A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vai reforçar ações para inibir a ocorrência de trotes considerados "humilhantes" na instituição, como o ocorrido no início do mês com calouros do curso de Medicina, no campus da Ilha do Fundão, na zona norte da capital fluminense.
O reitor Carlos Levi considerou "repugnante e inaceitável" a prática, que é proibida em todo o Estado do Rio, e informou que serão aplicadas sanções disciplinares aos alunos responsáveis.
"Esse tipo de postura não pode ser tolerado. Estamos em uma das mais importantes universidades do País, que tem a responsabilidade de se fazer reconhecida pela excelência de seus profissionais", disse. Segundo ele, chega a ser "repugnante" tomar conhecimento de práticas que reforçam atitudes preconceituosas, sexistas e "tentativas ridículas" de demonstração de autoridade sobre calouros. "A UFRJ, há mais de dez anos, se orienta por portaria específica que proíbe o trote e prevê graves sanções disciplinares aos responsáveis por esse tipo de prática", lembrou o reitor.
A agência de comunicação TGF Eventos foi contratada por veteranos do curso para a organização do trote. As denúncias dos abusos tiveram início a partir de fotos do evento postadas na página da empresa na rede social Facebook. Nas imagens, os calouros aparecem em situações constrangedoras, carregando placas com legendas depreciativas e entrando em uma piscina contendo um líquido formado por urina, peixes mortos, terra e melancia. As fotos ressaltam também o logotipo de uma marca de cerveja, que é responsável pelo patrocínio das festas da TGF.
A direção da faculdade de Medicina informou que não deu permissão para a realização das atividades no campus. "Houve uma solicitação do Centro Acadêmico do curso para fomento de evento, que não foi atendida pela Prefeitura Universitária. Portanto, o evento foi realizado à revelia da universidade".
O diretor do curso disse ter identificado nas fotos a presença de estudantes "uniformizados" como integrantes do grupo "Esquadrão de Bombas UFRJ", que já havia sido banido da universidade. A direção do curso está abrindo sindicância para apurar o incidente, identificar os responsáveis e tomar as devidas providências, de acordo com o Código Disciplinar da UFRJ.
Segundo o reitor da UFRJ, a recepção de calouros é estimulada pela faculdade, se for feita com o intuito de motivar a socialização dos estudantes. "Os trotes solidários estão aí, e devem ser tomados como exemplo. Há inúmeras iniciativas que podem ser adotadas pelos alunos, como doação de sangue, recolhimento de livros e de alimentos para doação. Opções inteligentes não nos faltam", disse o reitor.
A empresa TGF, que atua há sete anos no mercado carioca e já realizou mais de 900 eventos no segmento, disse que "não tem qualquer responsabilidade ou participação nas brincadeiras realizadas entre os alunos nos trotes". Segundo a empresa, os eventos que promove são de cunho social, e "buscam a aproximação entre os alunos e a prática de boas ações".
Há dois dias, a empresa anunciou pelo Twitter a publicação de 111 fotos no Facebook, que já foram retiradas do ar. A empresa não quis se manifestar sobre o ocorrido.
Vestindo apenas cueca e com uma máscara sobre a cabeça, cobrindo seu rosto, jovem participa de trote em São Paulo. Na manhã da última quarta-feira (20), ele teve de atravessar a Avenida Paulista agindo de maneira irreverente. Confira, nas imagens a seguir, alguns trotes polêmicos feitos para receber calouros em universidades brasileiras neste ano
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
Ele esperou o semáforo fechar e, no meio da faixa de pedestres, corria de um lado para o outro abordando pessoas
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
Em trajes sumários e escondido sob a máscara, o estudante chamou a atenção de pedestres e motoristas na Avenida Paulista
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
A brincadeira faz parte de uma gincana de calouros que estaria sendo realizada por estudantes da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
Entre as peripécias, o jovem - que seria calouro do curso de Administração da FGV-SP - dava cambalhotas no chão
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
A brincadeira inusitada ocorreu em meio à movimentada Avenida Paulista no final da manhã de quarta-feira (20)
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
As pessoas reagiram com surpresa à brincadeira em São Paulo. O trote - para o qual o aluno teria se voluntariado - é defendido como parte de uma tradicional gincana de calouros
Foto: J. Duran Machfee / Futura Press
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou nota de repúdio ao suposto trote realizado por estudantes da Faculdade de Direito no dia 15 de março, durante a recepção aos calouros no prédio que fica localizado na região central de Belo Horizonte. Na primeira imagem, uma jovem está pintada de preto com um cartaz de papelão escrito "Caloura Chica da Silva". A moça está acorrentada pelas mãos e um rapaz de pele clara sorri enquanto segura a corrente
Jovem aparece acorrentada, com o corpo pintado e carregando uma placa na qual se lê Caloura Chica da Silva
Foto: Facebook / Reprodução
Na segunda foto, um estudante está pintado de tinta vermelha e amarrado a uma pilastra enrolado por uma faixa de plástico utilizada em isolamento de acessos. Ao lado e também sorrindo, três estudantes fazem um gesto nazista, com a mão direita estendida para frente. Um deles chegou a colocar um bigode postiço semelhante ao que usava o ditador alemão Adolf Hitler.
