Empreendedora da educação fala de erro comum no uso da IA: 'Não é alguém fazendo por você'
Iona Szkurnik, uma das curadoras do São Paulo Innovation Week, diz que inteligência artificial precisa ser vista não como robô, mas sim como espelho do usuário. Ensino, defende ela, precisa focar em habilidades humanas
A inteligência artificial vai escancarar a capacidade do pensamento crítico e, por isso, não pode ser vista só como um robô. É o que diz a psicóloga e empreendedora da educação Iona Szkurnik.
"É preciso desconstruir essa imagem de que a inteligência artificial é uma coisa que você pode 'contar com' para que se entenda que ela, na verdade, é um espelho seu. Não é como se fosse alguém fazendo por você, é uma continuidade sua."
Iona é uma das curadoras do São Paulo Innovation Week, evento que o Estadão realiza em maio na cidade de São Paulo e que tem como foco inovação, tecnologia e negócios.
A conferência deverá atrair 90 mil visitantes e terá uma programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais.
Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.
Para mudar a imagem sobre a tecnologia, explica Iona, a educação deve olhar cada vez menos para o conteúdo e mais para as habilidades socioemocionais, como criatividade, pensamento crítico, colaboração, priorização.
"Claro que tenho medo, como todo mundo, do que vai acontecer. Só que em vez de ficar congelada ou em pânico, a gente tem de saber como se preparar para usar essas inteligências que já estão aí e não vão parar", diz a especialista.
"Não adianta ensinar o que a máquina já sabe, sem ensinar o que a máquina vai precisar cada vez mais da gente, que são as habilidades humanas", completa. "Quanto mais o ser humano for capaz de ter pensamento crítico, ser criativo, colaborar e saber olhar para o resultado que ele quer, mais a inteligência artificial vai catapultá-lo para onde quer chegar."
Iona morou mais de dez anos no Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde fez mestrado em Tecnologia e Educação na Universidade de Stanford, trabalhou em escolas e no mercado de edtechs. "A inovação é uma mudança de lógica. As pessoas conectam muito com tecnologia, mas não estão necessariamente conectadas", afirma ela, hoje CEO da Education Journey, empresa que usa inteligência artificial para capacitar profissionais.
Ela deixa claro que educação não se limita à escola ou à universidade e é esse conceito que ela levará para os painéis e debates da SPIW. "Quando a gente entende que a educação não termina quando acaba algum curso, toma a frente da sua própria vida. E a maravilha da inteligência artificial é que agora está nas suas mãos aprender o que você quiser."
Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
O que é inovação na educação hoje?
A inovação é uma mudança de lógica. As pessoas conectam muito a inovação com tecnologia. Elas não estão necessariamente conectadas. Para preparar pessoas para os desafios de um mundo instável, é mais importante ensinar como trabalharem juntas. Como olhar para estrutura que vivemos, o nosso sistema educacional, e adequá-lo para a nova lógica do mundo. Para mim, a inovação é o espírito, o pilar. Como fazer com um novo olhar o que viemos fazendo e que aparentemente não está dando muito certo? Temos alguns exemplos no mundo de como os países conseguiram se adaptar na lógica da inovação, como Finlândia, Cingapura, adequando os currículos com o que acontece no resto do mundo.
E a tecnologia nada mais é do que uma ferramenta que pode acelerar e fortalecer sistemas, na formação de professores, adaptação de currículo, avaliação. Mas também expõe a cultura mais fraca, é capaz de aumentar a desigualdade e de fazer com que os mais fragilizados fiquem para trás. Porque se não muda o sistema fragilizado, quando coloca a tecnologia ali, fica cada vez mais performático e aí não vai conseguir o básico: o ensino e a aprendizagem.
Quando falamos de educação, queria tirar um pouco a barreira de achar que educação é escola ou faculdade. Educação é o que vai fazer chegar no futuro que queremos. Esse é o conceito que eu vou trazer para o São Paulo Innovation Week. E o que tem de mais lindo nisso é exatamente que ela não acaba e não te define. Você podendo se requalificar e se aprimorar no que você quiser.
E onde entra o conceito de inteligência artificial nisso?
Cabe a nós nos educar, nos aprimorar e nos qualificar para irmos onde quisermos. Quando entendemos que a educação não termina quando acaba um curso, conseguimos tomar a frente da sua própria vida. E a maravilha da inteligência artificial é que agora está nas suas mãos aprender o que você quiser. Democratizou o acesso, há pouco tempo atrás era inacessível, caro, complicado. As grandes plataformas não nos mostravam.
Há preocupação de que as IAs podem fazer com que as pessoas aprendam menos porque elas não vão errar, vão pedir para a IA fazer, o cérebro não se desenvolverá. A inteligência artificial nos ajuda a aprender mais ou menos?
