Churchill contra Hitler, o duelo

5 fev 2018
11h20
atualizado às 11h22
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O historiador John Lukacs, um húngaro exilado na Inglaterra, um especialista na Segunda Guerra Mundial,  atribuiu à inflexível  oposição do então primeiro-ministro britânico Winston Churchill contra Hitler,  o fato dos valores morais ocidentais terem sobrevivido à grande hecatombe de 1939-1945. Entre as datas de 10 de maio e 31 de julho de 1940, durante 80 dias,   travou-se um verdadeiro duelo entre aquelas duas personalidades, fazendo com que a tenaz resistência de Churchill a qualquer tipo acordo ou tratado com Hitler,  terminasse por forçar o Führer nazista a  cometer o grande erro da sua carreira, invadir a URSS para lá ser definitivamente derrotado.

Churchill resistiu a Hitler
Churchill resistiu a Hitler
Foto: Reprodução

Simpatizantes de Hitler

O anti-nazismo na Grã-Bretanha dos anos 30 não contava com  a unanimidade em meio a sua elite. Longe disso. Se bem que as motivações daqueles que simpatizavam com  Hitler eram as mais diversas, foi significativo o elevado número das personalidades das altas esferas de Londres, das finanças, do comércio, da política, e mesmo das artes,  que devotaram apoio  e simpatia  ao que se passava na Alemanha dos anos trinta. Entre esses filonazistas encontrava-se tanto o brilhante economista Lord Keynes (que, em 1919, escrevera um verdadeiro libelo contra o Tratado de Versalhes que sufocara a Alemanha, intitulado “ As conseqüências econômica da paz”) como Lloyd George, ninguém menos do que o ex-primeiro-ministro que, durante a Primeira Guerra Mundial,  mobilizara o Império Britânico na derrotar a Alemanha Imperial.

Lloyd George, nas suas memórias, chegou a mostrar-se sinceramente arrependido com o desenlace do conflito de 1914-18, entendendo que as conseqüências gerais da catástrofe militar e política alemã foram muito piores do que se tivesse havido algum tipo de acordo com o Kaiser, seguido de concessões ao IIº Reich Alemão. O caos em que a Alemanha afundara nos anos vinte deixou-o com a consciência culpada. Na entrevista que ele teve com Hitler, em setembro de  1936, atraído pelo magnetismo do líder nazista,  deixou claro a sua admiração pelo novo regime, particularmente por ter suprimido com o desemprego e retomado a prosperidade econômica que a nação germânica tinha perdido com a guerra de 1914-8. Entendeu o Führer como a personalidade alemã mais formidável daquela época.

Até mesmo membros da família real britânica, como foi o caso do Duque de Windsor (  Eduardo VIII, que foi forçado a abdicar em 1936) e de sua esposa Wallis Simpson, que igual visitaram Hitler em 1937, deixaram-se seduzir pelo cenário de ordem e  congregação patriótica que se formara em torno do  nacional-socialismo e da sua liderança. O famoso casal manifestou publicamente o seu apoio à politica alemã, entendendo-a como  resultante de uma posição audaz,  campeã do anti-bolchevismo e defensora dos valores ocidentais(*). Opinião essa que estava longe de ser isolada entre os integrantes da aristocracia britânica que viam em Hitler uma saudável e eficaz barreira contra Stalin.  

George Bernard Shaw, por sua vez, o mais celebrado teatrólogo britânico daquela época, um dedicado ativista do  socialismo fabiano,  viu a coisa ao seu modo. Para ele os cabeças nazi-fascistas eram revolucionários modernizadores que serviam para abalar ou quiçá varrer do mapa  o poder das antigas oligarquias e das plutocracias européias as quais ele desprezava. Além disso, sendo ele de origem irlandesa, percebia a potencialidade de Mussolini e de  Hitler virem a  estremecer o odiado domínio que os ingleses exerciam ainda sobre a Ilha Esmeralda, abrindo uma chance para que a República da Irlanda atingisse a sua integral autodeterminação. Com esses exemplos percebe-se que a posição de Winston Churchill, que desde os começos manifestou-se hostil aos nazistas,  estava longe de ser hegemônica nas altas esferas do poder da Grã-Bretanha.   

(*) Quando a guerra eclodiu, o Duque e sua esposa, justamente por sua pública adesão ao nazismo,  foram obrigados , saindo da Grã-Bretanha, a aceitar um exílio dourado nas ilhas Bahamas, assumindo a governadoria local entre 1940-44.

L. George visita Hitler
L. George visita Hitler
Foto: Reprodução

A avaliação de Hitler

Hitler, por conseguinte, não estava completamente desfocado da realidade quando em seus cálculos levou em conta a possibilidade de que o Império Britânico não  lhe movesse guerra.  A atração que o regime nazista exercia sobre muitos dirigentes ingleses, supôs ele,  provavelmente evitaria um   envolvimento total deles contra a Alemanha.  A própria relutância da Grã-Bretanha em lançar-se numa ofensiva geral contra ele, mesmo depois das declarações formais de guerra, anunciadas em 3 de setembro de 1939, pareciam dar-lhe razão.

Significativo disso, desse estado de espírito pouco belicoso da parte britânica,  foi uma reunião realizada pelo conselho da guerra de Churchill na qual um brigadeiro da RAF mostrou-se pouco disposto a ir bombardear as industrias do vale do Ruhr, visto que isso representaria “ danos às propriedades privadas alemãs”. Por igual, foi visível desse pouco empenho dos britânicos nos primeiros meses de guerra o fato de que a Força Expedicionária  que desembarcara no solo francês não levava consigo nenhum plano de ação que fizesse referência a uma invasão ao território alemão, posicionando-se ao lado das divisões francesas claramente na defensiva.

