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Ao menos 32 municípios da Grande SP são contra lockdown

Prefeito de Rio Grande da Serra é o único favorável e diz que vai defender adoção da medida em reunião do Consórcio ABC; seis das 38 cidades não se manifestaram

15 mai 2020
11h13
atualizado às 11h37
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A adoção de um bloqueio total, que vete qualquer deslocamento que não seja essencial, não está na lista de opções da grande maioria das prefeituras da Grande São Paulo para combater a pandemia do novo coronavírus. Após o prefeito Bruno Covas (PSDB) declarar que não descarta adotar o chamado "lockdown", o Estado procurou os demais municípios da região metropolitana, dos quais apenas um se mostrou favorável, enquanto outros 32 são contrários e cinco não responderam.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB)
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB)
Foto: Divulgação/Prefeitura de SP / Estadão Conteúdo

Covas já disse publicamente que o bloqueio total pode ser adotado caso o índice de isolamento social continue abaixo do nível ideal. Mesmo com a implantação do novo rodízio nesta semana, a taxa subiu pouco e foi de 48% na terça e na quarta-feira. Há três dias, ele declarou que um possível lockdown teria mais efeito se fosse adotado por outras prefeituras da região metropolitana, por causa da circulação de pessoas entre as cidades.

Na prefeitura da capital, o entendimento é de que um eventual lockdown da região metropolitana teria de ser articulado pelo governo estadual - e não apenas pela gestão Covas - para aumentar as chances de "unidade" na adoção da medida. O endurecimento do isolamento apenas na cidade de São Paulo é considerado ineficaz, e se prevê dificuldade na tarefa de conseguir apoio de alguns municípios vizinhos.

Em nota na quinta-feira, a gestão Covas voltou a dizer que "se for necessário, poderão ser tomadas medidas mais incisivas". "Um lockdown, em consequência da pandemia do coronavírus, não está descartado, mas a medida só será tomada se os técnicos da saúde recomendarem e, preferencialmente, se for adotado coordenadamente com os 39 municípios da Grande São Paulo ou com o Governo do Estado de São Paulo."

Para a maioria das prefeituras ouvidas pela reportagem, a possibilidade de bloqueio total deve ser considerada se a ocupação dos leitos das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) chegar mais perto do limite. O índice é de 85,5% na rede estadual da região, mas a chega a 89,9% nos hospitais municipais da capital.

Até a tarde de quinta-feira, 14, a cidade, epicentro da covid-19 no País, tinha 33.841 casos confirmados, dos quais 2.602 chegaram ao óbito, além de 125.215 casos suspeitos. Dos 10 municípios com mais casos no Estado, apenas Santos e Campinas não ficam na região metropolitana.

"Para decretar o lockdown, o primeiro problema é a falta de leitos hospitalares e de UTI - até porque aí você deixa de ter onde atender a população - o que não é o meu caso", diz o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB).

A cidade inaugurou há 15 dias um hospital de campanha, que inicialmente seria dedicado ao tratamento de câncer, e entregou 250 novos leitos hospitalares na quinta-feira. "Neste momento, não teria nenhum sentido o lockdown e tampouco o rodízio (ampliado de veículos), tanto é que nós não implementamos."

Já o prefeito de Rio Grande da Serra, Gabriel Maranhão (Cidadania), é favorável à adoção do lockdown conjunto com São Paulo e diz que defenderá a medida na próxima reunião do Consórcio Intermunicipal Grande ABC, que preside, na segunda-feira. "Eu acho que os números nos levam a ter atitudes responsáveis", ele disse. "Pactuo com o lockdown nesse momento. A gente vê que inúmeros países tiveram esse atitude mais ríspida", continua.

"Como prefeito de Rio Grande da Serra e presidente do consórcio, acredito que devemos, de fato, partir para essa atitude". E segue: " Se o Bruno Covas depender do ABC, acredito que o ABC vai (aderir), na minha opinião pessoal - porque isso ainda precisa ser votado em assembleia. Eu irei defender."

A opinião de Maranhão não é acompanhada por nenhum dos outros seis prefeitos do consórcio do ABC. "Não caberia neste momento um lockdown, não faria sentido por todo o planejamento (municipal) que tem gerado bons números", avalia Paulo Serra (PSDB), prefeito de Santo André.

