Com Trump e crise global, quais novos países serão os novos destinos dos estudantes? 'Ruptura'
Vice-presidente da QS, que produz um dos principais rankings da área, fala de impactos das restrições migratórias no ensino superior internacional
O fluxo do ensino superior global está mudando e os principais países de destino dos estudantes - Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália - devem dar lugar a outros países, como a Irlanda, de forma mais imediata, e Índia e China, em médio prazo. A avaliação é de Ben Sowter, vice-presidente da Quacquarelli Symonds (QS), empresa inglesa responsável por um dos principais rankings de universidades do mundo, o QS World University Rankings.
Segundo ele, este cenário já se consolidava antes de Donald Trump assumir a presidência dos Estados em janeiro, mas se agrava diante das políticas adotadas pelo republicano à frente da Casa Branca de restringir a entrada de estrangeiros.
Embora com regras menos rigorosas do que as americanas, outros países também têm adotado políticas de migração mais rígida também para estudantes.
- Nos EUA, Trump suspendeu a emissão de vistos para alunos estrangeiros, mas depois retomou sob regras rígidas de avaliação dos perfis dos candidatos.
- O Canadá, que era um dos países mais abertos a estudantes, restringiu o número de vistos para estrangeiros cursarem graduação.
- O Reino Unido anunciou um plano para reduzir a imigração com regras mais duras para aprovar vistos e autorizar residência permanente, além de diminuir o período permitido a estudantes formados para permanecer no país após a graduação.
- A Austrália implementou novos critérios para vistos de estudantes Após dados que mostraram imigração recorde no ano passado.
China e Índia surgem, em um futuro próximo, como alternativas, já que suas universidades já fazem esforços ativos para atrair mais alunos estrangeiros.
China e Índia
A China, nos próximos cinco anos, se tornará muito mais atraente para estudantes internacionais, segundo Sowter. Para os estudantes brasileiros, uma experiência no país asiático será valiosa do ponto de vista da empregabilidade, ele diz.
Principal parceiro comercial do Brasil, a China é o destino da maioria das exportações brasileiras desde 2009.
"As universidades chinesas - ao contrário das do Reino Unido, Austrália, Canadá e Estados Unidos - estão dizendo: 'venham para cá, queremos nos abrir'. O governo está incentivando que se abram. Elas não sabem exatamente como fazer isso, mas vai acontecer, porque na China, quando o governo diz que algo deve acontecer, realmente acontece", completa.
Já a Índia tem mostrado evolução há mais de uma década. As universidades indianas nunca terem ficado entre as 100 melhores do mundo (diferente do Brasil, que tinha a USP neste grupo até o ano passado). Apesar disso, o país mais populoso do mundo é o que teve o maior número de novas universidades que entraram nos rankings da QS nos últimos anos.
"Em muitos desses locais (na Índia e em outros países asiáticos, como a Malásia), vemos as principais instituições privadas crescendo - não necessariamente liderando o grupo, mas sendo parte valiosa e respeitada do 'mix' competitivo internacional. Começam a desempenhar papel importante no sucesso desses locais", pontua Sowter.
Neste ano, a portuguesa Universidade de Coimbra anunciou a sua primeira pós-graduação no Brasil em parceria com a Casa de Portugal de São Paulo, onde serão ministradas as aulas dos cursos presenciais.
Mas esse fluxo internacional de estudantes não é isento de desafios, especialmente no ambiente político, pondera. "Em alguns locais, há resistência a um grande número de pessoas vindo de um lugar para outro", diz.