Conforme os meses foram passando Hitler sentiu-se frustrado porque a Grã-Bretanha não lhe enviava nenhum sinal de trégua ou acordo. Se não lhe movia guerra total também não lhe oferecia qualquer outra alternativa, o que o levou a tomar a decisão de ordenar uma ofensiva geral contra as forças anglo-francesas em 10 de  maio de 1940, derrotando a França e obrigando a Força Expedicionária britânica a bater uma humilhante retirada pelo porto belga de Dunquerque, ocasião em que Hitler foi condescendente com a evacuação de 385 mil britânicos, efetivada pelo Canal da Mancha entre 26 de maio e 3 de junho de 1940.

O vôo de Rudolf Hess

Hitler ainda tentou o derradeiro gesto de conciliação com a Grã-Bretanha quando determinou que um dos seus principais assessores Rudolf Hess, homem da sua inteira confiança,   simulando uma espetacular fuga aérea da Alemanha para a ilha britânica, num vôo realizado no dia 10 de maio de 1941,  conseguisse negociar uma trégua com os ingleses (*).

Hess saltou de pára-quedas sobre a Escócia e, capturado,  expressou o desejo de entrevistar-se com Lord Hamilton, opositor de Churchill para , explorando-lhe o anticomunismo, negociar um cessar a luta no fronte ocidental para que as divisões alemãs pudessem destruir mais facilmente a URSS. País que Hitler, por meio da Operação Barba Roxa,  invadiria no mês seguinte, a partir de 22 de junho de 1941.  Os nazistas desejam liderar uma grande frente, engajando o Ocidente inteiro numa campanha final contra Moscou,  a sede do comunismo internacional,  e queriam seduzir o buldogue inglês nessa aventura ou pelo menos contar com a neutralidade dele.

(*) Hess passou o resto da sua longa vida na cadeia. No Julgamento de Nuremberg, onde insistiu que seu ato foi voluntário e  pessoal,   foi condenado à pena perpétua, sentença que ele cumpriu na Fortaleza de Spandau, em Berlim, até que conseguiu por fim a sua vida em 17 de agosto de 1987.

A posição histórica da Grã-Bretanha

Ao longo da sua história as ilhas britânicas sempre se viram ameaçadas por forças que partiam do continente europeu. A primeira dessa ameaças concretas aos bretões deu-se com a invasão romana, vinda do litoral da Gália,  começada por Júlio César, no ano de 55 a.C.,  e concretizada definitivamente no reinado do imperador Cláudio (41-54), quando o general Aulus Plautius submeteu as tribos bretãs entre 43-47. O domínio romano sobre a parte centro-sul da ilha inglesa, limitada ao norte pelo Vallum Hadriani,  a  Muralha de Adriano, estendeu-se até o século V, ocasião em que, por determinação de Constantino III,  as últimas legiões foram evacuadas de lá no ano de 407. Isso abriu caminho para a chegada dos saxões, vindos da Germânia,  que se fundiram com os bretões, fazendo uma frente em comum contra as invasões nórdicas,  promovidas pelos viquingues da Dinamarca e da Noruega.

Depois dos romanos, que lá ficaram por quase quatro séculos,  a maior ocupação da ilha foi a promovida por Guilherme o Conquistador, duque da Normandia,  que bateu o rei saxão Haroldo  na batalha de Hastings em 1066.

A Guerra dos Cem Anos que os monarcas ingleses travaram na Idade Média com os reis franceses, entre 1346 e 1435,  foram repletas de batalhas ocorridas no solo da França, não da ilha. Os ingleses voltaram a por-se em guarda contra uma potência continental quando a Espanha de Felipe II ( 1556-1598),  o campeão da Contra-reforma católica,  tornou-se a mais perigosa ameaça a eles. Rompida com o papado, a Coroa inglesa viu-se tendo que enfrentar uma invasão naval liderada pelo duque espanhol Medina Sidônia,almirante da fracassada Invencível Armada, destruída pelas intempéries e pela bravura dos marujos ingleses em 1588.

Quando, no final do século XVIII,   Napoleão ascendeu no cenário europeu como o mais provável rival dos interesses britânicos, a Corte de Londres não cessou de estimular coligações anti-francesas ( com a Áustria, com a Rússia e com a Prússia) para evitar que o poder de  Bonaparte se tornasse hegemônico sobre a Europa continental, até que conseguiu por fim levá-lo à derrota em Waterloo, em 1815.

Afastado o perigo, a Grã-Bretanha tratou então de posicionar-se contra a crescente ascensão do IIº Reich alemão, formado por Bismarck em 1871. Em pouco tempo Londres articulou uma frente diplomática-militar, a Tríplice Entente, formada pelo Reino Unido, pela República Francesa,  e pelo Império Russo, para bloquear uma possível expansão germânica sobre suas áreas de interesse, o que conduziu o mundo à Primeira Guerra Mundial ( 1914-18). Em todas essas ocasiões apontadas, a posição britânica foi sempre muito claro: Londres jamais toleraria aceitar a presença de uma potência -  fosse ela a Espanha Felipina, a França Napoleônica, ou a Alemanha Guilhermina -,   que dominasse o continente. Com Hitler não poderia ser diferente.

Foi esse histórico posicionamento é que fez com que Churchill, independentemente das simpatias ideológicas  que parte da elite britânica devotava aos nazistas,   não aceitasse nenhuma negociação com o líder alemão ( situação aliás que voltou a repetir-se, depois da vitória na Segunda Guerra Mundial, quando Stalin passou a ocupar e controlar metade da Europa continental e igual a Hitler passou a ser o inimigom primordial da Grã-Bretanha).

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Fonte: Especial para Terra

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