Mundo Islã, as múltiplas faces do Profeta

11 out 2017
17h16
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Sob a bandeira do Profeta Maomé, morto na cidade de Medina em 632, se abrigaram ao longo de quatorze séculos as mais diversas organizações e agrupamentos étnicos e raciais do mundo, fazendo do Islã uma das maiores concentrações religiosas que a humanidade conhece. Os seguidores do Alcorão provavelmente alcançam o assombroso número de um bilhão e quatrocentos milhões de fiéis, o que corresponde mais ou menos a ¼ da população da terra, sendo a única das grandes crenças que não para de se expandir.

A Casa da Ciência
A Casa da Ciência
Foto: Divulgação

A Casa do Islã e a Casa dos Conflitos

Geopoliticamente a Dal al-Islam, a Casa do Islã, situa-se na parte central do planeta (da costa atlântica africana até os desertos da Ásia Central), enfrentando os desafios diversos provocados pela sua oposta, a  Dar al-Harb,  a Casa dos Conflitos, formada pelas regiões que a cercam,  motivo que leva a que os ensinamentos do Profeta sejam utilizados para os mais diferentes objetivos.

Tanto os que se inserem na defesa do tradicionalismo antimodernista e da ortodoxia religiosa como os que se colocam a serviço da resistência nacional armada ou da revolução social e política.

O Islã, pois, aparece, nos vários continentes onde se fixou de modo diferenciado: a face do Profeta pode assemelhar-se tanto a um escudo como a ponta de uma lança, pode ser a esperança da emancipação de um povo ou a rudeza da opressão de um governo, mas nunca uma coisa só, enfrentando de modo diferenciado as religiões e culturas que propõe substituir, conviver ou combater.

No seu berço, nos seus começos no Hijaz, na Arábia Ocidental do século VII, a pregação do Corão representou com seu férreo monoteísmo a luta contra o tribalismo beduíno e árabe e seus cultos domésticos e sua superação pela formação de uma Umã, a comunidade solidária e obediente a um só chefe, o califa.

Condição esta que explica o impressionante processo de expansão seguinte à morte de Maomé, quando entre 650 e 750, seus sucessores em um século só, fizeram o Islã estender-se dos Pirineus, na fronteira da Espanha com a França, até a Cordilheira do Himalaia e aos desertos da Cazaquistão na Ásia (uma extensão de 9 mil km por 5 mil km.)

Frente à Bizâncio,  Índia e África

Bem nos seus começos, frente ao Cristianismo Bizantino a quem por primeiro deu combate, o islamismo representou a libertação das duras exigências que a religião de Cristo então fazia aos seus fiéis (a condenação ao sexo, o desprezo ao corpo, os martírios físicos, a vida eremita, etc.), bem como livrando as populações do Levante e do norte da África da dominação do decadente Império Bizantino (390 – 1453) como também do Império Sassânida da Pérsia (224 e 651), batidos militarmente entre 640 e 650.

Conquanto em relação ao Hinduísmo, religião extremamente hierárquica de múltiplos deuses e mais de três mil castas, após ter ocupado o Sind, o Islã se apresentou como um movimento monoteísta igualitário que submetia todos a um só deus, a Alá, integrando nas orações e na freqüência à mesquita tanto o pária como o ariano, tanto o intocável como o ricaço.

Na África subsaariana, na Nigéria e no Sudão, todavia, seguir as palavras do Profeta se tornou a religião dos nobres, dos sobas e régulos tribais vitoriosos e também dos traficantes de escravos que faziam razias no continente negro atrás de cativos. Isso fazia do converso um ser superior, mais instruído que a massa bruta africana que professava o animismo e seus ancestrais cultos tribais. Quando nas poucas vezes que islamitas  africanos eram capturados como escravos e levados para a América, deles é que partiam a maioria das insurreições antiescravistas, como foi o caso do Levante dos Malês, na Bahia, em 1835.

Separatismo, revolução e resistência

Nos Estados Unidos, a ascensão deles é mais recente, e deve-se ao desejo das lideranças dos Blacks Muslims (Elijah Muhammad, Malcon X e Louis Farrakan), organização fundada nos começos de 1930, de se apartarem do Cristianismo, especialmente o de versão batista (que entendem ser a fé do senhores-de-escravos do sul do país), e advogarem a formação de uma Nação do Islã, exclusiva dos negros norte-americanos.

Todavia, nas Filipinas, parcialmente convertida ao Islã no século XIV, a fé em Maomé atuou como um bastião da resistência nativa contra o Catolicismo trazido pela conquista espanhola do século XVI e depois, na luta a ocupação norte-americana ocorrida na esteira da guerra hispano-americana de 1898.

