'EAD já é o futuro', diz professor da USP

Participante de uma das primeiras experiências de ensino à distância na universidade, Hélio Dias destaca potencial de ensino 'sob demanda'

29 jan 2019
06h10
  • separator
  • comentários

Um dos participantes de uma das primeiras experiências de ensino a distância na Universidade de São Paulo (USP), o professor Hélio Dias vê na tecnologia um dos principais aliados do professor na sala de aula. Ex-coordenador do Laboratório Didático do Curso Semipresencial de Licenciatura em Ciências na universidade, ele acredita que as ferramentas digitais podem proporcionar uma espécie de ensino "sob demanda", que identifique pontos fracos no aprendizado e se adeque aos horários em que o estudante tem mais rendimento.

Como garantir a mesma qualidade do ensino presencial no EAD?

Quando o curso a distância, seja ele semipresencial ou totalmente online, é feito com qualidade e pessoas qualificadas, utilizando também recursos que são necessários, a minha impressão é muito positiva pela experiência. O ensino online possibilita alguns tipo de recurso que o ensino presencial jamais vai conseguir. Hoje você tem plataformas que, à medida que o aluno interage com os conteúdos, ela consegue entender bem qual a melhor maneira desse aluno aprender de forma individual. Isso por conta da informações que, conforme a pessoa vai acessando, a própria plataforma analisa esses dados e vê o melhor horário em que o aluno aprende.

Em relação à avaliação dos alunos, as novas tecnologias no ensino ajudam ou atrapalham?

Hoje, a questão das provas nas plataformas, principalmente no exterior, são muito evoluídas. Há algumas universidades, por exemplo, em que as provas são tantas que nenhum aluno faz a mesma. A plataforma produz um tipo de customização de tal maneira que não adianta achar que você pode "colar". A questão é sempre diferente, porque são alterados os números, muda a pergunta. O exercício é basicamente o mesmo, mas a plataforma troca elementos do que você vai perguntar sobre aquele problema, faz uma espécie de mistura. Acho que o EAD veio para ajudar o professor, para ele poder se beneficiar e conseguir fazer com que a absorção do conteúdo pelo aluno, a formação, aumente. A gente não pode temer isso de jeito nenhum. Estamos vendo experiências em que, cada vez mais, aquele método tradicional com o aluno na carteira e o professor no quadro negro está ficando mais distante.

Eu acho que a proposta do semipresencial é importante. Ela tem uma característica, por exemplo, de possibilitar disciplinas que utilizam laboratório, pensadas para o aluno desenvolver experimentos. Principalmente nos cursos da área de exatas, o aluno pode usar o espaço para experiências de Física e Química. Essa questão do hands on, colocar a mão na massa, ter um dia da semana em que esse aluno pode ir ao local para as atividades, ter contato com o docente, eu acho que isso é bastante importante. Mas há algumas possibilidades de um curso ser totalmente online.

Já há um questionamento entre a barreira do EAD e do presencial?

Essas experiências ocorrem em alguns locais no Brasil, já há quem esteja tentando fazer isso. Por exemplo, há um conceito que se chama Laboratório Virtual. Quer dizer, hoje você tem condição de fazer um experimento sem necessariamente estar no local onde estão os equipamentos. Você pode colher os dados e analisar via web - é o que a gente chama de web lab. Você pega a maioria das escolas de ensino básico, pelo menos do ensino médio, onde teria de ter atividades de laboratório de Química, de Física... A grande maioria não tem nenhum recurso de laboratório. Meu filho estudou em escola particular, e as atividades de laboratório, mesmo no ensino privado, praticamente é quase nada. Não existe laboratório. Eu acho que o EAD, e exatamente esses recursos tecnológicos, vão com certeza fazer - e já estão fazendo - com que você possibilite ao aluno uma série de atividades que não têm disponibilidade no presencial.

As escolas estão conseguindo se transformar de forma satisfatória?

Há uma geração de professores que têm muita dificuldade (com a tecnologia). Eu mesmo tenho 66 anos, tive de aprender a mexer com isso. São coisas que a maioria dos professores tem uma certa dificuldade, mas tenho colegas, por exemplo, que não tem nem WhatsApp. (Dizem:) 'Não, eu não sei, não quero nem saber'. São pessoas importantes, mas que se negam a esse tipo de coisa. Mas eu acho que é irreversível. O ensino precisava se adaptar ao ritmo em que o aluno é mais produtivo, e a gente acaba obrigando ele a estar às 7h30 na frente da sala de aula com o professor falando. Eu acho que o EAD será o futuro, e já está sendo.

Estadão

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade