Florestan Fernandes: como explorar as ideias do sociólogo na redação
O pensador serve como repertório para discutir temas relevantes na sociedade brasileira como racismo, democracia e educação
"Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos."
A afirmação é de Florestan Fernandes, considerado o pai da Sociologia Crítica no Brasil e um dos sociólogos brasileiros mais importantes do século 20. Com mais de 50 obras publicadas, o sociólogo, antropólogo, escritor, político e professor colocou em pauta uma série de temas relevantes sobre a estrutura social brasileira e estabeleceu um tipo de investigação sociológica marcada por um rigor crítico e analítico.
Devido a sua relevância para os estudos sociológicos no Brasil e por debater assuntos, como racismo, democracia e educação, o pensador pode ser explorado na redação dos vestibulares em diversas propostas. Para te ajudar a ampliar o repertório, contamos um pouco sobre trajetória e as principais ideias defendidas pelo sociólogo; além de como usá-las nos textos. Veja abaixo:
Biografia
Nascido em São Paulo, em 1920, Florestan Fernandes era filho de uma imigrante portuguesa e não conheceu seu pai. Sua madrinha, Hermínia Bresser de Lima, ajudou em sua criação e o incentivou nos estudos. Florestan viveu boa parte de sua infância e juventude nos cortiços da periferia de São Paulo.
No terceiro ano do primeiro grau, equivalente ao atual Ensino Fundamental, largou os estudos para ajudar a mãe financeiramente e começou a trabalhar como engraxate, auxiliar de alfaiate e garçom. Aos 17 anos, voltou a estudar e, entre 1938 e 1940, fez um curso específico para compensar o tempo que ficou longe desse universo e aprender, em três anos, o conteúdo de sete.
Em 1941, começou a cursar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) e, ao concluir o curso, ingressou na pós-graduação em Antropologia na Escola Livre de Sociologia e Política, instituição vinculada à USP - onde conquistou o título de mestre em 1947. Em 1951, voltou para USP e se tornou doutor em Sociologia.
Durante a ditadura militar brasileira, por ter ingressado na militância de partidos de esquerda, Florestan foi preso duas vezes e exilado em 1969. Nesse período, lecionou em instituições no exterior, como a Universidade de Toronto e Yale. Em 1972, voltou ao Brasil.
Atuou na política, exercendo dois mandatos como deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), entre 1987 e 1994. Assim, também teve a oportunidade de participar da Comissão de Educação que ajudou a elaborar a Constituição de 1988 durante a redemocratização.
Florestan Fernandes faleceu em São Paulo em 1995.
Confira os principais temas e ideias explorados pelo sociólogo:
Questão indígena
O início de sua carreira foi marcada pelo estudo etnológico de indígenas. Durante seu mestrado, Florestan produziu a dissertação "A Organização Social dos Tubinambá", na qual ele reconstruiu a realidade social dos índios tupis-guaranis, exterminados desde o final do século 16. A obra é considerada um clássico da etnologia brasileira.
Racismo e o mito da democracia racial
Já durante a década de 1950, Florestan passou a se dedicar aos estudos sobre os resquícios da escravidão na sociedade brasileira.
Ele criticava a tese de que não existia preconceito e discriminação no Brasil, e foi quem cunhou o termo "mito da democracia racial". Democracia racial é um conceito associado ao sociólogo Gilberto Freyre, que defendia que a grande miscigenação ocorrida durante a colonização do Brasil teria contribuído para uma relação menos conflituosa entre as raças e que o povo brasileiro, cordial e pacífico, vivia de forma harmoniosa.
Na contramão desse pensamento, Florestan explicava que esse mito criava uma visão irreal de que não existia racismo no Brasil.
- Veja aqui como o mito da democracia racial perpetua o racismo no Brasil
Em uma de suas obras "A Integração do Negro na Sociedade de Classes", o sociólogo discute como a modernização no país, com a adoção do capitalismo moderno e a democratização, só aumentou as desigualdade entre negros e brancos por não dar as mesmas condições de acesso ao mercado de trabalho ao primeiro grupo. Mesmo com o fim do colonialismo e da escravidão, as oportunidades não foram equivalentes.
Explorando ideias marxistas, Florestan também afirmava que na luta de classes, mesmo que o branco fosse pobre e proletário, o negro sempre seria o mais prejudicado por ainda sofrer discriminação racial.
Educação
Florestan também era ativo na questão da educação nacional e chegou a participar, junto a Darcy Ribeiro, da formulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), que regularizou e organizou o sistema educacional do país.
Para ele, a única maneira de construir uma sociedade mais justa e sem desigualdades sociais era por meio da educação pública e de qualidade. Além disso, Florestan também defendia a educação enquanto um direito para formação humana, e não apenas como meio de inserção no mercado de trabalho.
Desigualdade social
Para tratar da questão da desigualdade enfrentada por pessoas pobres e que moravam na periferia, o sociólogo usava como exemplo sua experiência pessoal. Contava que, mesmo com o apoio de sua madrinha, seus primeiros empregos eram vistos como algo inferior na sociedade e que era muito difícil para as pessoas com uma origem humilde como sua conquistar algo diferente e próspero.
Ele também afirmava que a única maneira de progredir moralmente era superando essa desigualdade e defendia a democracia das relações sociais e o acesso a serviços básicos por todos os cidadãos.
Florestan Fernandes na redação
Para Fernanda Pessoa, professora de redação, as ideias do sociólogo podem ser exploradas em diversas propostas por serem atemporais.
"Caso o tema faça alguma alusão à educação, seja educação ambiental, pública, técnica ou à distância, será um bom repertório. Isso porque ele criticava a falta de uma educação que forme o indivíduo do ponto de vista social e não apenas do ponto de vista formal."
Além disso, também é válido encaixar suas ideias em temáticas voltadas à questão do emprego, segundo a professora, porque ele fala sobre o fato de um povo pouco escolarizado precisar se submeter a qualquer condição de trabalho mesmo após a abolição. "Florestan Fernandes discutiu muito sobre o quanto a proclamação da república não significou praticamente nada para o povo negro - que é uma maioria quantitativa no Brasil, mas uma minoria quanto a representatividade."
Com isso, outros pontos que podem ser usados na redação são seus posicionamentos sobre a desigualdade social e a questão racial.
Apesar das ideias de Florestan Fernandes serem um excelente repertório, Fernanda Pessoa destaca que, ao usar a ideia de um autor no texto, é importante ter em mente que o que conta é a opinião do estudante (de forma impessoal e na terceira pessoa). Sendo assim, a linha de raciocínio do teórico serve apenas como suporte. "A base do desenvolvimento não é a ideia do sociólogo, mas a ideia do estudante. O vestibulando vai fundamentar e dar credibilidade em relação ao que ele pensa a partir da ideia do sociólogo."
Para se aprofundar
Confira algumas obras do autor para entender melhor suas ideias:
- A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá;
- A Etnologia e a Sociedade Brasileira;
- A integração do negro na sociedade de classes; (disponível também aqui)
- A Revolução Burguesa no Brasil.