Especialistas discutem os desafios da educação infantil provocados pela pandemia

Durante Summit Educação 2020, palestrantes debateram diálogo entre alunos, pais e escolas e ações que devem ser tomadas para a volta às aulas de crianças pequenas

27 ago 2020
16h13
atualizado às 16h35
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SÃO PAULO - A quarentena imposta à população para prevenir a infecção pelo novo coronavírus trouxe um desafio para pais e especialistas quando o assunto é educação infantil. Este foi o tema do quarto dia do Summit Educação 2020, evento online e gratuito, realizado pelo Estadão, que começou na segunda-feira, 24, e vai até o dia 31.

Para Rosely Sayão, psicóloga e colunista do Estadão, o maior prejuízo neste momento é a falta de relacionamento das crianças com outros adultos que não sejam pais e parentes próximos. "A multiplicidade de vínculos facilita a vida da criança. Sem isso, ela fica muito dependente. Faz falta estabelecer relações diferentes", avaliou.

Pediatra há mais de 30 anos, Marco Aurélio Sáfadi reforça que o fechamento de escolas provocou perdas também para crianças menores, já que são muitos os benefícios que o ensino infantil proporciona aos pequenos mesmo antes da alfabetização. "Os ganhos cognitivos uma vez que a criança ingressa na escola são frutos da convivência escolar. A interação entre as crianças também estimula o desenvolvimento", afirmou o professor adjunto e diretor do departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo .

Para Carolina Velho, integrante da Rede Nacional pela Primeira Infância e pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Educação Infantil e Subjetividade (GPEIS), o acolhimento para crianças de até 5 anos é mais importante neste momento. "Além de escutar crianças e professores, é preciso pensar no processo de cada localidade. Espero que municípios consigam ouvir a comunidade escolar, crianças, pais e educadores. Na primeira infância, o conteúdo não é a grande questão, mas o acolhimento de cada criança em seu desenvolvimento."

Sem aulas presenciais há mais de 5 meses por causa da pandemia do novo coronavírus, para manter calendário escolar, as instituições precisaram se adaptar ao ensino remoto. Mas para crianças menores, a adaptação foi ainda mais difícil diante da importância que o contato físico tem nos primeiros momentos de aprendizado.

Segundo o secretário municipal de Educação de São Paulo, Bruno Caetano, é impossível negar que não há prejuízos com o fechamento das escolas também para essa faixa etária. "Por melhores que sejam os esforços da rede pública, privada, das famílias, dos educadores e da sociedade, nada substitui a escola (presencial)."

Na capital, a volta às aulas ainda neste ano será definida após a realização da testagem para anticorpos do novo coronavírus em alunos de instituições privadas e estaduais. Durante o Summit, Caetano disse que o município está preparado para retomar as aulas assim que for possível. "Tenho muita esperança do retorno próximo. Acredito que o pior (da pandemia) já passou, que a situação permanecerá estabilizada e que o processo de confiança (com a sociedade) vai se acelerar nas próximas semanas para termos um retorno tranquilo."

Para ele, o maior desafio é o da comunicação com a sociedade. "Temos desafio na saúde pública e na educação na recuperação do aprendizado. Mas o maior desafio é de convencer a população de que (quando for anunciado o retorno) será seguro retomar as aulas presenciais."

O Governo de São Paulo permitiu a retomada parcial de atividades nas escolas a partir de 8 de setembro, nas regiões que estão em fase amarela há mais de 28 dias, para atividades de acolhimento, recuperação, atividades físicas, tutoria e aulas em laboratório. O retorno oficial das aulas está previsto para 7 de outubro. Mas a decisão final cabe às prefeituras.

O retorno gera polêmica entre especialistas. Para o professor adjunto e diretor do departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, a reabertura pode ser possível desde que haja diminuição sustentada de casos, mortes e internações da covid-19 nas próximas semanas. "Se colocar na balança benefícios e riscos (da reabertura das escolas), tomando medidas de precaução e cenários para identificar ocorrência de casos, devemos seguir pela reabertura das escolas", afirmou.

Segundo Sáfadi, os riscos não estão descartados, mesmo em escolas particulares com total infraestrutura. "Não há verdade absoluta, qualquer caminho que se busque há riscos. É preciso ter a maturidade de olhar a situação de forma bem racional."

No entanto, a integrante da Rede Nacional pela Primeira Infância avalia com cautela a reabertura de escolas diante da falta de infraestrutura enfrentada por diversas cidades brasileiras. "Conheço mais de 3,6 mil escolas de diversos municípios do País. Há escolas em cima de supermercado. Há escolas com estrutura muito precária, sem janelas. Não há ventilação", disse Carolina Velho.

A psicóloga Rosely Sayão analisa que é preciso considerar que cada família tem suas características e levar em conta o convívio com pessoas do grupo de risco. "Existe a certeza de que as crianças sofrem com a escola fechada e as famílias estão estressadas para tomar uma decisão sobre volta às aulas. Porém, sem a confiança dos pais, as crianças não irão tranquilas para a escola. Se a família tem confiança que riscos são pequenos e pode fazer a escolha, tudo bem. Mas do contrário, a criança não irá bem, sem a aprovação dos pais."

Para Carolina Velho, integrante da Rede Nacional pela Primeira Infância, cada comunidade escolar deveria ter uma gestão de crise da covid-19. "Para que pais, crianças e professores se sentissem seguros com possível reabertura, entendendo como os protocolos de segurança serão adotados dentro das instituições. Todos os professores deveriam passar por formação para receber as crianças."

Vacinas

Para o retorno às aulas, o professor adjunto e diretor do departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo alertou que é importante as crianças serem imunizadas contra outras doenças que já tem proteção. "Situações que despertam necessidade de resgatar campanhas vacinais para outras doenças. As secretarias de saúde devem resgatar campanhas vacinais contra sarampo e rubéola, por exemplo", acrescentou.

Com relação aos testes de vacinas da covid-19 em andamento, o professor adjunto e diretor do departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo reforça que ainda há poucos estudos sobre o efeito da imunização em crianças. "Não poderemos vacinar as crianças até que tenham estudos com resultados que comprovem eficácia e segurança. Agora iniciaram os testes chamados da fase 3. É improvável que teremos as crianças vacinadas em um primeiro momento. É preciso ser discutido de forma mais ampla", disse.

Confira a seguir a programação dos próximos dias do Summit Educação Brasil 2020:

  • Dia 28/8 - das 9h às 11h

    Painel - As universidades e o desafio de continuar online no segundo semestre

  • Dia 31/8 - das 13h às 15h

    Painel - O Legado da Digitalização no Mercado e os Efeitos no Currículo Acadêmico

Com o tema Volta às aulas e a nova educação pós-pandemia, o evento debate desafios que instituições públicas e privadas, que tiveram de fechar as portas logo no início do ano letivo, enfrentam para garantir que os alunos se mantenham motivados, que o conteúdo seja dado de forma clara e que as desigualdades não aumentem.

As inscrições podem ser feitas gratuitamente pelo site. A transmissão do evento será online.

Veja também:

Igualdade racial: como formar uma empresa anti-racista?
Estadão
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