Novela da Tirania

22 out 2018
17h37
atualizado às 17h43
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The belief in a supernatural source of evil is not necessary; men alone are quite capable of every wickedness.
(A crença numa origem sobrenatural do mal não é necessária: o homem por si só é capaz  de qualquer maldade)
Joseph Conrad Heart of darkness, 1902.

O Moloch tropical
O Moloch tropical
Foto: Divulgação

Todos eles se parecem. Em trajes civis ou saindo das casernas cobertos de medalhas os tiranos latino-americanos formam uma confraria de animais políticos singulares, cujas origens remontam ao Movimento de Independência (1810-1825) e às guerras civis que se seguiram (até a batalha de Monte Caseros, 1852).

Além da personalidade autoritária e o gosto por óculos escuros, o que mais os identifica é o profundo desprezo pela normalidade constitucional. Apreciam assim mesmo de fazer aprovar em assembléias dóceis, magnas cartas com altissonantes intenções e as mais variadas proteções aos direitos das gentes, os quais eles são os primeiros a infringir. 

A ausência da normalidade constitucional tem por sua vez um sentido político: é deixar todos inseguros. Assim as coisas, homens ou bestas, dependem sempre da veneta de Sua Excelência. Estaria ele hoje num bom dia? 

Desnecessário lembrar que os processos eleitorais que ele engendra são pura farsa. São os olhos do mundo civilizado, pairando lá de fora, que o forçam a adotar aqueles ridículos rituais sufragistas. Para que, sempre pensou ele, recorrer às urnas se afinal todo povo o adora?  Enfim, se assim querem, as terão. Então é um sem fim de tramóias, de listas falsas, de votantes que nunca ninguém viu. Até os mortos atendem ao seu apelo.

Comovem-no, ao Supremo, ver nas datas eleitorais, o desfile  das almas penadas que, erguidas das tumbas, uma a uma, com fervor cidadão,  depositam o seu precioso voto no partido oficialista. Fantasmas solenes, defuntos cívicos  que jamais o deixaram mal num dia daqueles.  Prova insofismável que até o sobrenatural o apoia.

A tal de Declaração dos Direitos, medita ele, é coisa de frouxos. De liberais pouco viris, aduladores das massas, temerosos das assombrações da vida pública. O que impera é o cassetete, a chibata! A paz social nesta parte desgraçada da América não se consegue  senão pelo medo, pela delação, pela prisão arbitrária, pelo sumiço. Prática que,  segundo ele,  nada mais é do que a expressão maior do autêntico patriotismo exercido gratuitamente.  

É por saberem que o olho d´O Supremo paira sobre todos vinte quatros horas por dia, e que seus ouvidos estão sempre atentos ao que os soplones lhe contam, é que a tranqüilidade impera. A quietude que advém do governo do Chefe   resulta pois da redução dos indivíduos à infâmia permanente, ao estado de se verem como  bichos assustados. Entende ele, mais do ninguém,  que poder é dinheiro. E, como nunca se sabe o dia de amanhã,  é sempre bom Sua Excelência, este sátrapa do diabo,  digno herdeiro dos piratas do Caribe,  precavendo-se, ter algum tesouro enterrado num banco do exterior.

A liberdade de expressão, para ele,  só serve aos opositores, gente rancorosa,  subversivos anti-pátria, que aproveitam-se das rádios, dos jornais e de tudo o mais que possam imprimir,  para desaforá-lo, confundindo a cabeça  do bom povo do país  jogando-o contra o governo, contra Deus mesmo. E pior, ainda se queixam que levam pancadas! Que suas casas são invadidas pelos agentes do Magnânimo, que lhes levam tudo, por vezes, até os móveis, quando não mulheres e filhas. Ingratos! Deveriam  erguer preces aos céus por ainda estarem vivos, aspirando com suas narinas mal-agradecidas o ar livre mantido pelo salve-pátria.

O que mais exaspera o Grande Pai , deixando-o em fúria contida, são aquelas visitas que bispos,  núncios   e  embaixadores e cônsules americanos,  lhe fazem para transmitir o desconforto com os “excessos” do regime. Logo quem! Pois não foi o Santo Oficio quem, nos tempos em que Deus mandava na terra,  trouxe para o Novo Mundo o polé, a roda, o trono-de-fogo e outras artimanhas que Satanás colocou à disposição dos santos interrogadores para ajudar a extrair as confissões dos ímpios? Ou por acaso acreditam que foi com a água benta  que se limparam as nações do paganismo e da heresia? Agora, esses hipócritas, estão aí em fila, na antecâmara do palácio, reclamando sabe-se lá o que mais.       

E quem os gringos pensam que são? Assaram e desfolharam o Vietnã inteiro e agora mostram, com recortes dos jornais daquela Babilônia liberal que é Nova Iorque,  à Sua Excelência que um ou outro desses contumazes eterrnos liberalóides insatisfeitos que existem em qualquer sociedade, sofreu um susto nas mãos de um bom capataz de delegacia dos meus.  

Coisa menor, de pouca monta, nada o suficiente para que o desventurado escapasse e  saísse por ai, com o tanto da boca que lhe restou,  a deitar falação sobre os danos da carne que padeceu.    

O Magnífico sabe que os tempos mudaram. Não o querem mais. Uma tralha de maricões liberais encastelados em Washington  em conluio com os vende-pátrias seus inimigos, forçou a sua aposentadoria.  Que assim seja, paciência! O Sapiente, porém,  é ciente de que este é um continente amaldiçoado e que este povaréu esquecido por Deus só faz loucuras quando lhe soltam os bridões. Ele se resigna. Respira fundo, e fica contando os dias em  que irão lá chamá-lo de volta.

(*) Este texto serviu como apresentação não-convencional do livro de Mario Vargas Llosa sobre o ditador da República Dominicana, Rafael Leônidas Trujillo morto num atentado apoiado pelos EUA, em 1961, intitulado “ A Festa do Bode”.Alfaguara Brasil, 2011.
 

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Fonte: Voltaire Schilling
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