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Nada de bruxa má: 'Ser madrasta também é maternar', diz Mariana Camardelli

Criadora do perfil e do site Somos Madrastas, Mariana Camardelli quer desmistificar o papel dessas mulheres no núcleo familiar: 'Nós viemos para somar'

27 nov 2021 17h07
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Resumo

O perfil no Instagram e site Somos Madrastas tenta mudar o estigma da palavra e estimular novas relações entre membros de famílias reconstruídas ou recompostas. Mariana Camardelli é a criadora do projeto e autora dos livros Madrasta Também Educa e Maternidades no Plural: Retratos de Diferentes Formas de Maternar. Formada como Educadora Parental em Disciplina Positiva, estuda Psicoterapia e resolveu compartilhar detalhes da própria experiência com outras mulheres. Além de ser madrasta de dois meninos, de 13 e 17 anos, Mariana também tem uma madrasta há 20 anos, com quem sempre teve uma relação respeitosa, e que, segundo ela, é superpresente na vida de seus dois filhos, exercendo papel de avó.

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A figura da madrasta, por anos, foi sinônimo da mulher rival da mãe biológica, com inveja dos enteados. É a vilã de dezenas de contos de fadas e a própria palavra ganhou um estigma negativo. Há quem associe a algo ruim (má-drasta), mas seu significado original, vindo do latim, tem bem menos estigma e retrata uma configuração familiar: matrasta (mulher do pai) deriva de mater (mãe).

"Ser madrasta também é maternar", diz Mariana Camardelli, de 35 anos, criadora do perfil e site Somos Madrastas, "mas eu me sentia completamente deslocada nesse papel". Ela está casada há sete anos com Rodrigo, que já tinha dois filhos: Augusto, de 17 anos, e Vicente, de 13. "Eu queria me sentir menos sozinha, menos perdida, menos invisível, menos rejeitada, menos à margem da sociedade."

Hoje, com uma comunidade de mais de 30 mil pessoas compartilhando vivências e consumindo o seu conteúdo, essa relação virou trabalho. Mariana já deu palestras sobre o tema e escreveu dois livros, mas admite que o assunto ainda é pouco discutido.

Além de ser madrasta, Mariana ainda é mãe de Flora, de 4 anos, e do recém-nascido Martim. Ela também tem uma madrasta há 20 anos e afirma que a relação entre ambas sempre foi respeitosa. Atualmente, a esposa do pai é uma das avós das crianças. "Sempre a vi participando ativamente da vida deles e hoje convive muito conosco", explica.

Casa agitada

Mariana brinca que sua casa "é uma eterna confusão de horários, de gente entrando e saindo, de criaturas chamando paaai, Maaari, mãããe". Segundo ela, o principal desafio no processo de se encontrar nessa configuração familiar foi lidar com o preconceito. "Já estive em rodas de conversa entre mães em que opinei algo sobre meus enteados e ouvi a frase: 'Você não é mãe, não tem como saber'. Já fui diretamente excluída por pessoas da família, na tentativa de invalidar meu papel."

Segundo Mariana, é importante que não se caia na armadilha de acreditar em uma suposta rivalidade feminina. A colaboração tem de surgir dos dois lados. "Eu jamais perderia tempo brigando, mesmo que internamente, com a história de vida da pessoa que eu estava namorando. Sete anos depois, é muito interessante o que surge numa relação entre uma mãe e uma madrasta quando as duas decidem não competir, e sim, colaborar. Todo mundo ganha, especialmente as crianças."

Com toda essa experiência de diferentes formas de maternar, Mariana acredita que o principal aprendizado foi o acolhimento. Ela entende que o papel de madrasta ainda envolve tabu, mas espera que o seu trabalho ajude essas pessoas a serem mais bem entendidas em seus núcleos familiares. "Eu merecia ser ouvida e pertencer. Hoje, busco acolher todos os sentimentos dessas mulheres que se tornaram madrastas e se sentem perdidas dentro de suas próprias casas."

Mesmo com apoio e colaboração, o caminho não é tão simples quanto parece. Mari acredita que assumir fraquezas, medos, ciúmes, ajuda para que outras mulheres percebam que não estão sozinhas. "Meu projeto fala sobre a vida real de uma mulher que materna como madrasta e como mãe", explica. E ela ainda abre espaço para que as suas seguidoras compartilhem as próprias experiências nos comentários. "Quero que elas saibam que não estão sozinhas, que não são bruxas más e que não estão erradas. Os sentimentos delas merecem escuta e o papel de madrasta merece espaço, respeito e visibilidade, porque nós viemos para somar."

Estadão
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