Nos dias atuais, por meio da guerrilha do Movimento Abu Sayyaf, representa o sentimento separatista das ilhas do sul do arquipélago filipino, especialmente o da ilha de Mindanau, contra o governo de Manilha. Se nas Filipinas, o Islã se propõe como separatista, no vizinho arquipélago da Indonésia (numericamente o país que mais tem convertidos ao Corão) age ao contrário.

As lideranças muçulmanas cuidam para que a integridade do estado-nacional indonésio não sofra ameaça de secessão, no caso representando pelas minorias cristãs que povoam a ilha de Aceh e do Timor Leste, agindo independentemente das autoridades no sentido de reprimir o faccionismo motivado por mandamento religioso.

No Irã, a revivência islâmica tomou forma de uma Revolução Nacional contra o Xarado conduzida pelos aiatolás xiitas que se revoltaram primeiramente contra a ditadura ocidentalizante do xá Reza Pahlevi, afastando-o do poder em janeiro de 1979, e, em seguida contra os Estados Unidos que o apoiava.

No Afeganistão, durante a intervenção militar soviética (1979-1988), a Bandeira do Profeta foi a principal inspiração dos mujahedins, os combatentes islâmicos, na longa e sangrenta guerra de guerrilhas que mantiveram contra o Partido Comunista afegão (Khalq/Parcham) apoiado pelo Exército Vermelho ao longo de quase dez anos, forçando-o a retirar-se.

Depois da vitória alcançada, terminou sendo a Milícia Talibã, liderada pelo Mullah Omar, quem implantou um Emirado Islâmico no país em 1996, regime ultra-ortodoxo que durou até a invasão norte-americana de outubro de 2001 (hoje são os mesmos talibãs quem sustentam a resistência contra a ocupação norte-americana e seus aliados da OTAN).

Sucesso este que serviu como estimulo para que um movimento islamo-autonomista eclodisse na Chechênica em 1991, enfrentando a Rússia. Insurreição armada desencadeada pelos guerrilheiros islâmicos liderados pelos comandantes Movladi Udugov, Selimkhan Yandarbiev e Shamil Basayev (morto em julho de 2006), tendo como meta a instituição de uma República Islâmica que abarcasse a Chechênia e o vizinho Dagestão, pequenas regiões muçulmanas encravadas no Cáucaso, controlada pelo Partido da Renascença Islâmica (dito Wahabitas). Tal pretensão de estender as fronteiras islâmicas para além da Chechênia conduziu a Rússia a fazer uma brutal intervenção militar a partir de 1994, levando à destruição de boa parte da região.

Na Palestina e no Líbano, tanto na sua versão sunita (Hamas) como na xiita (Hezbollah), o apelo ao Corão assume-se como um instrumento de luta das populações locais contra a presença do estado de Israel (fundado em 1947), mantendo há décadas uma guerra de atrito contra o Tashal.

As fronteiras quentes do Islã

Áreas de atrito e de guerra do Islã
Áreas de atrito e de guerra do Islã
Foto: Divulgação

(1) Europa

Bósnia: Declaração separatista de 1991-2, que levou a formação da República da Bósnia Muçulmana liderada pelo Presidente Alija Izetbegovic (1996-2000). Autor do Manifesto “A Declaração Islâmica” (1970), que afirmava da impossibilidade de paz ou coexistência entre a fé islâmica e instituições sócio-políticas não-islâmicas. Objetivo: poder muçulmano sobre a Bósnia inteira. Contra o Estado Iugoslavo Secular e contra o comunismo agonizante, apoiada pelos EUA e OTAN.

Kosovo: Insurgência de albaneses do KLA (Kosovo Liberation Army), ou UÇK (Ushtrija Çlirimtare e Kosoves), em 1997-8, estimulada pelo presidente albanês Sali Berisha. Objetivo: formar a Grande Albânia Muçulmana (Albânia-Kosovo-Macedônia albanesa). Contra o Estado Sérvio secular e contra o Estado Macedônico. Apoiada pelos EUA e OTAN.

(2) Cáucaso

Chechênia: Movimento guerrilheiro islâmico que visa à independência da ex-república da Chechênia liderada pelos Waabitas que pretendem compor com o vizinho Dagestão uma Confederação Islâmica no Cáucaso abrangendo as nações islâmicas da na Ásia Menor. Luta contra o atual estado russo, sucessor do império czarista e do império soviético.

(3) Ásia Ocidental

Afeganistão:Resistência dos mujahedins, os guerreiros de Alá, contra a presença soviética no país, expulsa finalmente em 1988. Posteriormente, em 1996, o poder em Cabul foi controlado pelos talibãs, os seminaristas, grupo islâmico ortodoxo liderado pelo Mullah Omar, que impôs a sharia, a lei corâmica como constituição do país (de 1996 a 2002). Resistência armada em forma de guerrilhas contra o Exército Vermelho (1979-1988) e depois se voltou contra a presença das forças de ocupação norte-americana e seus aliados da OTAN (a partir de 2003).

