Como falsas promessas das redes sociais colocam nossa democracia em risco
Estudo demonstra que as redes sociais reproduzem formas históricas de desigualdade e exclusão. E esse quadro pode piorar com as novas políticas de moderação de conteúdo da Meta, que permitiram maior circulação de conteúdo político em suas plataformas
Ao contrário da promessa de democratizar o debate político, as redes sociais reproduzem desigualdades históricas no Brasil. Um estudo sobre as eleições para a Câmara Federal revela que candidatos homens, ricos e tradicionais dominam o engajamento digital, impulsionados pelo poder financeiro, enquanto minorias como mulheres negras seguem excluídas. Além disso, as campanhas ignoram cidades pobres, provando que as redes não corrigem a sub-representação sem a aplicação real de cotas partidárias.
As redes sociais surgiram com a promessa de ampliar o espaço para o debate democrático, derrubando as barreiras que preveniam o amplo confronto de ideias e projetos políticos.
Qualquer candidato poderia criar uma conta para se apresentar ao público, que cada vez mais procurava se informar politicamente nestas plataformas. A dependência de convites de jornalistas para ter espaço nas mídias seria coisa do passado, assim como as amarras em tempo partidário de rádio e televisão.
Bastaria uma postagem considerada "relevante" pelos algoritmos para que um perfil político ganhasse visibilidade online. Por isso, as redes sociais alimentaram a expectativa de que as mídias digitais nivelariam o campo para que atores políticos competissem pelo voto.
Entretanto, as redes sociais não criaram um espaço tão democrático assim para disputas eleitorais como se imaginava. Pelo contrário, minha pesquisa mostra que candidatos homens que já detinham maior capital e eram da classe política foram aqueles cujas campanhas digitais ganharam maior engajamento. Candidatos com poucos recursos eleitorais estiveram ausentes das redes ou receberam engajamento significativamente menor.
Em estudo publicado no jornal Political Communication, eu e professor Josephine Lukito demonstramos que as redes sociais reproduzem, ao invés de subverter, formas históricas de desigualdade e exclusão no Brasil. E esse quadro pode piorar ainda mais com as novas políticas de moderação de conteúdo da Meta, que permitiram maior circulação de conteúdo político em suas plataformas.
Com base no cruzamento de dados do TSE, IBGE e Facebook sobre campanhas à Câmara Federal, o estudo demonstra que candidatos de origem minoritária e com menos recursos eleitorais tiveram menos sucesso online.
O estudo confirma estes resultados através de uma série de testes estatísticos, dando nova base empírica para o que a filósofa e ativista Sueli Carneiro afirmou em 2009: "a relação entre mulher negra e poder é um tema praticamente inexistente. Falar dele é, então, como falar do ausente".
A distribuição de recursos partidários para campanhas está relacionada com o desempenho que elas têm nas redes. Aqueles que investem mais na promoção de conteúdo online tendem a performar melhor em termos de métricas de engajamento.
Claro, há exceções a esta tendência. Campanhas majoritárias com poucos recursos partidários, como a de Jair Bolsonaro em 2018, de fato ganharam um nível de visibilidade inaudito na política brasileira. Mas essas campanhas não ajudam a entender o que se passa na corrida para uma cadeira na Câmara Federal. Neste contexto, o que as plataformas digitais recompensam mesmo é o capital investido.
O eleitorado versus o discurso online sobre o eleitorado
As campanhas digitais não apenas falharam em estabelecer condições de paridade entre os candidatos. Elas também deixaram de lado um segmento enorme do eleitorado: as pessoas morando em municípios mais pobres.
Diversos parlamentares dizem que conhecem os rincões do país como ninguém porque "sujam os sapatos" fazendo campanha em diversos municípios. Isso nem sempre é verdade. Contrário a esse discurso, a pesquisa demonstra que candidatos tendem a mencionar cidades mais ricas e populosas em suas postagens, principalmente a cidade onde nasceram.
Por muito tempo, alimentamos a expectativa de que as novas mídias reduziriam barreiras, abreviariam distâncias e facilitariam a comunicação política. Mas ainda temos um caminho longo a percorrer nesse sentido, e as plataformas digitais não solucionaram esses problemas.
Porém, há possíveis saídas para esse quadro. As conclusões do estudo atestam a importância de normas que já deveriam ser praxe na política brasileira. Partidos políticos devem levar a sério as cotas mínimas de repasse do fundo eleitoral para candidatos de origem minoritária, particularmente mulheres negras. Caso contrário, é improvável que as redes sociais, por si só, mudem a sub-representação dessas parlamentares (das 513 cadeiras na Câmara, 94 são ocupadas por mulheres, e apenas 9 por mulheres negras). A anistia concedida pelo não cumprimento dessas cotas, portanto, coloca em xeque a capacidade do Congresso brasileiro de refletir a população que deveria representar.
André K. Rodarte não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.