Achamos corretamente que, se a criança ou qualquer usuário colar a resposta, vai emburrecer. Por outro lado, o que a inteligência artificial vai fazer é escancarar a capacidade do pensamento crítico. Temos de ficar cada vez mais inteligentes para poder usar a inteligência artificial de maneira mais eficaz. Ou seja, a questão não é colar na resposta, é saber fazer a pergunta. Ela vai mostrar quem sabe conversar com a máquina, fazer o pedido, polir aquilo, juntar os dados, usar o multimodal - quando coloca texto com vídeo, áudio, relatório, código. Quanto mais o ser humano for capaz de ter pensamento crítico, criativo, colaboração e saber olhar para o resultado que quer, mais a inteligência artificial vai catapultá-lo para onde ele quer chegar. O que é mais importante nesse momento de ensinar nas escolas, nas universidades e dentro do trabalho é como usar a inteligência artificial. Claro que tenho medo, como todo mundo, do que vai acontecer. Só que em vez de ficar congelada ou em pânico, temos de saber como se preparar para usar essas inteligências que já estão aí e não vão parar. Não vamos frear. O que a gente pode fazer então? Aprender a usar.
E o que é mais importante nesse aprendizado?
Estamos delegando para a máquina todas as tarefas técnicas, fica mais importante ainda o uso das soft skills, as habilidades e competências socioemocionais. Nos Estados Unidos, se diz que são cinco C: criatividade, comunicação, colaboração, critical thinking, que é pensamento crítico, e computational thinking, que é o pensamento computacional. Isso você consegue de fato ensinar em qualquer sala de aula, em qualquer contexto. E aí, sim, consegue criar times mais fortes e projetos escolares mais inteligentes e interligados.
Mas muitos pais ainda se importam muito com o conteúdo que o filho aprende na escola e menos com as competências socioemocionais.
Todo esse currículo conteudista já vem perdendo força há muito tempo. Isso não é novidade para ninguém. Porque são dois problemas: o acúmulo de conteúdo não te coloca dentro da faculdade e as avaliações conteudistas não conseguem avaliar o quanto você absorveu, quanto aquela aprendizagem foi eficaz. Quem decora passa na prova. Vai para o trabalho, não sabe 'lé com cré'. Para de fato preparar pessoas para os desafios de um mundo instável, é mais importante ensinar para elas trabalharem juntas. Gestão de tempo, gestão de conflitos, comunicação não violenta, priorização. Como ensinar uma priorização se você baseia tudo em conteúdo? Para ensinar a priorizar depende muito do objetivo. Quero mais rapidez, ou profundidade, ou eu quero criar comunidade, ou preparar para daqui a 10 anos? Tudo depende e isso é o pensamento lógico, que é mais importante do que um pensamento conteudista. Isso, sim, podemos delegar para máquina. E por que não delegar para a máquina o que ela vai fazer mais rápido do que a gente?
Como fazer com que essas mudanças na forma de pensar a educação cheguem às políticas públicas no Brasil?
Precisa de vontade política para mudar. Existe todo um planejamento estratégico que esses países que mencionei fizeram e que de fato cumpriram. Sem formação de professor continuada, não consegue chegar muito longe. E hoje os professores têm uma carga burocrática grande e uma obrigatoriedade de avaliação conteudista que anda na contramão do mundo. Hoje se pensa em aprendizagem por projeto, criatividade e etc. Neste ano de eleição, há uma ótima oportunidade para os presidenciáveis e aqueles na disputa por governo de criar um projeto de educação que possa, de fato, olhar para fora do Brasil e ver o que que está dando certo. Os professores de sala de aula são nossos heróis e estão dentro de um sistema que precisa ser modificado. E, sem mudança de currículo, não conseguimos ir muito longe. Não adianta ensinar o que a máquina já sabe, sem ensinar o que a máquina vai precisar cada vez mais da gente: as habilidades humanas que acabamos de falar, as competências socioemocionais.
E como fazer isso?
É um desafio grande porque tem que ter uma medida. Quão nova a criança pode ser para começar a ensiná-la a usar as ferramentas que ela terá na vida adulta, para achar o conteúdo que ela quer? É complexo. Você faz uma avaliação contínua, uma avaliação em grupo por projeto, como premia ou desenvolve o mais introspectivo, o mais extrovertido? Não necessariamente quem tem comunicabilidade é mais ou menos inteligente do que quem é mais quieto. E como deixar com que a personalidade de cada um aflore na sala de aula? Mas estamos vivendo um ponto de inflexão. São os nossos professores atuais e os do mundo todo. Isso dá certa paz de espírito, porque não é só o Brasil.
