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Editora Record ameaça encerrar parceria com prêmio Sesc, acusado de homofobia e censura

O livro 'Outono de Carne Estranha' trata de um romance homoafetivo que acontece entre garimpeiros do Pará

7 mar 2024 - 19h39
(atualizado em 11/4/2024 às 14h03)
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Foto: Reprodução/Instagram/@henriquerodrix

Parceiro do Prêmio Sesc de Literatura, o Grupo Editorial Record publicou uma nota em que manifesta um "extremo incômodo" com a gestão da premiação. O documento de duas páginas reúne uma série de atitudes das quais discorda da diretoria do prêmio e pede explicações.

Nos bastidores, o Prêmio Sesc vinha sendo acusado de homofobia e censura pela forma como o vencedor da categoria Romance do ano passado, o livro Outono de Carne Estranha, do autor Airton Souza, tem sido tratado. A obra trata de um romance homoafetivo que acontece entre garimpeiros do Pará, estado onde Airton Souza nasceu.

Segundo o próprio escritor, que decidiu se manifestar publicamente sobre o caso, toda a situação de homofobia e censura começou depois de ele ler um trecho da obra durante a Festa Literária de Paraty (Flip), no ano passado, em frente ao diretor-geral do Sesc.

"Eu selecionei o começo do livro para ler e mostrar para o público um pouco desse romance que se passa no Garimpo de Serra Pelada, na década de 80, que conta um pouco da minha relação afetiva com o garimpo, porque meu pai foi garimpeiro", inicia a explicação.

De acordo com Souza, porém, o diretor-geral do Sesc não teria gostado do que ouviu. A partir de então, o escritor diz que teria se iniciado "um processo muito doentio" e "ligado à homofobia". O escritor afirmou ainda que tentaram buscar formas judiciais de tirar o seu prêmio.

A versão de Airton Souza é sustentada também por Henrique Rodrigues, um dos criadores do Prêmio Sesc, que foi demitido durante a polêmica. O escritor disse que a demissão ocorreu porque Rodrigues teria agido em sua defesa, e em oposição às mudanças propostas para a premiação.

A demissão de Guilherme Rodrigues aparece, inclusive, como um dos motivos de preocupação para a editora Record, na nota citada anteriormente. Entre as questões que produziram incômodo no grupo editorial, há especificamente:

  • "[...] a demissão de dois funcionários do Sesc responsáveis diretos pelo prêmio e pela interlocução entre o Sesc e a editora, entre eles o criador intelectual do prêmio, o escritor Henrique Rodrigues, sem qualquer comunicação prévia ou consulta à editora".

Sobre a demissão de Henrique Rodrigues, o Sesc diz em nota que não há "nenhum prejuízo à iniciativa".

"O Sesc se reserva no direito de selecionar e manter em seus quadros funcionários que atuem em sintonia com a filosofia e cultura da Instituição", diz o grupo.

Boicote à divulgação

Uma das estratégias que teriam sido adotadas pela instituição, e interpretada como censura e homofobia, seria um suposto boicote à divulgação do livro Outono de Carne Estranha. Isso porque, tradicionalmente, os vencedores do Prêmio Sesc fazem uma espécie de turnê pelas regionais do Sesc para divulgar suas obras.

O fato também foi citado pela editora como "preocupante". Diz a nota do Grupo Editorial Record:

  • "As viagens deveriam ter início agora em março. A alegação por parte do Sesc de que a escritora Bethânia Pires Amaro, por questões pessoais, estaria impedida de viajar no primeiro semestre, não é confirmada pela escritora. E mesmo que o fosse, não nos apresentaram as razões para adiar as viagens do outro autor premiado, Airton Souza. Embora essas viagens pelo Brasil não sejam uma obrigação contratual do Sesc, são uma tradição na dinâmica de divulgação dos livros premiados, e foram prometidas aos autores na cerimônia de entrega do prêmio".

O texto menciona a escritora Bethânia Pires Amaro, que venceu na categoria Conto, com o livro O Ninho. O Sesc informou que o Circuito dos Vencedores, com a participação de Airton Souza e Bethânia Pires Amaro, ainda irá ocorrer.

"A postergação do início da circulação ocorre em virtude das mudanças no Prêmio Sesc de Literatura, que exige dedicação completa da equipe de Literatura do Departamento Nacional do Sesc", diz em nota.

A Record critica ainda um comunicado enviado pelo Sesc aos seus núcleos regionais que, em tese, deveria apresentar os autores premiados e estimular que estes fossem convidados a nelas se apresentar ao público. Segundo a editora, porém, este ano a mensagem circular parece fazer o contrário.

  • "Segundo o documento, o romance, 'por tratar-se de conteúdo sensível', 'pode ativar gatilhos emocionais e psíquicos', e deve ser acompanhado de um trabalho específico de mediação, no qual o público seja orientado e informado previamente do conteúdo do livro, e que aceite formalmente ser exposto a ele antes de assistir a uma eventual palestra do autor".

Em nota, o Sesc afirma que a mensagem se tratou de uma orientação com relação à classificação indicativa da obra, o que chamou de "mecanismo de garantia do respeito ao direito à prevenção especial de crianças e adolescentes".

Atraso em lançamento da edição 2024

A edição 2024 do Prêmio Sesc de Literatura ainda não foi anunciada. Normalmente, o edital é publicado no início de janeiro. Este ano, porém, houve um atraso que, segundo o Sesc, está relacionado a reestruturações no prêmio, que deve, por exemplo, começar a aceitar inscrições na categoria Poesia.

A editora Record, no entanto, não viu com bons olhos o atraso. O grupo também se queixou dos "adiamentos sucessivos (de novembro de 2023 até agora) do acesso da Record ao teor tanto do novo edital do prêmio, quanto da renovação do convênio com a editora.

A Record ainda se disse preocupada com a possibilidade de que o Prêmio Sesc esteja elaborando um comitê interno de avaliação dos candidatos posterior à avaliação do corpo de jurados. Diante de rumores do tipo, a editora reclama: "[...] o Sesc não negou, de maneira cabal e pública, esta hipótese, que acreditamos que funcionaria com um filtro extraliterário e prejudicaria a lisura e liberdade de avaliação do júri".

O Sesc não cita, em sua nota, a intenção ou não da criação de tal comitê. Quanto às acusações de homofobia, o Sesc considera que elas não têm "nenhum fundamento".

"O romance vencedor de 2023 foi selecionado entre 770 obras inscritas e teve sua publicação realizada pela Editora Record, parceira do Sesc no projeto, tendo inclusive alcançado a 2ª edição de tiragem com menos de um mês de lançamento. O Prêmio Sesc de Literatura sempre se pautou pela imparcialidade, com decisão soberana de suas comissões julgadoras, formadas por escritores renomados, que selecionam as obras pelo critério da qualidade literária", afirma a nota.

Fonte: Redação Terra
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