqueles anos trágicos, temeu  que os relatos dos testemunhos do que ocorrera fossem vistos no futuro  como  uma  fábula.  O que ele não  supôs é que, apesar das pandemias e das mortes hoje não mais ocorrerem,   o pavor às pestes ainda continuaria a assustar os homens do Velho Mundo mesmo no século XXI. Hoje sim,  cada vez mais como fábula.

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Fonte: Especial para Terra
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