O que você já vê lá fora de pesquisa sobre isso?
A Finlândia teve um experimento qualitativo com 195 alunos de 5º e 6º anos para avaliar como eles veem a inteligência artificial. Alguns entendem a inteligência artificial como um colega. É preciso desconstruir essa imagem de que a inteligência artificial é uma coisa que você pode 'contar com' para que se entenda que ela, na verdade, é um espelho seu. Não é como se fosse alguém fazendo por você, é uma continuidade sua. Então, alguns alunos aprenderam com IA e outros aprenderam sobre IA. Os alunos que aprenderam sobre inteligência artificial chegaram no final das cinco perguntas mais importantes e respondê-las mais fidedignas à realidade. Os alunos que aprenderam com IA ficaram misturados com IA. Não souberam responder.
Muitos adultos também veem a IA como um robozinho que faz um trabalho por eles. Como esse conceito pode ser difundido em uma população que muitas vezes é analfabeta tecnológica?
A inteligência artificial traz um conceito importante: de prontidão, o AI readiness. É como você está pronto para o que não sabe, para o que vem, como absorver a instabilidade de maneira constante? Tudo o que falamos aqui é socioemocional, é adaptabilidade, resiliência e criatividade. As empresas mais bem preparadas para esse aprimoramento e requalificação da mão de obra olham exatamente para isso: adaptabilidade, resiliência e curiosidade. Assim você baixa a barreira do medo, do pânico, de colocar embaixo do tapete uma mudança que não vai deixar de acontecer. E aí, sim, tem risco de perder empregos. Imagina uma empresa que quer que os seus analistas de RH aprendam a usar inteligência artificial. Não adianta colocar em um curso de inteligência artificial. Precisa colocar para eles o contexto da realidade, o objetivo daquilo que estão aprendendo e a aplicabilidade. Quanto mais adulto ficamos, mais o nosso cérebro está acostumado a fazer aquilo daquela maneira, por isso que aprendemos mais rápido quando somos mais novos. Quando aprendemos uma coisa nova, quanto mais velho o nosso cérebro é, mais importante aplicar aquele aprendizado o mais rápido possível.
Vocês estudou muito a forma como aprendemos. Como isso pode ser usado no mercado de trabalho nesse momento de instabilidade?
Como as pessoas aprendem tem a ver com feedback imediato. você só registra algo se tem carga emocional. Tanto é que se perguntar quem foi a sua professora preferida, quem foi seu professor que você menos gostou, qual foi o dia mais feliz da sua vida? Todas essas respostas que vêm de imediato vêm carregadas de emoção. A emoção faz com que a sinapse seja mais rápida e profunda. Para aprender novas habilidades e competências, precisa atrelar alguma produtividade, tem de fazer sentido, senão vai embora. E por que aprende algo e nunca mais esquece e outras pode aprender 10 vezes e não consegue fazer? Pesquisas mostram que tem a ver com a aplicabilidade.
Donos de empresa têm a obrigação de oferecer pro seu corpo de funcionários todas as maneiras de aprender que não só curso, só palestra, só mentoria. Você tem de oferecer curso, palestra, mentoria, plataformas, trilhas individuais, eventos como São Paulo Innovation Week que despertam curiosidade, que criam comunidade, que expõem a pessoa a outras coisas. A cada dólar que a empresa média brasileira investe em desenvolvimento humano, sete dólares são investidos nos Estados Unidos. Não é à toa que as maiores empresas do mundo estão lá, porque investem na educação contínua dos seus funcionários. Temos de desmistificar: vejo que algumas pessoas em pânico, achando que já perderam o bonde. Não é verdade. Ninguém perdeu o bonde. Está todo mundo no mesmo bonde. E tem maneiras e plataformas para todo mundo que quer aprender alguma coisa.
E como instituições de ensino superior podem fazer para inovar e formar um profissional para o futuro?
O sistema educacional, por definição, não é inovador e aí mora uma contradição. Como vai experimentar, tomar risco, inovar, está lidando com a vida das pessoas? Não é fácil mesmo. Tem de tomar cuidado para não bater nas instituições ou nos educadores, como se estivessem comendo mosca. A pergunta é: qual é o equilíbrio entre inovar, tomar risco, experimentar, e fazer todo o processo de design thinking? E aí você reitera e aprende com o erro, segue, testa continuamente.
Não é fácil inovar e aderir a novas ferramentas e à inteligência artificial se está lidando com um professor que não foi formado para isso, alunos que têm mais urgência do que a profundidade do aprendizado que ele necessita. Não pode ser só experimento, por isso falo que é um equilíbrio e que tem alquimia nisso. Estamos falando de dois vespeiros: governo e instituição de ensino.