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Já é hora de flexibilizar o uso de máscaras contra covid-19?

Cidades e estados brasileiros começam a desobrigar o uso de máscaras em locais abertos e fechados; especialistas divergem sobre o tema

8 mar 2022 - 12h54
(atualizado às 12h58)
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Pessoas usam máscara em metrô de Brasília
08/07/2020 REUTERS/Adriano Machado
Pessoas usam máscara em metrô de Brasília 08/07/2020 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

O Estado de São Paulo pode anunciar ainda nesta semana o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras ao ar livre. A Vigilância Sanitária municipal de São Paulo inclusive já recomendou a liberação, baseada na melhora de alguns dos indicadores da pandemia de covid-19, como queda nas internações e diminuição das taxas de ocupação de leitos de UTI.

Outras cidades e estados brasileiros também começaram a se mover quanto à flexibilização dessa medida, amplamente adotada desde o início da pandemia para a prevenção e contenção da covid-19. Distrito Federal, Maranhão e Mato Grosso do Sul, por exemplo, não obrigam o protetor facial em ambientes abertos. No Rio Grande do Sul e Santa Catarina, crianças de até certa faixa etária estão liberadas do uso até mesmo nas escolas. Já na cidade do Rio de Janeiro, o uso de máscaras não é mais obrigatório nem em espaços abertos nem em locais fechados.  

A flexibilização do uso de máscaras na atual situação da pandemia no Brasil, no entanto, não é consenso entre os especialistas ouvidos pelo Terra. Embora a média móvel de casos e de óbitos estejam em queda, de acordo com levantamento do consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias estaduais de Saúde, o País registrou em fevereiro o maior número de mortes desde agosto de 2021 (com 22 mil óbitos) e com o maior contágio por covid em toda a pandemia (com 3,3 milhões de casos). Além disso, há receios sobre os efeitos das aglomerações que ocorreram durante o Carnaval, que só será possível analisar nas próximas semanas. 

Raquel Stucchi, infectologista, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, avalia que a retirada das máscaras neste momento é uma decisão arriscada. "Considerando a baixa cobertura vacinal em crianças, a não disponibilização da quarta dose para os idosos, a baixa cobertura da terceira dose na população geral, acho que não faz sentido. Para mim, essa é uma discussão político-eleitoral que não prioriza a segurança da população."

Segundo a infectologista, os esforços deveriam estar voltados para políticas públicas para aumentar a adesão da vacinação e o fornecimento de medicações antivirais.

Stucchi também alerta que o fim do uso das máscaras pode acarretar em um aumento na transmissão do coronavírus. "Sem a máscara, aumenta a transmissão do vírus, aumenta o risco de explosão novamente de casos, aumenta as internações, principalmente da população que não está completamente vacinada ou que ainda não foi vacinada. Possibilita ainda o aparecimento de novas variantes", explica. 

A infectologista cita ainda como preocupações a chegada do Outono e Inverno, estações em que naturalmente há um aumento do risco de infecções respiratórias, bem como a dificuldade para convencer a população de retomar o uso de máscaras, se houver necessidade depois.

Pedro Hallal, epidemiologista e reitor da Universidade Federal de Pelotas, também vê como apressada a decisão de flexibilizar o uso de máscaras, especialmente por causa da variante Ômicron, que é muito transmissível. "Acho que tínhamos que esperar essa onda da Ômicron chegar lá embaixo. Vai chegar, já está numa tendência de queda e só então retirar as máscaras. Acho que é uma tentativa de apressar um processo mais por desejo do que por evidência científica", diz. 

Para Vitor Mori, físico, pesquisador da Universidade de Vermont (EUA) e membro do Observatório Covid-19 BR, no entanto, a discussão sobre liberar o uso de máscaras ao ar livre já poderia ter acontecido, atrelada a uma boa comunicação que incentivasse as pessoas a ficar em ambientes abertos. 

"No curso da pandemia aprendemos que a transmissão acontece pelo ar, pela inalação de gotículas contaminadas, transmitidas por algum infectado e que isso acontece principalmente em ambientes internos. Estima-se que menos de 1% da transmissão aconteça em ambientes externos, ao ar livre. Não me parece ideal que tenhamos as mesmas regras para esses dois ambientes. Acho, pelo contrário, que podíamos ser muito mais flexíveis ao ar livre e muito mais rigorosos em espaços fechados", explica.

"Ao ar livre acho que poderíamos flexibilizar. Já em espaços fechados acho mais complicado, especialmente em locais como transportes públicos, casas de repouso, ambientes hospitalares. Nesses locais, acho que é muito cedo e que deveríamos ser um pouco mais restritivos e usar máscaras melhores", continua Mori.

Medidas sanitárias adotadas devido à pandemia de covid-19
Medidas sanitárias adotadas devido à pandemia de covid-19
Foto: Marta Reche / iStock

Ele destaca ainda que, com a desobrigação do uso de máscaras, é importante que os governos continuem com o monitoramento de casos e tenham respostas rápidas, caso haja uma piora da pandemia. 

"É preciso monitorar os indicadores da pandemia, o surgimento de novas variantes e responder rápido a qualquer cenário de piora. Em cenário de melhora, é possível fazer algumas flexibilizações, mas se perceber uma reversão de tendência, caminhando para um cenário de preocupação, é necessário identificar esse cenário e tomar medidas para reduzir a transmissão, eventualmente até retomando o uso de máscaras em alguns contextos", fala.

Como agir diante das flexibilizações?

Nesta fase de transição, com a flexibilização de medidas, a orientação dos especialistas é que as pessoas com sintomas gripais permaneçam em casa, façam o teste de covid-19 e cumpram o período de isolamento de acordo com as indicações médicas e do Ministério da Saúde. 

Além disso, a população deve seguir com as medidas não farmacológicas de precaução - higiene das mãos e uso de máscaras em locais fechados e com aglomeração. "Nos locais onde temos um maior risco de transmissão do vírus, como shows, jogos de futebol e desfiles das escolas de samba, deve-se manter o uso de máscaras. Em ambientes fechados, o uso de máscara é importante e obrigatório para pessoas com risco de doença mais grave", diz Stucchi.

Mori também reforça a necessidade de fazer uma escolha correta de máscara para evitar o risco de contaminação. "As pessoas não têm controle se o ambiente que elas vão será bem ventilado, se terá janela aberta, se terá poucas pessoas, se as pessoas estarão de máscara ou não. Por isso, o meu recado é: você usando uma máscara PFF2, bem vedada no seu rosto, não tirando ela, tomando cuidado ao tirar, vai lhe fornecer um alto nível de proteção, independentemente do que as outras pessoas estejam fazendo a sua volta."

Fonte: Redação Terra
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