Guernica: o massacre e a arte

16 mai 2017
14h20
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Era uma 2ª feira, dia de feira-livre. Das redondezas chegavam em suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalos. Tratava-se de mais uma incursão aérea. Até aquele dia fatídico - 26 de abril de 1937 - Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor passarem sobre ela em direção a alvos mais importantes. Mas aquela 2ª feira foi diferente.

A primeira leva de Heinkels-11 despejou suas bombas sobre a cidadezinha, precisamente às 16h45. Durante as 2 horas e 45 minutos seguintes os moradores viram o inferno desabar sobre eles. Estonteados e desesperados saíram para aos arredores do lugarejo onde mortíferas rajadas de metralhadora disparada pelos caças os mataram aos magotes. No fim da jornada contaram-se 1.654 mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes. Tão embaraçosa, perante a opinião pública mundial, foi a pulverização de Guernica que os nacionalistas espanhóis trataram logo de atribuí-la aos “vermelhos”.

“Todos vocês sabem que na Espanha nós não nos situamos como meros observadores desinteressados...” - Hitler, em 29 de abril de 1937.
“Todos vocês sabem que na Espanha nós não nos situamos como meros observadores desinteressados...” - Hitler, em 29 de abril de 1937.
Foto: Divulgação

Na realidade, a tragédia começou oito meses antes, na noite de 25 de julho de 1936, quando, entre um acorde e outro de uma ópera wagneriana,  Hitler decidiu-se apoiar Franco. Na semana anterior, o general espanhol havia sublevado o exército contra o governo republicano-esquerdista da Frente Popular. O führer estava em Bayreuth para prestigiar o tradicional festival musical quando recebeu uma carta do caudilho. A solicitação era modesta. Tratava-se de saber se o governo nazista contribuiria com uma dezena de aviões de transporte e algumas armas. Hitler não hesitou. A vitória comunista na Espanha provocaria, por estímulo, a “bolchevização” da França, e seu regime ver-se-ia sitiado por ela e pela URSS de Stalin.

Em pouco mais de três meses depois chegava a Sevilha, comandada pelo General Sperrle, a Legião Condor, composta de 4 esquadrões de bombardeios e outros 4 de combate, além de unidades antiaéreas, antitanques e de panzers, num total de 6.500 homens. O acordo com os nacionalistas espanhóis concebia uma grande autonomia das forças nazistas que se subordinavam apenas ao jefe del Alzamiento, isto é ao próprio Franco. Madri, ainda em mãos dos esquerdistas estava desde o principio do levante de 18 de julho, submetida a bombardeios aéreos irregulares. Mas os estrategistas da Luftwaffe de Goering estavam excitados em aplicá-los em forma maciça, na tática da terra arrasada. Qual seria o seu efeito concentrado? Levas de esquadrilhas conduziriam tipos de bombas diferentes, de fragmentação e as incendiarias, que seriam lançadas em formações compactas, ininterruptamente, sobre um alvo qualquer.

A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos. Era um alvo fácil, sem proteção antiaérea e não tinha uma população muito numerosa. Além disso, abrigava um velho carvalho embaixo do quais os monarcas espanhóis ou seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos.

Como o levante de Franco foi também contra a autonomia regional, sua destruição serviria como uma lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada. Mas quando a noticia da dizimação chegou aos jornais provocou um frêmito de horror. Quase todos os habitantes de cidades, em qualquer lugar do mundo, sentiram instintivamente que estavam sendo apresentados a um outro tipo de guerra, a guerra total, e que, doravante, por vezes, seria mais seguro estar-se numa trincheira no fronte, do que vivendo numa grande capital.

Esteticamente quem melhor captou esse sentimento foi Pablo Picasso. Vivendo em Paris desde o início do século, já era uma celebridade quando o Governo da Frente Popular o procurou para que fizesse algumas telas para arrecadar fundos para a república. A violência e a indignação que causou o bombardeio fez com que ele se concentrasse por 5 meses numa grande tela, quase um mural ( 350,5 x 782,3). Sua primeira aparição deu-se numa Exposição Internacional sobre a Vida Moderna em Paris, no dia 4 de junho de 1937. O público virou-lhe as costas.

Não era algo belo de ser visto. Picasso, para retratar o clima sombrio que envolvia o desastre, utilizou-se do negro do cinza e do branco. Talvez como nunca a  máxima de Giulio Argan segundo a qual a “arte não é efusão lírica, é problema” tenha sido tão explicitada. A tela encontra-se dominada no alto pela luz de um olho-lâmpada - símbolo da mortífera tecnologia - seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo apavorado, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A sua direita, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja a Espanha, impotente perante a destruição que a cerca. Logo a baixo dele encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Clama aos céus por uma intervenção. É a moderna pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. À direita, uma mulher, com seios expostos e grávida, voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada , ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida.

O imenso quadro de Picasso foi uma das grandes premonições histórico-estéticas do século. Dois anos depois, em setembro de 1939, teria o início o martírio das populações de Varsóvia, de Londres, de Berlim, de Hamburgo, de Leningrado, de Dresden, de Hiroxima e de Nagasaki, que padeceriam, devido aos bombardeamentos em massa, dos mesmos tormentos das imagens dilaceradas que se vê na tela.

Exatamente por não ter nenhum signo específico de agressão, nenhuma suástica ou distintivo franquista ou falangista, a composição transcendeu os acontecimentos da infausta Guerra Civil espanhola, tornando-se um manifesto estético dos horrores provocados por uma tecnologia a serviço da desumanização. Picasso pintou a obra-prima do século, onde se misturam as contradições da nossa época: progresso e violência, catástrofe e prosperidade. Tudo indica que o gênio mostrara a todos europeus e a maior parte dos povos da Terra o triste destino que os aguardava: a destruição em massa e o assassinato de milhões de vítimas.

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