São Petersburgo, cidade mártir

8 ago 2017
13h21
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Tendo seus fundamentos assentados numa minúscula ilha do Rio Neva, que desemboca no Mar Báltico, a cidade de São Petersburgo, na Rússia, um dos mais engenhosos e belos projetos urbanísticos da Europa, completa em 2003, 300 anos da sua fundação. Da fortaleza inicial, erguida por Pedro, o Grande, falecido em 1725, a cidade esparramou-se por uma enorme extensão, tornando-se durante dois séculos, de 1712 a 1919, a capital do Império Russo. Centro político e da grande cultura russa e internacional, atraiu para si os melhores nomes das artes do país e do exterior, o que não a salvou de ser perseguida e cercada durante os turbulentos anos de guerra e de revolução.

O czar Pedro dominado a tempestade
O czar Pedro dominado a tempestade
Foto: Reprodução

As primeiras pedras

“..esta grande janela aberta recentemente no Norte, através da qual a Rússia olha para a Europa.” - Francesco Algarotti, 1739

Velejando pela embocadura do rio Neva recém conquistada aos suecos durante a Guerra do Norte, o czar Pedro, o Grande, decidiu desembarcar na pequena ilha de Zayachii ostrov. Arregaçando as mangas, ele que apreciava o trabalho físico, deu início as escavações do que viria a ser a futura fortaleza de Pedro-Paulo (que, em tempos de paz, pelos dois séculos em diante, serviu como central de encarceramento dos inimigos políticos do regime). Ao redor dela, nos canais que ainda seriam abertos, o czar mandou então que erguessem uma majestosa cidade. Exigiu-a de pedra para que a presença russa no Mar Báltico fosse para sempre. Uns anos antes ele viajara para o Ocidente, visitando a Alemanha, a Inglaterra e a Holanda, impressionando-se vivamente com a prosperidade reinante. Encantou-se quando viu a assombrosa paisagem de embarcações que os estaleiros de Amsterdã estavam construindo.

A Rússia tinha que deixar de ser asiática, dar um basta nos hábitos tártaros, fazer aparar ou cortar aquelas barbas imensas que os mujiques, os camponeses, usavam, imitando os patriarcas bíblicos. Era essa a razão que o levou a fundar no dia 27 de maio de 1703 a sua nova capital: São Petersburgo (homenagem a São Pedro). Através dela, transferindo o trono de Moscou, a Rússia ingressaria na Europa. Para melhor supervisionar as obras, um projeto do arquiteto francês Jean-Baptiste LeBlond, ele alojou-se numa izbá, uma casinhola, onde ficou pelos primeiros cinco anos, até 1708. O custo humano foi terrível. Dizem que boa parte dos palácios e demais prédios públicos foram erguido sobre o ossuário dos operários mortos, gente que ele arrebanhou de todos os lugares do país. Fundada, disse o historiador N. Karamzin “sobre lágrimas e cadáveres”. Pedro não viu a cidade pronta, mas a estrutura urbanística permaneceu sempre a mesma. Diderot, que visitou Catarina a Grande, estranhando aquele translado de Moscou para a beira do rio Neva, comentou que “era o mesmo do que colocar o coração na ponta do dedo”. O produto final, porém, foi uma maravilha. Os russos, que a chamam de Veneza do Báltico, até hoje dizem que ela é a mais bela cidade do mundo. Pode ser, mas distoa de longe de ser a mais feliz.

Visões negativas

Coube a Nikolai Gogol, entre os literatos russos, expor suas desconfianças sobre a nova capital. Os seus personagens era a gente comum, sem raízes como Akaky Akakievich, que se via perdida em meio aquelas multidões que circulavam pela Perspectiva Nevski, a maior avenida da capital. Para ele aquilo era um engano, a Rússia não era assim: “Tudo é sonho”, escreveu ele, “Tudo é outra coisa do que parece!” Afirmação que Dostoievski assinou em baixo quando assumiu-se como um eslavista hostil ao ocidente, dizendo-a uma “cidade para os meio-loucos”. Para muito intelectuais conservadores, Pedro, o Grande - imortalizado com a magnifica estatua do Cavaleiro de Bronze mandada erguer por Catarina II em 1782 -, destruiu com seu projeto de modernização (inspirado pelo filósofo alemão Leibniz) os laços dos russos com a sua ancestralidade eslavo-bizantina e cristã-ortodoxa.

