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China usa humilhação pública e repressão para "covid zero"

País tenta conter disseminação do vírus antes de Jogos de Inverno

5 jan 2022 06h47
| atualizado às 07h20
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Cresce indignação nas redes por humilhação em público de suspeitos de violar regras anticovid e por falta de comida e remédios em meio a lockdown. País tenta conter disseminação do vírus antes de Jogos de Inverno. Nas duas últimas semanas, autoridades chinesas voltaram a impor severas medidas de controle da pandemia para frear uma nova onda de surtos de coronavírus no país. Porém algumas das medidas extremas causaram reações negativas da população, que questiona a validade das restrições.

Funcionários do setor de saúde em laboratório de testes em Xi'an, no norte do país
Funcionários do setor de saúde em laboratório de testes em Xi'an, no norte do país
Foto: DW / Deutsche Welle

Nos últimos 13 dias, residentes da metrópole de Xi'an, com 13 milhões de habitantes, foram proibidos de deixar suas casas, restringindo os estoques de muitos de alimentos e outros itens essenciais, como remédios.

Mais de 1.600 casos de covid-19 foram confirmados na cidade desde 9 de dezembro de 2021. Na plataforma social chinesa Weibo, frases como "estou com dificuldades de comprar comida" e "fornecimento instável de itens de primeira necessidade" se tornaram assuntos-tendência.

Indignação por cortes no abastecimento

Um residente de Xi'an relatou que, desde 2 de dezembro, todos os residentes foram proibidos de deixar suas casas. Enquanto muitos foram às compras no dia anterior à imposição do confinamento, alguns menos favorecidos, incluindo idosos que moram sozinhos, lutam para obter comida ou os medicamentos de que precisam.

"Acho que as autoridades só vão pensar em como evitar que o surto local se espalhe, e enquanto a gente não estiver morrendo de fome devido aos cortes no abastecimento de comida, não vão prestar muita atenção ao bem-estar dos residentes em lockdown", revelou à DW um cidadão, pedindo para não ser identificado por temor de represálias.

No fim de dezembro, autoridades locais admitiram que o abastecimento de comida e outros artigos foi afetado por os funcionários de várias empresas de logística não poderem retornar ao trabalho, devido ao lockdown.

Em meio à indignação pública, as autoridades insistiram que estão trabalhando para que haja estoques suficientes para todos os residentes de Xi'an. Pelo menos dois membros do Partido Comunista na cidade foram demitidos.

Nos últimos dois dias, o número de novos casos confirmados de covid-19 vem acusando tendência decrescente na China. Em 3 de janeiro foram registrados apenas 95 em Xi'an, a primeira vez em dez dias que o número diário de novas infecções confirmadas ficou abaixo de 100 por dois dias seguidos.

Raiva crescente da população

A raiva da população pela maneira como as autoridades estão lidando com a situação vem crescendo, não só por causa das restrições severas, mas também da aparente falta de compaixão.

Um vídeo recente mostra um jovem sendo espancado por funcionários do governo por deixado seu bairro para comprar comida.

A polícia local afirma que agiu contra os funcionários, mas internautas consideram que o incidente reflete a falta de empatia das autoridades com os residentes ao implementar as regras para contenção da pandemia.

"Muitos ainda não têm comida suficiente em casa, e quem está em quarentena não recebeu suprimentos por cinco a seis dias", escreveu um internauta na rede Weibo.

Outro pediu ajuda na plataforma: seu pai, que sofreu um ataque cardíaco, foi inicialmente rejeitado por vários hospitais em Xi'an, apesar de a família ter providenciado todos os documentos necessários para que ele fosse internado. Após horas de atrasos e uma cirurgia de emergência, a internauta escreveu que perdera seu pai.

O post original parece ter sido removido da Weibo. Vários usuários descreveram a situação como "desumana", enquanto muitos outros confirmaram estar difícil conseguir tratamentos médicos que não tenham relação com a covid-19.

Campanha "covid zero" da China

Especialistas em saúde pública dizem que o cumprimento estrito de medidas de controle da pandemia tem muita relação com a campanha agressiva da China para alcançar a chamada "covid zero" no país.

"Um dos objetivos políticos para manter a 'covid zero' é garantir que os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, em Pequim, não sejam sabotadas por algum surto doméstico", diz Chunhuei Chi, professor de saúde pública da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos.

