Conheça os novos desafios para se estudar inglês em Londres
Conheça os novos desafios para se estudar inglês em Londres
Frio e chuva durante a maior parte do tempo, distância de amigos e familiares e um investimento financeiro de pesar no bolso de qualquer brasileiro. Tudo isso para aprender e praticar inglês em um país que aperta cada vez mais o controle imigratório sobre estudantes. Ainda vale a pena estudar em Londres?
A goiana Maria Luiza Freitas, 17 anos, matriculada em uma escola de inglês no centro da cidade, não se arrepende. Para ela, o aprendizado vai além da língua, que ela já havia estudado por 10 anos em cursos no Brasil. As aulas com professores estrangeiros e o intercâmbio cultural em uma cidade cosmopolita são as recompensas para o investimento de mais de 35 mil reais exigido para que ela obtivesse o visto para passar um ano estudando no país.
"Aqui você entra em contato com as mais diferentes culturas. Conheci pessoas do Vietnã, da Turquia, da Bulgária, da Rússia, do Japão, do Afeganistão... Essa diversidade é o mais marcante em Londres", conta a estudante, que chegou há dois meses na cidade.
Maria Luiza teve que passar pelo novo sistema para a obtenção de visto de estudante, que entrou em vigor no final de março. Apesar de mais simples e menos subjetivo, o processo coloca um grande obstáculo no caminho de quem pensa em estudar no Reino Unido. Agora, o estudante precisa provar que possui antecipadamente o dinheiro para se sustentar durante o período em que pretende passar no país. Isso significa, para quem for estudar em Londres, onde o custo de vida é mais elevado, a exigência de 800 libras esterlinas (aproximadamente 2.420 R$) para cada mês de matrícula em uma instituição na cidade. Esse dinheiro deve estar separado em uma conta bancária durante 28 dias para que o órgão de imigração aceite conceder o visto. Se somado aos custos do curso, das passagens e da taxa de pedido de visto, o investimento inicial é altíssimo.
"Realmente, estudar em um outro país exige um bom planejamento financeiro, relacionado à vontade para investir na carreira e em uma boa formação acadêmica e o Reino Unido claramente exige isso", justifica Rodrigo Gaspar, diretor de promoção educacional do British Council, instituição britânica que promove a educação para estrangeiros no país.
"A cultura e a sociedade britânica trazem outros elementos à questão, além dos atributos acadêmicos. Ao ir para o Reino Unido, o estudante brasileiro vai aprender a ser mais independente, vai melhorar o seu inglês e vai experimentar a diversidade e tudo o que a cultura e a história britânica têm a oferecer", salienta ele.
No entanto, a entrada para a terra prometida de engrandecimento cultural e ampliação de horizontes está se tornando cada vez mais seletiva. Para quem pensa em vir como estudante e recuperar os custos da viagem trabalhando, o que muitos brasileiros costumavam fazer, um alerta: o controle sobre o número de horas trabalhadas está gradualmente aumentando e deve se tornar praticamente intransponível depois que as escolas forem obrigadas a delatar os alunos que não comparecem às aulas com frequencia, o que deve ocorrer ainda este ano. Trabalhar mais do que 20 horas por semana não é permitido ao estudante estrangeiro. Quem descumprir essa regra, corre o risco de ser deportado.
Felipe Garces é responsável pela adaptação de estudantes ao ambiente estrangeiro da Malvern House, uma escola de inglês que conta com 1,5 mil estudantes, aproximadamente 15% deles brasileiros. Ele afirma que sua escola já está pronta para atender às exigências do órgão de imigração e isso, de acordo com ele, representa um avanço:
"O trabalho em si não é ruim. Permite aos estudantes progredir, entender melhor a cultura, a se inserir e fazer parte dela. Por isso, o trabalho é permitido, mas limitado para que o estudante não se distancie de seu principal objetivo, que é estudar".
Há mais de um ano em Londres, o estudante paulista Flávio Soares da Silva, 31 anos, é um exemplo de brasileiro que teve que trabalhar para se sustentar logo que chegou no país. Ele conta que os empregos que conseguiu exigiam muito tempo e esforço não permitindo que se dedicasse ao aprendizado da língua.
"Já trabalhei de tudo, ajudante de cozinha, faxineiro, garçon... Aqui a gente consegue subemprego", afirma Flávio, que trabalhava como analista de sistemas e promotor de eventos no Brasil.
