Condenada à morte sobrevive a duas injeções letais nos EUA
O governo do Tennessee suspendeu as execuções de 2026 após Christa Pike, de 50 anos, sobreviver a duas doses letais de pentobarbital, um fato considerado inédito por especialistas. Condenada à morte por homicídio cometido aos 18 anos, ela permaneceu viva, respirando, e foi hospitalizada após o procedimento. O governador Bill Lee determinou uma revisão independente sobre a falha no protocolo, reacendendo debates jurídicos sobre a aplicação da pena de morte a jovens com transtornos mentais.
Christa Pike, de 50 anos, é levada para hospital depois de ter sobrevivido a duas injeções de pentobarbital, no Tennessee. Governador suspende execuções.O governo do Tennessee, nos Estados Unidos, suspendeu as execuções até o fim do ano depois de uma condenada à morte, Christa Pike, ter sobrevivido, nesta quarta-feira (30/09), a duas doses letais de pentobarbital.
O governador Bill Lee determinou "uma revisão abrangente e independente para determinar exatamente o que ocorreu" e anunciou que a execução restante prevista para este ano não será realizada. De acordo com informações oficiais, havia uma execução prevista no Tennessee no próximo dia 3 de dezembro.
Pike passou quase três décadas no corredor da morte, após ter sido condenada em 1996 por homicídio. Ela seria a primeira mulher a ser executada nesse estado em 200 anos.
Viva após duas doses
Pike sobreviveu, nesta quarta-feira, a duas doses letais de pentobarbital durante a sua execução. Ela está sendo tratada num hospital, mas os advogados dela disseram que não haviam sido informados sobre seu estado de saúde.
Sua execução estava inicialmente marcada para as 10h de quarta-feira pelo assassinato cometido quando ela tinha 18 anos.Um tribunal de apelações suspendeu a injeção letal apenas uma hora antes de sua realização, mas horas depois a Suprema Corte derrubou essa suspensão.
Pike, hoje com 50 anos, estava viva e roncando após a tentativa de execução por injeção letal e foi levada de ambulância para fora da prisão, segundo seus advogados.
O Departamento Correcional do Tennessee declarou que seguiu todas as etapas do protocolo legal de execução do estado. Esse protocolo prevê a administração de um segundo conjunto de seringas com drogas letais caso o detento não esteja morto após a primeira aplicação. O protocolo não especifica o que deve ocorrer se a pessoa continuar viva após a segunda tentativa.
Robin M. Maher, diretora executiva da organização sem fins lucrativos Centro de Informações sobre a Pena de Morte, afirmou que o que Pike vivenciou é um caso "único e sem precedentes". Segundo ela, outras sete pessoas sobreviveram a problemas médicos decorrentes da incapacidade das equipes de execução de acessar uma veia para administrar os medicamentos letais, mas ninguém havia permanecido vivo após receber as drogas utilizadas nesse tipo de execução.
Caso reacende debate sobre pena de morte para jovens
O caso reacendeu o debate sobre a pena capital para jovens. Pike tinha 18 anos quando ela e seu namorado espancaram e mataram Colleen Slemmer, de 19 anos, num centro de treinamento profissional para jovens em Knoxville, em 1995.
Os advogados de Pike argumentaram que ela deveria receber clemência devido à pouca idade e aos problemas de saúde mental que apresentava na época do crime. "Ela tinha 18 anos quando cometeu o crime e sofria de uma grave doença mental", escreveram em um pedido de clemência enviado ao governador Lee, que afirmou que não iria intervir.
O defensor público federal assistente Stephen Ferrell disse que o caso de Pike é excepcional porque outros condenados de 18 anos no Tennessee tiveram suas penas capitais anuladas.
Pike e seu namorado foram condenados pelo assassinato, cometido com facadas e espancamento, de Slemmer. O crime ganhou repercussão nacional depois que o corpo de Slemmer foi encontrado com um pentagrama, frequentemente associado ao satanismo, gravado em seu peito.
O assassinato abalou a cidade de Knoxville. Segundo os promotores, Pike, temendo que Slemmer estivesse tentando roubar seu namorado, atraiu a jovem para uma área de mata em 12 de janeiro de 1995. Pike feriu Slemmer com um estilete e a espancou com um pedaço de concreto. Shipp, namorado de Pike, admitiu ter sido ele quem gravou o pentagrama no corpo da vítima.
Shipp tinha 17 anos quando o crime ocorreu e recebeu pena de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Pike foi a única condenada à morte.
Após o assassinato, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. Em seu pedido de clemência, ela afirmou que pretendia apenas brigar com Slemmer, mas acabou matando-a num ataque de fúria quando não conseguiu mais "pisar no freio".
"Eu era uma jovem de 18 anos com doença mental. Levei muitos anos até compreender a gravidade do que havia feito", declarou Pike. Ela não negou ter cometido o assassinato, mas seus defensores argumentaram que o estado deveria levar em consideração sua idade à época do crime, sua doença mental e suas alegações de abuso sexual severo.
O relato das testemunhas da execução
Testemunhas puderam ouvir a respiração de Pike durante quase uma hora após ter recebido as injeções, antes de serem obrigadas a abandonar o local. Jornalistas que acompanhavam a execução de uma sala separada relataram que as autoridades abriram as cortinas da câmara de execução às 19h27, mostrando Pike presa a uma maca. Ela afirmou que estava em paz.
No entanto, Pike permaneceu consciente e, em determinado momento, levantou a cabeça e perguntou aos funcionários da prisão se era normal que seu braço estivesse daquela forma. Não ficou claro ao que ela se referia.
Às 20h26, testemunhas relataram que a segunda dose de pentobarbital havia sido administrada. Pike continuou sendo ouvida roncando atrás da cortina fechada até que o microfone foi desligado às 20h53. Nesse momento, foi anunciado que os jornalistas deveriam ser retirados da área.
Mãe da vítima espera cumprimento da sentença
A mãe de Slemmer, May Martinez, havia viajado para Nashville para testemunhar a execução da assassina de sua filha. Ela disse à agência de notícias Associated Press, no sábado, que esperava havia décadas pela execução da sentença de Pike.
"Sempre que penso nisso, penso em Colleen sentindo aquela dor e tentando se levantar e correr", disse Martinez em entrevista por telefone. Ela não pôde ser contatada imediatamente para comentar após a suspensão da execução.
Execuções de mulheres são raras nos EUA
Desde que a Suprema Corte restabeleceu a pena de morte em 1976, 18 mulheres foram executadas nos Estados Unidos, representando cerca de 1% de todas as execuções, segundo o Centro de Informações sobre a Pena de Morte.
A última execução de uma mulher nos Estados Unidos ocorreu em 2023, no Missouri, quando Amber McLaughlin foi executada. Ela também foi a primeira mulher transgênero executada no país.
Pike teria sido a 30ª pessoa executada nos Estados Unidos em 2026, após uma execução realizada na Flórida na terça-feira. No total, 47 execuções ocorreram nos Estados Unidos em 2025, ante cerca de 20 por ano ao longo da última década, o maior número desde as 52 registradas em 2009.
A pena de morte foi abolida em 23 dos 50 estados dos EUA. Outros três estados, Califórnia, Oregon e Pensilvânia, mantêm uma moratória sobre execuções por decisão de seus governadores.
as/cn (AP, AFP, Lusa)
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