Irã: Centro da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Kohmeini que derrubou o xá Reza Pahlevi, em 1979, principal aliado norte-americano na região. Implantação de uma República Islâmica de feição xiita (rival dos sunitas) que promoveu a abolição dos costumes ocidentais e desde então tem sido fonte de inspiração maior dos fundamentalistas muçulmanos. Renascimento religioso dos xiitas. Luta contra os valores ocidentais que consideram decadentes e imorais.

(4) Índia/Paquistão

Cachemira: Movimento de guerrilha, apoiado pelo vizinho Paquistão, alternado com violentos atentados terroristas contra a continuidade do domínio indiano sobre a província do Jamu-Cachemira. Os jihadistas, os combatentes de Alá, que atentam contra hindus e contra budistas do Cachemira, dividem-se entre aqueles que desejam a integração com o Paquistão e os que lutam pelo Azad Cachemira (independente tanto do Paquistão como da Índia). Enfrentamento com o Estado Indiano pelo controle da Caxemira que entendem dever ser uma república islâmica. A Índia quer manter o controle para manter a Cachemira, de maioria muçulmana, como exemplo de um estado secular. Este impasse provocou as três guerras entre a Índia e o Paquistão (1947 1965 e 1971).

(5 e 6) Sudeste Asiático

Indonésia: JI (Jemaah Islamiah), inspirada por Abu Bakar Baysir, seguidor da Darul Islam, resistência muçulmana e hostil ao estado secular. Objetivo: a formação de uma Confederação Pan-Islâmica cobrindo a Malásia, Indonésia, Singapura e as ilhas Mindanau das Filipinas. Contra o Estado Indonésio Secular e mais ainda presença Ocidental em Timor Leste e as tentativas separatistas dos cristãos (caso da província de Aceh).

Filipinas: Abu Sayyaf: movimento guerrilheiro muçulmano separatista, fundado por Abdurajak Abubakar Janjalani em 1980. É uma facção da Frente Moura de Libertação Nacional. Objetivo: independência da ilha de Mindanao do restante das Filipinas e formação de um Estado Muçulmano Filipino independente. Contra o Estado Filipino majoritariamente cristão, e contra a presença dos EUA.

(7 e 8) África subsaariana

Nigéria: Movimento islâmico concentrado nas províncias do Norte, convertidas desde o século XI, enfrenta a presença cristã e secular, no sentido de alcançar a uniformidade religiosa no país e adotar a Sharia como legislação oficial. Pretende diminuir a presença do cristianismo e influenciar o governo de Lagos a adotar as leis corânicas.

Sudão: Conflito entre a milícia islâmica Janjawid, apoiada por Cartum, e as tribos africanas animistas na semidesértica região de Darfur, vizinha ao Chade. Luta étnico-religiosa movida pelos islamitas contra os animistas africanos.

(9 - 10) Oriente Médio

Cisjordânia e Gaza: Hamas, projeção palestina da Irmandade Muçulmana fundada no Egito, que, desde 1980, luta contra a ocupação dos dois territórios pelas forças de Israel. Luta armada por meio de atentados contra a ocupação israelense.

Líbano: Hezbollah (o Partido de Deus), organização guerrilheira libanesa surgida n esteira da ocupação israelense do país (1982-2000). Luta armada por meio de operações guerrilheiras e atentados contra a força de ocupação israelense.

Irã: Centro da Revolução Islâmica desde a derrubada do Xá Reza Pahlevi, ocorrida em 1979, liderada pelo aiatolá Khomeini. Implantação de uma República Islâmica conduzida pelos clérigos xiitas. Movimento contra a presença dos Estados Unidos na região, potência apontada como sendo o Grande Satã.

Iraque: Depois da invasão anglo-americana de 2003, o país tornou-se palco de luta política entre muçulmanos sunitas e xiitas. A resistência mais visível contra o invasor é comandada pela Iman Mahdi, milícia chefiada por Moqtada al-Sadr, dito hujjat al-Islam (o Signo do Islã). Resistência crescente à ocupação anglo-americana.

Veja também

Bancos são criados baseados nas leis islâmicas

Bibliografia

Lewis, Bernard – O Oriente Médio: do advento do cristianismo aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

Giordani, Mário Curtis – História do Mundo Árabe Medieval. Petrópolis, Editora Vozes, 1985.

Grieve, Paul – Islam: History, faith and politics: the complete introduction. Nova York, Carroll and Graf Publishers, 2006.

Mantram, Robert – Expansão Muçulmana (séculos VII-XI), São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1977.

Fonte: Especial para Terra

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