Flávio considera que a crise financeira deixou tudo mais difícil em Londres. O restaurante onde ele trabalhava, por exemplo, teve que fechar. Conseguir emprego e moradia, para ele, ficou bem mais difícil. Por isso, seus objetivos mudaram. Agora ele quer se dedicar mais aos estudos e tentar fazer um curso de mestrado.
O British Council não considera que a crise tenha efeito sobre os gastos daqueles que vão com o objetivo de estudar:
"O número de brasileiros no Reino Unido cresceu depois que a crise financeira virou notícia. O custo de alguns serviços no país foram levemente reduzidos. Então, não há nada específico que indique influência da crise", afirma Rodrigo Gaspar.
De fato, a crise que balançou os pilares da poderosa economia do Reino Unido, afetou em grande escala o sistema financeiro, não tanto o setor de serviços. Uma das medidas para combater a desaceleração econômica foi a redução do imposto pago sobre cada produto ou serviço no país. Os preços diminuíram um pouco. No entanto, para quem tinha outros planos, além de estritamente estudar, a situação ficou realmente mais difícil.
Um dos fatores é a desvalorização da libra em relação ao euro. No auge da crise, a moeda européia chegou a ter a mesma cotação da moeda britânica. Londres, que era o porto de partida para viagens pela Europa, perdeu muito de seu apelo. Antes era mais conveniente trabalhar recebendo em libras no Reino Unido e depois trocar por uma moeda mais fraca, ganhando mais poder aquisitivo durante a viagem. Agora essa vantagem não é nula, mas é bem menor do que costumava ser.
A abertura para trabalhadores de demais países da União Européia também dificulta a vida dos estudantes brasileiros que procuram emprego no país. Muitos empregadores preferem contratar quem tem permissão para trabalhar em tempo integral, dando mais chances aos europeus.
Mesmo em relação ao aprendizado e prática do inglês, Londres apresenta obstáculos. Eduardo Montebello Salim, 29 anos, diz que para se concentrar em seu maior objetivo, a língua inglesa, precisa evitar contato com brasileiros. Com estimados 19 mil brasileiros em escolas de inglês no Reino Unido, a maioria deles na capital - um número que têm crescido, segundo o British Council, - essa não é uma tarefa simples.
"Não é porque eu não gosto do meu país ou qualquer coisa assim, mas eu tento não ir em lugares onde sei que há concentração de brasileiros", afirma Eduardo, que é formado em geografia política e pretende fazer mestrado no Reino Unido. "É conveniente, mas se eu me relaciono muito com pessoas do meu país, não pratico inglês como eu gostaria".
São muitas as adversidades e quando o longo inverno britânico chega e às quatro horas da tarde já está escuro, é possível encontrar muitos brasileiros praguejando contra o frio, a distância e a vida apressada da capital do Reino Unido. Mesmo assim, por algum motivo, assim como Maria Luiza, Flávio e Eduardo, eles acham que vale a pena. Ter aulas com colegas de todas as partes do mundo, poder visitar com frequencia lugares como o British Museum, a National Gallery, ver o majestoso parlamento inglês à beira do Tâmisa, as igrejas da Abadia de Westminster. Frequentar pubs, ir à festas, fazer amigos. Assistir musicais, peças de teatro. Convivência internacional como poucos lugares no mundo podem oferecer. Talvez seja isso o que impulsiona tantos brasileiros para a aventura de estudar em Londres.
No entanto, as condições atuais exigem cada vez mais ponderação. "Antes de vir, o estudante precisa ter noção da realidade de Londres, não do que é idealizado. Um dos maiores problemas é em relação à expectativa. As diferenças são maiores do que aparentam. Se você não está preparado, o choque cultural e as dificuldades de adaptação serão muito maiores", afirma Felipe Garces, que aconselha a ajuda de pessoas especializadas e de amigos que já passaram pela experiência.
Rodrigo Gaspar salienta que é muito importante pesquisar e escolher bem a instituição de ensino: "Faça uma pesquisa bem detalhada antes de escolher o curso. O estudante tem que encontrar o que for melhor para ele. Entrar em contato diretamente com a instituição de ensino é essencial para descobrir se eles têm o que você precisa. O processo é trabalhoso, mas acaba sendo recompensado".
Em última instância, é preciso pesquisar, refletir e planejar com cuidado. Estar ciente dos obstáculos e das mudanças é essencial. Há muito a se ganhar. Afinal, as dificuldades encontradas em um país distante são também o que muitas vezes ajudam os estudantes a crescerem e a adquirirem, como lembrou Rodrigo, independência e experiência de vida.