Edgar Xakriabá apresenta década de produção fotográfica indígena em São Paulo
Mostra intitulada "Hêmba" marca a estreia individual do fotógrafo e antropólogo na capital paulista, explorando a inseparabilidade entre Território, Cosmologia e Resistência na perspectiva Xakriabá
São Paulo sedia a primeira exposição individual do fotógrafo e antropólogo indígena Edgar Kanaykô Xakriabá. A mostra, denominada "Hêmba" — termo da língua Akwẽ que significa "alma e espírito" —, ocupa três espaços no Solar Fábio Prado com um acervo que abrange mais de dez anos de produção. As imagens estabelecem conexões entre o humano e o não humano, o visível e o invisível, a política e a poética. A curadoria da mostra é conduzida por Fabiana Bruno e Eder Chiodetto.
O percurso da exposição "Hêmba" está segmentado em três eixos curatoriais: Território, Cosmologia e Resistência. Contudo, o design do espaço foi planejado para refletir o conceito de organismo interligado, uma alusão ao modo de pensar indígena sobre a ausência de separação entre os mundos. A curadora Fabiana Bruno explicita que "Não existem necessariamente essas divisões para os povos indígenas". A estrutura da mostra permite que as salas sejam percorridas em continuidade, reforçando a interconexão dos temas.
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Edgar Xakriabá, que iniciou sua jornada na fotografia em sua aldeia de origem, desenvolveu um trabalho autoral que mescla arte, ancestralidade e ciência. Sua prática visual propõe uma leitura distinta da linguagem fotográfica ocidental. O fotógrafo afirma que a fotografia indígena é um instrumento de luta que permite mostrar, sob outra perspectiva, a identidade de seu povo. Seu trabalho, fundamentado também em sua formação em Antropologia Visual, sugere uma reavaliação da narrativa histórica da fotografia brasileira.
As imagens presentes na exposição "Hêmba" — majoritariamente extraídas do fotolivro de mesmo nome, lançado em 2023, e outras inéditas — materializam um imaginário cósmico e territorial, exibindo elementos como sementes, árvores, astros, fogo, água e animais. Fabiana Bruno descreve as imagens como emanações que "subvertem a função estrita de um discurso", sendo sobreposições de memórias, alianças com a terra, floresta e astros.
A fotografia de Edgar Xakriabá funde características documentais com o poético, e o etnográfico com o experimental. O artista explica que evita apegar-se a um estilo único, definindo o estilo de seu trabalho como "estilo território". Sua produção de mais de dez anos inclui registros de rituais, cenas do cotidiano, deslocamentos e paisagens da vida Xakriabá.
O artista considera o Território o ponto central de sua obra, enfatizando que "A terra é mãe, e é da luta pela garantia do território que toda a cultura e cosmologia de um povo se sustenta. Sem território, os outros temas não podem coexistir." O fotógrafo menciona a imagem do pajé Vicente Xakriabá em canto e dança como uma de suas obras mais simbólicas, uma vez que o pajé o orientou a desenvolver os conceitos de "Hêmba", imagem e alma.
O projeto curatorial, segundo Eder Chiodetto, busca proporcionar uma imersão sensorial, integrando elementos como imagem, movimento, palavra, símbolos e língua. A circularidade é um elemento marcante do projeto, espelhando a crença de Edgar Xakriabá sobre os ciclos vitais ocorrerem em elipses. A mostra, ao dar voz a um artista indígena com a câmera e a memória, ressignifica o espaço simbólico da fotografia brasileira. O fotógrafo conclui que a exposição representa uma forma de retomar e demarcar um território historicamente negado, mas que pertence aos povos indígenas.
A exposição "Hêmba" é financiada com recursos do ProAC Expresso Direto e reitera a potência da arte indígena como manifestação viva e ancestral. A abertura está marcada para 25 de outubro, permanecendo em cartaz até 15 de dezembro, no Solar Fábio Prado, localizado na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, no bairro Jardim Paulistano, São Paulo.