Berlim renasce e continuará sendo Berlim

Enquanto na [avenida] Debaixo das Tílias as árvores florescerem | nada nos poderá dobrar | Berlim tu continuarás sendo Berlim. Linden March

26 jul 2017
16h48
atualizado às 16h53
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“So lang noch Untern Linden
Die alten Bäume blüh’n
Kann nichts uns überwinden,
Berlin, du bleibst Berlin”

"Enquanto na [avenida] Debaixo das Tílias
as árvores florescerem
nada nos poderá dobrar
Berlim tu continuarás sendo Berlim"

Linden March, 1923

Porta de Brandenburg
Porta de Brandenburg
Foto: Divulgação

Madame de Stäel, a grande dama das letras francesas, impressionou-se. Então a Alemanha era só mato? Árvores e florestas para todos os lados. Por isso, concluiu ela da viagem que por lá fez em 1803, proliferava nas aldeias e nos vilarejos um generalizado espírito feudal que se manifestava no comportamento cavalheiresco de muitos dos seus habitantes. Registrou também, ao se tornar mais íntima do crítico August Schlegel, que por lá não havia nenhum Péricles ou um Luís XIV disposto a dar-se às artes, a amparar as gentes de letras e de tintas.

Frederico II, o Grande, o rei da Prússia, desprezava a literatura nacional. Para ele só existia o francês, jamais dando um centavo para a gente da casa. “O alemão”, dizia ele, só lhe servia “para dar ordens à criadagem e aos cavalos!”. Daí os escritores alemães agradecerem aos céus existir Weimar, um ducado plantado bem no coração do país.

Lá a Regente Anna Amália, a célebre mecenas, desde cedo entregara-se de corpo e alma a atrair para a sua corte o que havia de melhor na sensibilidade da Alemanha do seu tempo. Foi atendendo ao convite de Carlos Augusto, o filho dela, que Goethe lá se instalou em 1775 para dirigir o teatro local e depois, consagrado, comandar a Tafelrunde, uma mesa redonda de sábios.

Não demorou para que fosse seguido pelo filósofo Herder, o poeta Schiller, e uma lista interminável de músicos, compositores, teatrólogos e gente admiradora das artes em geral. Napoleão, quando bateu a Prússia, fez questão de ir lá, em 1808, para conhecer o autor de “O jovem Werther” que ele disse ter lido meia dúzia de vezes nos seus tempos de aspirante. Mas Weimar era somente um castelo e um casario ao seu redor. Espiritualmente era gigantesca, mas geograficamente era uma anã. A Atenas alemã inteira cabia em meio bairro de Paris.

Pois a Berlim de então era exatamente o contrário. Tornou-se no transcorrer do século XIX, a maior cidade da Alemanha, todavia, tirando-se aquele oásis do espírito que era Universidade de Berlim, fundada por August von Humboldt ainda nos tempos da ocupação francesa, aspirava-se nela um ar de quartel, inundada pelo vozerio dos sargentos e dos praças ao som estridente do bater de botas e esporas. Correspondia inteiramente a impressão que a capital provocara em Mirabeau: “todos os países têm um exército, na Prússia é o exército quem tem um país”. Ainda em 1912, o novelista Georg Hermann dizia não saber qual a razão “dos berlinenses terem vergonha da sua cidade, pelo menos da sua arte”.

Vida noturna em Berlim (tela de Otto Dix)
Vida noturna em Berlim (tela de Otto Dix)
Foto: Divulgação

Não conseguiam entender que enquanto a Paris batida em 1871, primeiro pelo exército prussiano e em seguida, pela sua própria gente, pelos Communards do levante de maio de 1871, gerava um Monet, um Degas ou um Manet, e uma infinidade de outros impressionistas, Berlim, promovida à capital imperial e orgulhosa sede da Alemanha unificada, só produzia uns borradores de telas com Max Liebermann, Lovis Corinth ou um Max Slevod, que  depois naufragaram num merecido anonimato.

Mas Berlim superou tudo isso. Nos anos vinte, mesmo com toda a crise dilacerando-a, mesmo com Walter Rathenau chamando-a de “repulsivo monstro da modernidade”, tornou-se a sede das vanguardas do mundo. Do movimento estilístico da Bauhaus de Walter Gropius ao teatro de Bertold Brecht, da caricatura de George Grosz à novela amarga de Alfred Döbling, do “Anjo Azul” de Marlene Dietrich à fotografia pró-nazi de Leni Riefenstahl, a cidade abrigou de tudo. Nas ruas, enquanto isso, comunistas e nazistas, antecipando 1941-45, moíam-se à cacetadas. E então, como se a grande cidade fosse uma Sodoma alemã, no meio século que se seguiu, os céus em fúria desabaram sobre ela.

Primeiro foram os discursos tonitruantes do Führer e as fanfarras do nacional-socialismo, em seguida o diluvio das bombas aliadas, e por fim, quando mal se refazia dos estragos, dividida entre os vencedores de 1945,  aplicaram-lhe o pavoroso Muro. Recém Berlim se refaz da longa ressaca que os fados a submeteram. Por todo lado ergue-se de tudo, uma euforia feita de argamassa, ferros, vidros e tijolos parece tudo inundar, como que para anunciar por todos os ventos que o pesadelo acabou, que as tílias voltaram a florescer e que Berlim continuará sendo Berlim.

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