Análise: Brasil não pode esperar mais três anos para o Pisa mostrar que nada mudou

'Quaisquer que sejam as ações escolhidas para enfrentar o desafio educacional brasileiro, solução começa com a valorização dos professores'

5 dez 2019
13h11
  • separator
  • 0
  • comentários

As pontuações do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), divulgadas nesta terça-feira, 3, novamente são uma preocupação para aqueles que se importam com as jovens mentes que construirão o futuro do Brasil. Realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o teste mede o rendimento dos alunos em 79 países e economias. Na avaliação, o Brasil ocupa o 70º lugar em Matemática, 66º em Ciências e 57º em Leitura.

Os motivos pelos quais o Brasil continua atrás no rendimento escolar são multifacetados, tendo a pobreza e a desigualdade como principais fatores, além das altas taxas de evasão dos alunos e de absenteísmo dos professores. Certamente, tratar desses problemas é importante, assim como garantir que a educação permaneça no topo da lista de prioridades quando se tem orçamentos apertados.

Entretanto, quaisquer que sejam as ações do governo para enfrentar esses desafios urgentes, também deve ser lembrado que a solução para promover uma educação de qualidade precisa começar com os professores. Todas as evidências apontam para algo em que acredito há muito tempo: uma forma de melhorar o desempenho dos alunos, e que nenhum governo pode deixar de apoiar, é dar aos professores o respeito que merecem.

No ano passado, quando a Varkey Foundation divulgou seu Índice Global de Status de Professores de 2018, após uma pesquisa com mais de 40.000 pessoas em 35 países, descobrimos uma relação entre o status do professor na sociedade e o desempenho dos alunos medido pelo Pisa. Em poucos lugares a relação era tão clara quanto no Brasil, com os professores com o menor status na percepção pública em comparação a quaisquer dos 35 países pesquisados.

E como se isso não bastasse, de acordo com os dados de 2015, o Brasil, com suas pontuações médias do Pisa, ocupou o penúltimo lugar na lista dos países pesquisados, ficando acima apenas do Peru. Os resultados do último Pisa apenas confirmam essa tendência.

Podemos ver mais evidências da pouca importância que os brasileiros dão aos professores, quando consideramos que menos de um em cada dez brasileiros acredita que os alunos respeitam seus professores - o menor número de todos entre os 35 países pesquisados. Enquanto isso, os brasileiros afirmaram que a profissão que mais se compara aos professores é a de bibliotecários. Já na China, país com uma elevada classificação no Pisa, as pessoas compararam os professores aos médicos.

Isso comprova, sem sombra de dúvidas, que o respeito aos professores não é apenas um dever moral importante - é essencial para os resultados educacionais de um país. Um status maior do professor atrai mais indivíduos capacitados para a profissão, e o que é crucial, gera permanência, produzindo melhores resultados para os alunos.

A necessidade desesperada do Brasil de mais professores foi denunciada por manifestantes quando o país se preparava para sediar a Copa do Mundo de 2014 com cartazes dizendo: "Professores são mais importantes do que jogadores de futebol". Foi uma mensagem poderosa em um país famoso por seu grande talento esportivo, mas onde há uma escassez de 300.000 professores do ensino fundamental.

Aumentar o recrutamento e a retenção de professores, sobretudo daqueles que ensinam as crianças nos seus primeiros anos escolares vitais, é imprescindível em um país em que, de acordo com os dados de 2015 do Banco Mundial, quase 8% das pessoas com 15 anos ou mais são analfabetas. A escassez de professores no Brasil é típica de muitos países em todo o mundo. A UNESCO informou a necessidade de se recrutar mais 69 milhões de professores mundialmente para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de alcançar um ensino fundamental e médio universal em 2030.

Apesar dos desafios educacionais que o Brasil enfrenta, o país conta com uma riqueza de talentos. Muitos de seus alunos mais bem-sucedidos estão indo estudar no exterior quando surge a oportunidade. A Brazilian Educational and Language Travel Association descobriu que um número recorde de 365.000 brasileiros estavam estudando no exterior em 2018 - um aumento de 20,5% em relação ao ano anterior. Os destinos mais populares são Canadá, EUA, Reino Unido, Irlanda e Austrália.

Embora esses países venham a se beneficiar com os talentos brasileiros que estudam em suas instituições de ensino superior, é importante que no longo prazo o Brasil não sofra uma evasão de talentos, como resultado do não reconhecimento nacional de títulos e qualificações obtidos no exterior. É por isso que vejo com entusiasmo a recente Convenção Global sobre Ensino Superior da UNESCO, estabelecida sob a orientação da Diretora Geral Adjunta de Educação, Stefania Giannini, que criará um sistema mundial mais simples, mais forte e mais harmonizado.

Espero que alguns desses brasileiros que adquiriram experiências de vida inestimáveis ao estudar no exterior retornem ao seu país para se tornar grandes professores e compartilhar seu conhecimento com as gerações futuras. E espero ver mais professores talentosos treinados e respaldados no Brasil.

Precisamos mostrar a todos na sociedade brasileira, desde os alunos, passando pelos pais e chegando até os ministros, o papel essencial que os professores desempenham. Que a diferença que os ótimos professores podem fazer - aqueles como a finalista brasileira do Global Teacher Prize 2019, Débora Garofalo, que inspirou seus alunos a retirar o lixo das ruas e os ensinou a transformá-lo em máquinas engenhosas - é uma transformação de vida.

Os professores têm nas mãos o país e o futuro da próxima geração. O Brasil deve fazer tudo o que puder para encorajar as jovens mentes brilhantes a se tornarem professores, treiná-los de acordo com os mais elevados padrões, recompensá-los por seu trabalho árduo e dedicação e ajudá-los a enfrentar os desafios impostos pela sala de aula. Não podemos esperar mais três anos para que o PISA nos mostre que nada mudou. O Brasil deve apoiar seus professores agora.

*Sunny Varkey é fundador da Varkey Foundation

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade