Clima e crise de saúde podem estar na Redação do Enem

Nas questões em geral, vale a característica principal do Enem: interdisciplinaridade

16 nov 2020
12h10
atualizado às 16h17
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Mudanças climáticas, pandemia, eleições pelo mundo, automação do trabalho. Temas como esses, na capa de portais de notícias pelo mundo, são os que especialistas e educadores apontam como prováveis assuntos da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

"Nas redações do Enem, o tema sempre vem com uma proposta de intervenção social da atualidade, por isso é importante estar por dentro do que acontece no Brasil e no mundo, e das alterações legislativas que foram pautas em 2020", afirma Hydnea Ponciano, Gerente de Avaliação e Indicadores Educacionais da Somos Educação.

A aposta da educadora para este ano é o Marco Legal de Saneamento Básico. A norma, sancionada em julho pelo governo federal, tem por meta o fornecimento de água potável a 99% da população até 2033 e tratamento e coleta de esgoto a 90%.

Neste ano em que "lockdown" foi escolhida pelo dicionário Collins como a palavra de 2020, a pandemia é séria candidata a tema da Redação no Enem. "É bom estar atento ao direito à saúde, com a importância do SUS (Sistema Único de Saúde). Assuntos relacionados à cidadania são caros aos elaboradores do Enem", ressalta Fabiula Neubern, coordenadora de redação do Curso Poliedro.

Mesmo que o tema não seja cobrado diretamente, outras facetas da saúde que vieram à tona com a pandemia podem surgir como tema. "A aplicação da tecnologia, com a telemedicina, ganhou destaque em 2020. Reflexões sobre saúde mental e problemas como depressão, cyberbullying e suicídios podem ser solicitadas no exame."

Fique atento. Já a sugestão da professora responsável pelo laboratório de redação do Curso e Colégio Objetivo, Maria Aparecida Custódio, é que os alunos fiquem atentos às campanhas realizadas pelo governo federal. "Atualmente há uma grande ação visando a denúncia de abuso sexual contra crianças e adolescentes, algo que pode ser analisado no Enem", aponta Maria Aparecida. "Outros temas em pauta são a valorização do idoso, considerado população de risco e vítima de preconceitos na pandemia, e a violência contra a mulher."

Em contrapartida, ela acredita que temas espinhosos devem ficar de fora. "Acho muito difícil que sejam abordadas as questões ambientais. A maior parte dos problemas, como desmatamento, incêndios criminosos e desmonte de políticas de fiscalização, podem depor contra o próprio governo", afirma.

Sonia Santos, professora do Curso Preparatório Desafio Enem, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal) destaca que mais importante do que cogitar temas é se aprimorar. "Tenho alunos que não param de perguntar sobre o que vai cair. Digo que não devem se prender a isso. Desenvolvam a prática argumentativa, usem o projeto do texto. O Enem é uma prova técnica, tem estrutura dissertativa. A prática é fundamental, um trabalho duro, mas rende bons frutos."

Junte tudo. E, para o restante da prova, dá para prever alguma coisa? Sim, dizem os professores de cursinho, que acompanham ano a ano o que cai e transformam esse levantamento em estatística e, claro, previsão. Um dos consensos é de que o candidato deve estar preparado para a principal marca do Enem: perguntas que envolvam interdisciplinaridade.

"Toda questão do Enem contém um contexto, no qual o candidato é chamado a resolver um problema. Os contextos podem exigir que se apliquem conhecimentos de mais de uma disciplina", diz Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli. Isso significa, por exemplo, que questões de Matemática não exigem só a resolução de cálculos e contas. Segundo o edital do Enem, a prova avalia habilidades como "dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema e construir argumentação".

Para Alvarez, a covid-19 pode aparecer nessa prova. "Aposto muito em questões sobre a curva de contaminação, que começa exponencial, vira um platô e cai de novo de forma exponencial. Vimos matemáticos sendo chamados na imprensa para discutir a curva que aparece todo santo dia. Então há altíssima chance do Enem abordar, com interpretações de gráficos e tabelas por exemplo", lembra.

O QUE DEVE CAIR DAS MATÉRIAS

Ciências da Natureza

Em determinadas áreas do Enem, há temas que são velhos conhecidos de quem acompanha os exames e provavelmente farão parte da próxima edição. É o que se espera em questões de Física. "O que deve vir em peso são temas de mecânica, dinâmica, trabalho, energia, potência e ondulatória", aposta Emerson Junior, professor de Física no Cursinho da Poli.

Há também possibilidade de questões de Física abordarem temas do cotidiano, como as mudanças climáticas. "Energia e calorimetria podem ser citadas em análises sobre o clima e impactos ambientais. Creio em uma ou duas questões do assunto", diz Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli. Já a pandemia deve ocupar uma parte da prova, em Biologia e Química - no texto abaixo na página, leia sobre questões em que a crise da covid-19 pode ser abordada com a interdisciplinaridade de disciplinas.