Foto: Facebook / Reprodução
Estudantes do curso de direito da UFMG bateram boca após assembleia realizada no dia 19 de março para discutir a repercussão do trote feito por veteranos
Foto: Ney Rubens / Especial para Terra
O estudante Caio Perrone (esq.) negou que o trote tivesse conotação racista. Segundo ele, as brincadeiras são normais
Foto: Ney Rubens / Especial para Terra
Segundo o presidente do Centro Acadêmico, Felipe Gallo, atitudes de combate a esse tipo de trote serão tomadas
Foto: Ney Rubens / Especial para Terra
A unidade de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) confirmou que os estudantes que ficaram nus durante um trote no final de fevereiro podem ser expulsos da instituição. Na foto, um estudante simula sexo com boneca inflável
Foto: Frente Feminista / Divulgação
Além de tirar a roupa e mostrar os órgãos sexuais, os alunos teriam feito gestos obscenos contra um grupo de feministas que protestava contra o "Miss Bixete", uma espécie de concurso de beleza a que as novatas são submetidas. Na foto, jovem protesta contra o desfile
Foto: Frente Feminista / Divulgação
Em nota, o Coletivo de Mulheres disse que o Miss Bixete é um concurso pensado para reproduzir "o padrão das mulheres como mero objeto ao fetiche masculino". O desfile aconteceu no dia 26 de fevereiro
Foto: Frente Feminista / Divulgação
O grupo decidiu protestar, de forma pacífica, a um ato questionável feito dentro do espaço público da universidade. "Desde o princípio, no entanto, sofremos todos os tipos de agressão verbal e simbólica"
Foto: Frente Feminista / Divulgação
A USP abriu uma investigação para apurar o que aconteceu e os alunos envolvidos podem ser punidos com advertência ou até com expulsão
Foto: Frente Feminista / Divulgação
No entanto, nem todos os trotes são polêmicos nas universidades do Brasil. Em 18 de fevereiro, estudantes aprovados na seleção da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) foram recebidos com os tradicionais banhos de lama e tinta
Foto: Bruno Santos / Terra
No primeiro dia de matrícula, alunos aprovados para estudar na Universidade de São Paulo (USP) foram recebidos com muita tinta e banho de lama
Foto: Bruno Santos / Terra
Estudantes participam de trote no dia da matrícula na USP, em São Paulo
Foto: Bruno Santos / Terra
Além do banho de lama, os alunos também participavam de brincadeiras como futebol de sabão e "guerra" de cotonetes
Foto: Bruno Santos / Terra
O corte de cabelo era feito, segundo os veteranos, somente nos calouros que aceitavam passar a tesoura
Foto: Bruno Santos / Terra
Ninguém era pressionado a fazer o que não queria, de acordo com os estudantes
Foto: Bruno Santos / Terra
'O trote está tranquilo, não tem maldade', garantiu Bruno Bogato, 17 anos, que vai cursar mecânica naval
Foto: Bruno Santos / Terra
Fernando Caputo (esq.), 20 anos, Willian Murasawa (centro), 28 anos, e Lucas Pereira, 19 anos disseram que ninguém 'pegou pesado' no trote
Foto: Bruno Santos / Terra
O banho de lama já é tradicional no trote da Escola Politécnica da USP (Poli-USP), na capital paulista
Foto: Bruno Santos / Terra
Estudantes participam de trote no dia da matrícula na USP, em São Paulo
Foto: Bruno Santos / Terra
Estudantes participam de trote no dia da matrícula na USP, em São Paulo
Foto: Bruno Santos / Terra
Estudantes participam de trote no dia da matrícula na USP, em São Paulo
Foto: Bruno Santos / Terra
Estudantes participam de trote no dia da matrícula na USP, em São Paulo