Como lidar com pré-adolescentes em classe

Em meio a um turbilhão de mudanças por que passam os alunos, o desafio do professor da segunda fase do ensino fundamental é ajudá-los a equilibrar mais responsabilidades com a dispersão natural da idade.

O turbilhão interno do pré-adolescente requer muita serenidade do professor
O turbilhão interno do pré-adolescente requer muita serenidade do professor
Foto: Getty Images

As matérias, os professores e as exigências aumentam para os alunos na segunda fase do ensino fundamental, e o professor acima de tudo precisa ensina-los a "aprender a aprender" e a se organizar para dar conta do recado. É nessa fase que os alunos descobrem que o bom desempenho escolar tem tudo a ver com eles mesmos.

As novas exigências na escola coincidem com mudanças e reações da fase da pré-adolescência. O corpo passa por alterações físicas e hormonais e pode provocar estranhamento e sensação de desconforto. Embora cada pré-adolescente reaja à sua maneira, movimentos contraditórios são comuns nessa fase.

Alguns querem voltar a ser criança, enquanto outros reivindicam mais autonomia. Momentos de grande introspecção, com ar de estar no "mundo da lua", indicam que o jovem está tentando colocar os pensamentos em ordem e entender o que está acontecendo com ele.

O turbilhão interno do pré-adolescente requer muita serenidade do professor. Por exemplo, faz diferença colocar a responsabilidade como meta, que faz parte de uma preparação, e não como um comportamento obrigatório.

Para acolher bem
- O aluno pré-adolescente sentirá mais segurança se sentir que pode contar com a compreensão irrestrita do professor para esclarecer suas dúvidas.
- Se ele tem dificuldade em alguma matéria, é provável que esteja duvidando de sua utilidade e deseja ser convencido, por exemplo, de que sem a matemática ele não pode nem conferir se um troco está certo ou errado.
- Uma estratégia para proporcionar acolhimento emocional e ao mesmo tempo transmitir conhecimentos interessantes ao aluno desse período é conversar sobre situações de mudança relacionadas a fatos históricos ou mesmo com base nas notícias do jornal, mostrando o que está acontecendo no mundo, na cidade e até na própria escola de uma maneira inesperada.
- Outro recurso, para reforçar que a vida é um aprendizado contínuo e a soma de muitos momentos e mudanças vividas, é estimular o aluno a falar dos planos para o futuro. Como será que ele se imagina na adolescência e, depois, na fase adulta?

Discutindo a relação
Uma pesquisa publicada no Canal Educação do portal Terra, desenvolvida pela Estimar Instituto de Pesquisa, Olhar Cidadão e Instituto Votorantim, atesta algumas dificuldades na relação dos professores de escolas públicas paulistanas com seus jovens alunos.

Na verdade, esses professores, normalmente, observam bem de perto o processo de transformação do adolescente. Muitos dão aulas também para o ensino fundamental, além do médio, e acompanham o aluno nesse ritual de passagem - do adolescente do ensino fundamental para o jovem do ensino médio.

Os entrevistados reconhecem como características inerentes à juventude a onipotência, o distanciamento, a contestação e, na falta de outra definição para o seu estado de "ebulição", os hormônios. Mas admitem que também passaram por isso em sua juventude.

Nesse cenário, surgem ainda elementos novos, com os quais os professores afirmam ter dificuldades de lidar, devido à falta de referências teóricas ou mesmo de vida, tais como o homossexualismo, apontando a necessidade de formação sobre a questão da diversidade sexual; as drogas, indicando o desafio de lidar com alunos consumidores e alunos traficantes e as novas tecnologias, como celular e MP3, que provocam a dispersão da atenção.

A pesquisa procurou levantar também o que os professores consideram como essencial para se relacionarem bem com seus alunos. A maioria dos professores acha que é necessário colocar-se como um "adulto" ¿ se impor, conter os alunos, estabelecer limites e compromissos e, sobretudo, entrar na sala de aula com uma proposta clara de conteúdo.

Na tentativa de se aproximarem de seus alunos adolescentes, os professores usam estratégias diversas. Procuram inteirar-se do universo jovem para falar a mesma língua e facilitar o contato por meio de internet (orkut, MSN), programas de TV (Malhação, Rebeldes) ou leituras (revistas Toda Teen, Capricho etc) e propõem atividades extracurriculares programadas, dentro da sala de aula ou nos finais de semana na escola.

Os entrevistados percebem que o espaço escolar hoje é para o jovem um território em que ele se sente à vontade para vivenciar coisas como afetividade, ansiedade, abandono, violência e identidade. Se por um lado, o espaço escolar está sendo intensamente utilizado pelos jovens para exercitar suas vivências e convivências, por outro lado, sua função educativa está cada vez mais distante.

Na percepção dos educadores de escolas públicas, o desinteresse dos jovens pela educação está relacionado à fragilidade do valor da educação (ausência de referências da família), falta de informação (opções profissionais), falta de perspectivas (mercado de trabalho, não conseguem reconhecer vocações) e imediatismo (não conseguem perceber a conexão entre educação e futuro).

Diante de tantas demandas, haja preparo, vocação e interesse em ensinar! Mas o resultado de se trabalhar bem a motivação juvenil e estimular o potencial da turma é gratificante.

Quando bem-sucedido, o esforço do professor proporciona ao jovem a alegria de estar na escola - uma tese defendida com veemência pelo educador francês Georges Snyders.

Em seu livro "Alunos Felizes" (Paz e Terra, 1993), ele escreve: "Se, num passado recente, os alunos puderam verificar, dentro de um determinado prazo, que seu trabalho efetivamente lhes retribuía a alegria prometida, eles darão ao professor um crédito breve e satisfatório: a promessa de que, ao cabo de seus esforços, eles conhecerão a alegria de compreender, de se comover, de saber fazer".

Fonte: Sociedade Brasileira de Psicopedagia e pesquisa Onda Jovem

Fonte: Redação Terra
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