"Além disso, o governo chinês precisa manter sua legitimidade para governar o país, tanto em casa quanto no exterior. Domesticamente, eles precisam manter surtos internos sob controle para exibir sua governança. Internacionalmente, precisam provar que a China é antes um salvador do que o iniciador da pandemia global. A forma de atingir esses objetivos é mostrar como Pequim consegue cumprir a meta da covid zero", explica.

Outros acreditam que a política reflete a falta de responsabilização do governo na China. "Para autoridades locais na China, um dos objetivos mais importantes é atingir a covid zero, já que ela significa um avanço na carreira de muitos deles, se atingirem essa meta", afirma Wang Yaqiu, pesquisadora-chefe sobre a China na organização Human Rights Watch (HRW).

"Se há abuso dos direitos humanos ou o acesso à saúde e à alimentação é restrito, não importa para as autoridades locais, porque elas não serão responsabilizadas."

Volta da humilhação em público

Além da aplicação severa do lockdown em Xi'an, incidentes envolvendo humilhação pública suscitaram críticas das medidas de controle da pandemia impostas pelas autoridades.

No fim de 2021, um vídeo circulando nas redes sociais mostrou policiais armados na província de Guangxi exibindo quatro indivíduos que alegadamente violaram medidas de prevenção contra a covid-19.

Os quatro usavam macacões de proteção e carregavam placas mostrando seus nomes e fotos. Cada um estava acompanhado de dois policiais, enquanto outro grupo de oficiais armados com equipamentos de tropas de choque ou carregando armas os rodeava.

Segundo o jornal estatal Guangxi News, os quatro foram acusados de transportar migrantes à China ilegalmente, apesar de as fronteiras estarem praticamente fechadas devido à pandemia. O veículo descreveu a ação como medida disciplinar que serviu de "alerta da vida real" ao público e de forma de "impedir crimes relacionados à fronteira".

Contudo alguns indivíduos e veículos da imprensa estatal questionaram a legalidade das práticas de humilhação em público. O jornal The Beijing News, de propriedade do Partido Comunista Chinês, publicou artigo de opinião dizendo que, mesmo que as medidas tenham sido adotadas para contenção da pandemia, as autoridades deveriam evitar que ações como "exibir os suspeitos" reapareçam na China, já que violam o espírito do Estado de direito.

Outros internautas questionaram que efeito poderia ter uma "exibição dos suspeitos": "Dado que a China já é um país com um sistema legal sólido, se alguém comete um crime, deveria ser sentenciado de acordo com a lei", escreveu um internauta na Weibo. "Exibir suspeitos é uma má tática usada na sociedade feudal. Por isso, é um pouco difícil entender porque funcionários da segurança pública em Guangxi acham esse tipo de medida apropriada."

"Maioria dos chineses não quer contestar"

Alguns observadores apontam que violações de direitos humanos e práticas de humilhação em público se tornaram um fenômeno comum em toda a China desde o início da pandemia em 2020, quando autoridades tentaram impor medidas severas para conter a disseminação do coronavírus Sars-Cov-2.

"Este não é um fenômeno novo na China. Autoridades locais amarraram em árvores residentes que aparentemente violaram regras, para humilhá-los em público, enquanto outros foram publicamente criticados em estádios esportivos", descreve Teng Biao, advogado de defesa de direitos humanos na China.

Enquanto a pressão da população pode forçar autoridades a se desculparem por seus erros ou impor certas punições a perpetradores, aqueles que querem contestar ainda são minoria na China.

"A maior parte dos chineses não quer se manifestar na internet, porque sabem que podem ser punidos", diz Wang, da Human Rights Watch. "E, como não existe um mecanismo de responsabilização, as autoridades locais só vão responder quando estiverem sob muita pressão."

Teng acredita que as autoridades respondem com frequência apenas ajustando levemente suas práticas desumanas. "Pode ser que eles punam alguns oficiais envolvidos com as práticas ou que escolham algum bode expiatório, mas é difícil forçá-los a melhorar o sistema como um todo pela pressão pública."

A pesquisadora Wang também destacou uma nova tendência que vem sendo verificada em discussões relacionadas ao confinamento em Xi'an: quando alguém critica o governo na internet, outros internautas nacionalistas os acusam de apoiarem governos ocidentais.

"Nos últimos dois anos, a censura e a propaganda do governo chinês se tornaram mais eficazes", explica. "É evidente que alguns cidadãos começaram a ajudar o governo a censurar os outros. Eles internalizaram a propaganda."

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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