Malvinas, parte 2: a reconquista de Buenos Aires
- Voltaire Schilling
Em um primeiro momento, a força expedicionária inglesa não teve dificuldades em tomar Buenos Aires, a capital do então Vice-Reino do Prata, em 25 de junho de 1806, tendo em vista que a principal autoridade espanhola, o vice-rei Sobremonte, retirou-se para Córdoba sem resistir, levando consigo 9 mil onças de ouro do seu patrimônio.
Falklands ou Malvinas: veja curiosidades sobre as ilhas
Mas, para surpresa dos britânicos, os portenhos não demoraram em reagir. Uma aliança entre comerciantes espanhóis, burocracia estatal-militar e estancieiros crioulos, representados, respectivamente, por Alzaga, Liniers e Pueyrredón, retomaram a cidade com certa facilidade.
O comandante das tropas terrestres, o general Beresford, foi obrigado a evacuar sua gente para a esquadra que passou a bloquear a capital. Consumara-se, assim, pelas mãos do povo, a Reconquista de Buenos Aires.
A Inglaterra ataca novamente
Passados três meses, os ingleses receberam substancial reforço. Desta feita, o Império mobilizou impressionantes recursos: 12 mil homens, 22 navios de guerra, 90 de transporte e 20 mercantes, sob o comando do general John Whitelocke, que lá aportou em 2 de julho de 1807.
Após aquartelarem-se por alguns meses em Montevidéu, o comandante inglês recebeu ordens de tentar uma nova ocupação de Buenos Aires. Os regimentos invasores desembarcaram a certa distância da cidade, esperando penetrar no porto por sua parte menos defensável, a região suburbana.
Nova surpresa desagradável se deu, visto que a resistência da população portenha foi inaudita. Pareceu que a cidade inteira, o povo portenho em uníssono, ofendido nos seus brios, tomou a peito expulsar os ingleses.
Em carta enviada ao chefe do War Office queixou-se o general invasor: "a índole do fogo a que estiveram expostas as tropas foi extremamente violenta. Metralha nas esquinas de cada rua, fogo de mosquetes, granadas de mão, ladrilhos e pedras lançados do alto de todas as casas. Cada morador, com seus negros, defendia sua moradia, e cada uma delas era em si mesma uma fortaleza. Não exageramos ao dizer que todos os varões de Buenos Aires se empenharam na sua defesa" (de Whitelock e Windham, 10 de Julho de 1807).
A infantaria dos "patrícios" ataca os britânicos (1806)
Atolados nos subúrbios e acossados por uma guerrilha urbana intensa, nada restou ao comandante inglês senão aceitar o termo de retirada imposto a ele no dia 17 de agosto de 1806 pelo brigadeiro Santiago de Liniers, comandante da praça portenha e líder dos esquadrões dos "patrícios" e dos "galegos". Também contaram os argentinos com o apoio dos corpos de Índios, Morenos e Pardos (uns 800 homens), tornando-se assim o principal vitorioso na Defesa de Buenos Aires.
Os invasores não deixaram de lastimar a total falta de cavalheirismo da chusma urbana, que lhes impôs um tipo de combate que estava longe de obedecer às normas convencionais: uma "guerra de bandidos", disseram eles.
Calcula-se que 5,5 mil ingleses foram mortos, feridos ou caíram prisioneiros dos argentinos.
O leão ferido em seus brios
Economicamente, a expedição de Sir Popham todavia foi um sucesso. A ocupação de Montevidéu e a desorganização que se seguiu permitiram aos mercadores ingleses realizar negócios no valor de um milhão de libras esterlinas. No entanto, o orgulho Imperial foi profundamente ferido com a retirada forçada. Como assegurou Thomas Hall em oficio enviado a Castlereagh. "Não há pessoa que eu conheça, diz ele, que tolere com calma falar dessa capitulação: todos a consideraram uma desgraça nacional e nada pode reparar o erro senão o envio de outra frota para tomar posse, pelo menos, de Montevidéu" (Correspondência, 30 de setembro de 1807).
Os efeitos do desastre militar britânico fizeram com que o responsável pelo War Office fosse obrigado a renunciar. Sir Windham foi substituído por Castlereagh. Os britânicos, no entanto, não seguiram os reclamos do jingoísmo ofendido da opinião pública que exigia uma nova expedição punitiva contra os portenhos.
Passaram, isso sim, a criar mecanismos mais sofisticados para ampliar seus mercados, tal como atender o desesperado D. João VI em sua fuga para o Brasil e forçá-lo a abrir os portos "às nações amigas", em 1808.
Para a historiografia argentina, as invasões inglesas de 1806/1807, a Reconquista e a Defesa de Buenos Aires, representam um marco da afirmação da nacionalidade: o mito fundador da nação. A reação da ocupação terminou por fazer com que o nativismo da população de Buenos Aires forjasse um sentimento a favor da autonomia e independência, o que se concretizou três anos depois com a deposição do cabildo espanhol feita pelo movimento de 25 de maio de 1810.
Dois anos antes, em 1808, como resultado da vitória dos argentinos sem terem recebido nenhum apoio da metrópole, por influencia de um panfleto escrito e distribuído por Mariano Moreno, um economista adepto do livre-comércio, o vice-rei Hidalgo de Cisneros fora obrigado a aceitar que Buenos Aires se proclamasse como "porto livre".
Obtida a Independência da Argentina em 1810, a Grã-Bretanha não tardou em aprofundar a ruptura completa com o velho mercantilismo ibérico. O outrora todo-poderoso Império Espanhol na América estava em ruínas e os ingleses foram os principais fornecedores dos instrumentos funerários para sepultá-lo.