Cidade da cultura - da música de Glinka, de Mussórgski, Tchaikóvski, de Rimsky-Kórsakov, de Shostakovich, de Stravinski, do balé de Diaghilev, de Nijinski e de Ana Pavlovna, do teatro de Meyerhold, da poesia de Alexander Blok, de Maiakóvski, e de Ana Akhmatova, das telas de Chagall, de Malevich e de Kandinsky, a que possuiu o maior museu de artes do mundo, o Hermitage -, epicentro das revoluções de 1905 e de 1917, que puseram fim aos 300 anos do domínio despótico da dinastia Romanov, sua existência foi ameaçada tanto pelos comunistas como pelos nazistas.

A. Akhmatova, musa das artes de S.Petersburgo
A. Akhmatova, musa das artes de S.Petersburgo
Foto: Reprodução

Stalin e Hitler se rivalizam

Os primeiros, bolcheviques, com fizeram duas grandes operações contra a intelectualidade da cidade, a primeira delas deu-se em agosto de 1918, logo após o atentado contra Lenin, a segunda depois de dezembro de 1934, em seguida ao assassinato de Kirov. Morto o chefe stalinista local, ocasião em que, por ordem de Stalin, a NKVD, após uma orgia de fuzilamentos, deportou de 30 a 40 mil peterburgueses (ditos “assassinos de Kirov”) para o arquipélago Gulag e para os confins da Sibéria (*).

Os piores vaticínios feitos sobre o devir futuro de São Petersburgo (rebatizada em 1914 como Petrogrado, e como Leningrado em 1924) como o dito, ainda em 1892, por Dmitri Merejkovski, “estamos na beira de um abismo”, se confirmaram. O pior, entretanto, ainda estava por vir Logo nos começos da invasão nazista da URSS, em 8 de setembro  de 1941,  teve início o Blokada, o grande cerco de 900 dias estreitado ao redor da grande cidade.

Instada pelo marechal Ritter von Leeb a se render, a população, orgulhosa, combativa, preferiu morrer de fome a levantar a bandeira branca. O resultado é que São Petersburgo, cidade mártir, registrou, entre 1941 e 1944, mais de 600 mil mortos pelas mais variadas privações. Foi como se Stalin e Hitler, sem se combinarem, se esforçassem, cada uma a o seu modo e por razões diversas, a destruir aquela bela cidade, despovoando-a da sua gente criativa e inteligente.

(*) O ditador soviético detestava o ar de independência que os habitantes de Petersburgo tinham. Também se deve incluir na sua hostilidade o fato dele originar-se da plebe do império que via naquela cidade o símbolo de uma cultura aristocrática e refinada que o bolchevismo vinha para destruir.

O retorno do Cavaleiro de Bronze

Num plebiscito realizado em 1991, durante o colapso da União Soviética, os moradores de Leningrado, originalmente São Petersburgo, votaram em massa a favor da restauração do antigo nome. Atacada brutalmente pelos totalitarismos do século 20, eles resolveram buscar a proteção do antigo padroeiro da cidade, já que os deuses reformadores da inteligência russa fossem eles Fourier, Bakunin ou Marx, todos fracassaram. E assim o Cavaleiro de Bronze, símbolo mor da determinação de Pedro, o Grande, em conquistar uma abertura definitiva para a Europa, glorificado no célebre poema de Puchkin “Um conto de Petersburgo”, de 1833-37, transcorridos os 300 anos da fundação daquela maravilha, volta a empinar o seu corcel estendendo o seu poderoso braço para o Ocidente, para onde afinal se encontra o único destino dos russos.

Foto: Reprodução

Fonte: Especial para Terra

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