Matemática

É uma prova conhecida por ser extensa, com 45 questões. Por isso, vale ter uma clara estratégia para não se perder ou entrar em pânico. "Digo aos alunos para localizar as questões fáceis, e há muitas. Assim, ganha confiança", sugere Rodney Luzio, professor de Matemática do Anglo Vestibulares. Vale também utilizar técnicas para otimizar o tempo. "Se o aluno é acostumado a fazer contas com calculadoras, ele vai sofrer. Precisa treinar fazer contas com traquejos aritméticos e algébricos para simplificar expressões e ir mais rápido."

Quanto a temáticas, é praticamente certo que tópicos como unidades de medida, grandezas proporcionais e arranjos estejam na prova. Outra probabilidade: exercícios de tratamento de informação, com estatística, cálculo de médias e mediana. Em geometria, é bom dar atenção aos conceitos de perímetro, Teorema de Pitágoras, funções logarítmicas e quadráticas.

Para Alvarez, do Cursinho da Poli, o candidato pode se preparar para, em meio aos números, cálculos e fórmulas, ter de lidar com acontecimentos recentes e sua relação com a Matemática. "Houve o terremoto na Bahia, o que pode ser o assunto de questões sobre a Escala Richter, que nada mais é que uma escala logarítmica."

Ciências Humanas

Daniel Perry, diretor-geral do Anglo Vestibulares, ressalta uma característica entre os assuntos dessa prova: "Em História, cai muito mais a do Brasil". E destaca o período republicano como foco de estudo.

Em História Geral, o Enem explora fatos contemporâneos. "Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria e acontecimentos do século 20 caem bastante", afirma Arthur Hussne Bernardo, professor de Filosofia e Sociologia do Poliedro. O período do Segundo Reinado até o golpe de 1964 costuma figurar com frequência em História do Brasil. "A República Velha e a República Populista, com os governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, frequentemente rendem questões."

Em Filosofia, a tendência também é uma abordagem contemporânea, com racionalismo e empirismo, além de epistemologia e filosofia política moderna. "Autores como Locke, Hobbes e Rousseau são recorrentes. E, no ano passado, fiquei surpreso com a quantidade de questões envolvendo autores como Foucault, Derrida e Hannah Arendt, que devem aparecer cada vez mais." Mas a tríade Platão, Aristóteles e Sócrates sempre marca presença, e Santo Agostinho e São Tomás de Aquino têm aparecido com mais frequência.

Há autores e temas em Sociologia que podem ser considerados clássicos no Enem e também devem figurar na próxima edição. "Weber e Durkheim são cobrados em muitas questões. A prova também costuma abordar temas como cidadania, política e inserção do indivíduo como agente político", finaliza Bernardo.

Linguagens e Códigos

Nesta prova, a pedra no sapato é a interpretação de texto. "Realmente é algo difícil, com muitas questões e que abordam diversos formatos como charge, tirinhas, esculturas e pinturas", explica a professora Maria Aparecida Custódio, responsável pelo laboratório de redação do Curso e Colégio Objetivo. Por isso, a sugestão é aprimorar as técnicas de compreensão e análise de texto. E, para isso não há fórmula mágica, somente esforço. "Treine interpretação de texto, faça provas anteriores e confira os gabaritos. Exercite-se ao máximo."

Também vale sempre estar atento ao redor, local, nacional e globalmente. "A prova envolve a relação dos alunos com o mundo e exige que o candidato esteja antenado com o que acontece. Ao ler jornais, por exemplo, além de se atualizar o estudante se familiariza com esse gênero textual", comenta Sonia Santos, professora do Curso Preparatório Desafio Enem, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal).

Já a cobrança por conhecimentos literários deve envolver gêneros criados após o século 19 e uma possível comparação com produções atuais. "Sempre falo para os alunos ficarem de olho no Romantismo, que é o começo da literatura verdadeiramente brasileira. Podem pegar um poema do Álvares de Azevedo, de sofrimento, e relacionar com uma série ou um filme de interesse da faixa etária dos candidatos. É um tipo de diálogo provável, que não deixa os movimentos literários só como um conceito."

E vale a pena ficar atento a questões sobre oralidade, território no qual o candidato precisa estar aberto a rever conceitos. "A língua tem uma riqueza de variantes em contextos diversos. O Enem busca quebrar preconceitos linguísticos, não há linguagens superiores."

COVID-19: BIOLOGIA JUNTO COM QUÍMICA E GEOGRAFIA

Com o cenário atual do planeta, há a expectativa de questões que lidem ao mesmo tempo com ciências da natureza e humanas. "Apostamos que haverá uma relação estreita entre Biologia e Geografia. Não só por conta da pandemia, mas pelo contexto do mundo, que envolve redes de informação e de mobilidade de pessoas, objetos e animais", diz Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli.

"Espera-se que haja uma intersecção do viés biológico com o social e geográfico na abordagem dos efeitos da desigualdade social e racial da pandemia." A covid-19 também deve render questões de Biologia com Química. "Podem cair características dos vírus, como sua reprodução, bem como o sistema imunológico e produção de vacinas. Há também fatores como mudanças de hospedeiro, adaptações e evolução", afirma.

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Estadão
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