Drama político "Yellow Letters" vence Berlinale em edição marcada por polêmica
Longa "Yellow Letters", de diretor alemão, retrata casal perseguido pelo Estado turco. Cerimônia refletiu a controvérsia sobre Gaza que marcou o festival. Brasileiros levaram prêmios paralelos.O Urso de Ouro, principal prêmio do 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, foi concedido neste sábado (21/02) ao drama político Yellow Letters ("Cartas Amarelas"), do diretor alemão Ilker Çatak. Seu filme anterior, A Sala dos Professores, foi indicado ao Oscar em 2024.
A cerimônia refletiu a controvérsia sobre Gaza que marcou toda a edição deste ano. Alguns vencedores aproveitaram o palco para se manifestar em defesa da causa palestina, reagindo às declarações do presidente do júri, Wim Wenders, que havia provocado indignação ao tentar afastar o festival do debate sobre o conflito.
Estrelado por Tansu Bicer no papel de um dramaturgo e Ozgu Namal como uma atriz famosa, Yellow Letters acompanha o casal de artistas cujo relacionamento é posto à prova quando eles passam a ser alvo do Estado turco.
A alegoria sobre opressão autoritária se passa na Turquia contemporânea, mas foi filmada na Alemanha, com Berlim e Hamburgo assumindo os papéis de Ancara e Istambul.
Esta é a primeira vez em mais de 20 anos que um diretor alemão vence o prêmio mais importante do festival. A última vez foi em 2004, com Contra a Parede, de Fatih Akin.
Em mostras paralelas e prêmios independentes, três filmes brasileiros saíram vencedores (leia mais abaixo). Na mostra principal, outros dois filmes dirigidos por brasileiros disputavam o Urso de Ouro: Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz, e Josephine, de Beth de Araújo. Os longas, contudo, são produções de fora do Brasil.
Prêmio a Yellow Letters é visto como recado
Yellow Letters foi claramente o filme mais político entre as 22 obras da competição principal. Por isso, a premiação foi tomada como um desfecho para os debates que marcaram o festival desde a coletiva de abertura, quando Wenders afirmou que cineastas "precisam ficar fora da política".
A fala gerou revolta entre artistas e levou participantes a boicotarem cerimônias da Berlinale, conhecida justamente por expor um teor mais político do que outros festivais.
No entanto, ao entregar o prêmio, Wenders elogiou a forma como o filme aborda "de maneira muito clara a linguagem política do totalitarismo, em contraste com a linguagem empática do cinema".
Em seu discurso de agradecimento, Çatak afirmou que os autocratas do mundo são aqueles contra os quais devemos nos opor, não artistas com opiniões políticas diversas. "Não lutemos uns contra os outros, lutemos contra eles", disse.
"A Berlinale acontece em um mundo que parece bruto e fraturado", afirmou a diretora do festival, Tricia Tuttle, na abertura da cerimônia, referindo-se imediatamente aos debates que tomaram conta do evento, incluindo uma carta aberta que criticava o "silêncio" do festival sobre Gaza.
Tuttle reconheceu que a crítica desempenha um papel importante na democracia e destacou a coragem de quem expressa suas opiniões publicamente. A crítica "é boa para nós, mesmo quando não parece boa", acrescentou. Anteriormente, ela havia divulgado uma nota defendendo Wenders e comentando a "tempestade midiática" gerada por sua fala.
Antes de anunciar os vencedores dos Ursos de Ouro e de Prata, Wim Wenders também reagiu à controvérsia, comentando o contraste entre o papel das redes sociais, segundo ele, marcadas por frases de efeito que viralizam sem impacto duradouro, e a narrativa longa do cinema, que preserva o poder de transmitir empatia.
Os vencedores dos Ursos de Prata
O segundo prêmio mais importante do festival, o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri, foi para Salvation ("Salvação"), de Emin Alper, outro retrato oportuno dos mecanismos por trás de assassinatos e massacres motivados politicamente. Em 2025, o brasileiro O Último Azul levou a honraria.
Em seu discurso, Alper expressou solidariedade às pessoas que sofrem em Gaza, aos manifestantes no Irã, ao povo curdo que luta por seus direitos e aos turcos presos por suas crenças políticas. "Vocês não estão sozinhos", disse.
O Prêmio do Júri reconheceu Queen at Sea ("A Rainha do Mar"), de Lance Hammer, um drama sobre demência estrelado por Juliette Binoche. Os atores Tom Courtenay e Anna Calder-Marshall comoveram com seus papéis como marido e mulher no longa e foram premiados com o Urso de Prata de Melhor Atuação Coadjuvante.
O diretor inglês Grant Gee recebeu o Urso de Prata de Melhor Direção por Everybody Digs Bill Evans ("Todo Mundo Curte Bill Evans"), uma cinebiografia estilosa sobre o icônico pianista de jazz.
A impressionante atuação de Sandra Hüller em Rose, como uma mulher que se passa por homem no século 17, lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atuação Protagonista.
Já a diretora canadense Geneviève Dulude-De Celles venceu o Urso de Prata de Melhor Roteiro por Nina Roza. Por fim, o documentário lúdico Yo (Love is a Rebellious Bird) ("Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde)"), sobre a amizade especial entre duas mulheres criativas, ganhou o Urso de Prata de Contribuição Artística Excepcional.
Diretor palestino vence prêmio de estreia
A seção Perspectivas, criada no ano passado por Tricia Tuttle ao assumir a direção do festival, destaca longas-metragens de estreia.
O Prêmio de Melhor Primeiro Longa foi para o diretor palestino Abdallah Alkhatib por Chronicles From a Siege ("Crônicas de um Cerco").
Refugiado na Alemanha, Alkhatib disse em seu discurso que, apesar de ter sido alertado a não criticar o governo alemão, decidiu questionar por que o país se recusou a se juntar a outros que acusam Israelde "cometer genocídio em Gaza". "Acredito que vocês são inteligentes o suficiente para reconhecer isso, mas escolhem não se importar", afirmou. Israel nega taxações de genocídio no conflito iniciado em 7 de outubro de 2023, após ataque do Hamas.
A cineasta libanesa Marie-Rose Osta, vencedora do Urso de Ouro de melhor curta-metragem por Someday a Child ("Um Dia, uma Criança"), também mencionou o sofrimento dos palestinos em seu país e em Gaza.
"Defendemos o direito de todos se expressarem", disse Tricia Tuttle ao encerrar a cerimônia, concluindo um festival intensamente político com um apelo à aceitação e à tolerância.
Cinema brasileiro premiado
O filme brasileiro Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e estrelado pelo ator Lázaro Ramos, conquistou as duas principais premiações da mostra Generation Kplus, competição paralela do Festival Internacional de Cinema de Berlim dedicada a filmes internacionais para o público jovem.
A produção levou o Urso de Cristal (Gläserner Bär) de Melhor Filme, concedido pelo Júri Infantil da Generation Kplus, e também o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme da competição paralela.
Já o longa Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, foi celebrado pelo júri de leitores do jornal alemão Tagesspiegel, que escolhe de forma independente o melhor filme exibido na seção Fórum do festival, dedicada a obras de caráter mais experimental. Ambos foram gravados no Ceará.
Por fim, a Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) premiou Narciso, do diretor Marcelo Martinessi. A associação avalia por meio de um júri independente filmes do programa de competição paralela. O longa foi o escolhido da seção Panorama, uma das mais tradicionais do festival.