"No entanto, a gente sabe que não é uma decisão individual. A gente tem noção que Santo André não é uma ilha, que está dentro de uma região metropolitana", pondera. "Se tiver uma determinação regional, nós vamos seguir."

Até a quarta-feira, nenhum dos ouvidos pela reportagem havia sido procurado oficialmente pela gestão Covas sobre a adoção da medida. Para a maioria, ainda não há clima para adotar medidas mais rígidas. "Não creio que, considerando pela questão do rodízio, ele (lockdown) teria êxito aqui", diz Morando.

Outra exceção é o município de Francisco Morato, que tem um decreto de lockdown em vigor, mas exclusivamente para o período entre as 22 e as 6 horas. "Mas ainda não cogitamos a adesão em período integral", informou a prefeitura em nota.

Prefeitos concordam que resultado de lockdown depende de ação conjunta

Parte dos prefeitos comentou que está seguindo as recomendadas do Estado e que, portanto, adotaria o bloqueio total se fosse decidido pela equipe do governador João Doria (PSDB). "Além de prefeito, sou médico de formação. Desde o começo, decidi acompanhar as decisões do Governo do Estado, que está trabalhando com os profissionais mais gabaritados que temos, com decisões baseadas na ciência. Se o governo achar que tem que haver - e vai ter que apresentar as razões científicas - vamos aderir", explica Fernando Fernandes (PSDB), prefeito de Taboão da Serra.

A maioria dos prefeitos não descarta totalmente a adoção do bloqueio total se a pandemia se agravar nas próximas semanas. "Neste momento, não estamos pensando em lockdown, até pelos números que a cidade apresenta", alega o prefeito de Mauá, Atila Jacomussi (PSB). Segundo ele, a situação está "bem controlada" por enquanto e que se preocupa em monitorar principais os municípios que a cidade tem divisa urbana (Ribeirão Pires e Santo André), por ter maior circulação entre as populações.

O prefeito de Carapicuíba, Marcos Neves (PSDB), também reforça a preocupação com outros municípios vizinhos. Ele diz que, se a situação se agravar, com ocupação quase total das UTIs, um bloqueio total teria efeito apenas com a adesão de todos os municípios do entorno, que integram o consórcio da região Oeste. "Seria errado tomar sozinho essa decisão."

Em Diadema, o prefeito Lauro Michels (PV) é pessoalmente contra a adoção da medida. Ele cobra estudos e justificativas técnicas para a adoção da medida, que vê como desproporcional e prejudicial à economia do município. "Eu quero saber com base em quê se pensa em fazer lockdown", diz. "Temos que respeitar a doença, mas se for para fazer um lockdown para voltar e ficar do jeito que está agora, não sei como vai terminar o ano. A arrecadação cai a cada dia, as contas chegam."

Na microrregião de Franco da Rocha, há disposição para seguir a gestão Covas no caso de endurecimento. "São cerca de 40 mil embarques diários em nossas estações da CPTM, que foram reduzidas a cerca de 15 mil desde o início da quarentena", aponta a prefeitura, em nota. "Toda a ação tomada na capital tem reflexos diretos aqui."

Entre os prefeitos reunidos no Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemat), que representa 12 cidades, o bloqueio total ainda não foi discutido. A expectativa é de que a crise sanitária possa ser superada sem um endurecimento das regras.

"É uma medida muito dura e muito difícil, inclusive, de controlar e de fiscalizar", diz o prefeito de Mogi das Cruzes, Marcus Melo (PSDB). Ele diz que a cidade conta com cerca de 50% de ocupação dos leitos dedicados à covid-19, entre UTIs camas de enfermaria. "Não sou favorável ao lockdown. Só se for a última, última medida a ser tomada por conta do crescimento de óbitos em Mogi ou nas cidades vizinhas."

O prefeito de Guararema, Adriano Leite (PL), diz que as discussões do consórcio regional, que ele preside, têm se concentrado nos investimentos no sistema de saúde, para que as prefeituras aumentem a capacidade de atendimento dos infectados. O grupo também acompanha as discussões do Conselho Econômico do governo estadual, que elabora um plano de retomada para ser implementado quando o ritmo de infecções do coronavírus começar a diminuir.

"O lockdown nunca fez parte das nossas discussões", diz Leite. "Temos um posicionamento alinhado, sabemos que a conduta de um ente interfere no outro e, ao menos nesse momento, isso não chegou a ser cogitado. Estamos em contato permanente com as equipes do governo do Estado."

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Estadão
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