Escola reaberta conforta cidade destruída pelo tsunami no Japão
Uma semana antes de as aulas recomeçarem, o ginásio da escola secundária ainda era um necrotério improvisado. Mas os corpos foram removidos e o piso desinfetado, o que permitiu à escola secundária Kirikiri receber alunos pela primeira vez desde que o tsunami varreu a cidade portuária de Otsuchi.
"Neste desastre, perdemos muitas coisas preciosas", disse Nagayoshi Ono, diretor de uma das duas escolas que dividiram o prédio desde que Kirikiri reabriu duas semanas atrás, por ser a única escola secundária de Otsuchi sobrevivente. "Enfrentamos um teste como uma nação em guerra e como respondemos a esse teste depende de nós". Dois meses após um terremoto e um tsunami devastarem a costa do norte, sobreviventes estão se movendo para recuperar as perdas. Como em muitas áreas gravemente atingidas, professores e estudantes nesta pequena escola secundária parecem dividir a convicção de que buscar retomar rotinas prévias ao desastre pode mover suas comunidades devastadas um passo mais perto da recuperação.
Essa busca por recuperar a normalidade vem com a mesma aparência dos níveis de adversidade que não foram vistos aqui desde os dias obscuros após a Segunda Guerra Mundial.
Estudantes andam ou pegam ônibus para a escola através de planícies de entulho aplainado, onde ficavam vizinhanças inteiras. Eles chegam ao prédio onde mais de 300 alunos devem de alguma forma caber em um espaço próprio para um terço desse número. A maioria dos esportes foi cancelada, pois o campo da escola está sendo ocupado por apartamentos pré-fabricados para alguns dos novos sem-teto de Otsuchi.
Duas meninas da oitava série que não sobreviveram no dia 11 de março, quando o terremoto e o tsunami deixaram mais de 1,6 mil pessoas mortas ou desaparecidas nesta cidade de 15 mil habitantes. Pequenos buquês de pequenas flores azuis foram colocados em suas carteiras vazias.
"Sinto que elas estão conosco, em algum lugar", disse Ono, 55 anos, diretor da Escola Secundária de Otsuchi, cujos alunos agora viajam de ônibus atravessando a montanha para Kirikiri, depois de o tsunami ter devastado sua escola. "Elas querem que perseveremos".
Apesar da tristeza e da perda, Ono e os outros parecem determinados a manter um ânimo quase desafiador. Ele e meia dúzia de professores ficam na entrada, recepcionando os alunos com altos cumprimentos de "Bom dia!". Os alunos reverenciam, alguns sorrindo acanhadamente ou trocando piadas com os professores favoritos.
Ao longo do dia, professores constantemente estimulam estudantes a sorrirem e "perseverarem" - ou "ganbaru", uma palavra frequentemente ouvida no Japão recentemente.
Professores disseram que por mais que a escola esteja longe de ser o ambiente ideal para o aprendizado, era importante trazer as crianças de volta. Disseram que queriam que a escola oferecesse uma fuga do estresse de viver em abrigos de refugiados e uma chance de compartilhar com pares suas experiências durante o desastre.
"Esses são alunos que perderam lares e pais", disse Noriko Sasaki, 36 anos, professora de inglês da sétima série, que cumprimenta alunos. "A escola permite que eles voltem a algo familiar e seguro".
Muitos estudantes concordam. "Normalmente não gosto da escola, mas desta vez eu queria vir para falar sobre onde estávamos durante o tsunami", disse Kiyoshi Kimura, 14 anos, aluno da oitava série que sua casa fora destruída e muitos parentes mortos.
Ele compartilhou suas memórias do tsunami quase que avidamente com colegas reunidos em um estreito corredor. "Parecia mais com uma nuvem se aproximando do que uma parede de água", exclamou uma hora, referindo-se às ondas fazendo barulho de acordo como tombavam prédios em seu caminho.
Kota Iwai, 14 anos, era colega de sala de uma das garotas que morreu. Mesmo estando triste com sua morte, estava feliz de sair do abrigo de refugiados improvisado em um ginásio infantil, onde ele e sua família dormiram desde que perderam sua casa. "Não vi meus amigos desde o tsunami", disse. "Fomos todos espalhados".
Muitos professores disseram que esperavam que a reabertura da escola seria terapêutica não só para os estudantes, mas também para a cidade. Um tipo de silêncio atordoado parece prolongar-se sobre Otsuchi, onde o tsunami destruiu mais da metade do município e matou o prefeito.
"A visão de crianças indo à escola é um pequeno passo rumo a trazer a cidade de volta ao normal", disse Gouei Kanno, 38 anos, que ensina estudos sociais à sétima série. Ele e outros professores disseram que um dos maiores desafios de reabrir a escola foi buscar sinais de dificuldade emocionais em meio aos alunos. Professores disseram que receberam um treinamento de duas horas sobre estresse pós-traumático e identificar sintomas, incluindo diálogos de ânimo exagerado e rompantes de raiva.
"Temos nossas antenas a postos", disse Kanno, cuja casa sobreviveu por estar afastada da costa. Outra preocupação era se alunos da Escola Secundária de Otsuchi, que ficava em uma parte mais industrial da cidade, se dariam bem com os alunos de Kirikiri, uma calma vizinhança pesqueira. Para evitar brigas ou bullying, um constante problema em escolas japonesas, as duas escolas terão salas separadas.
Para quebrar o gelo e criar um ambiente de apoio mútuo para as crianças traumatizadas, as escolas pediram aos alunos para organizar sua própria cerimônia de abertura. Os times de torcida de estilo japonês de ambas as escolas se cumprimentaram no ginásio recém-desinfetado para tocar os tambores de taiko.
"Bem-vindos, bem-vindos, Escola Secundária de Otsuchi!", urrou o menino que liderava o time de Kirikiri, ao socar o ar em uma luta elaborada e pantomima. "Nossa escola foi varrida! Vamos perseverar juntos!", o líder do time de Otsuchi gritou em resposta.
Ono, diretor da Escola Secundária de Otsuchi, disse a um grupo de alunos de sua escola para adotarem seu melhor comportamento, pois estavam dividindo uma escola cheia. Todo o espaço excedente de Kirikiri, incluindo a sala de artes e a biblioteca, foi convertido em salas de aula.
Os alunos formaram uma fila para massagear o ombro do outro, em uma demonstração de apoio de grupo. Depois, na aula de educação física, alunos jogaram uma partida de "queimada de bem-estar", na qual estudantes mais fortes ajudavam os mais fracos.
"Muitos de nós perderam suas casas e posses em um instante", Megumi Nakagawa, 45 anos, professora de inglês, disse a alunos de Otsuchi. "O importante agora é dar o primeiro passo para algo mais iluminado".