Como o arsênio, o chumbo e o mercúrio impactam o neurodesenvolvimento infantil nas grandes cidades
Eles estão presentes na água que bebemos, nos alimentos que consumimos e no ar que respiramos…E na placenta de muitas grávidas que vivem em grandes centros urbanos
Quem vive em grandes cidades costuma associar poluição apenas à fumaça dos carros ou ao ar pesado dos dias mais quentes. Mas há uma exposição silenciosa, cotidiana e quase invisível que passa despercebida: a presença de metais tóxicos no ambiente.
Eles estão na água que bebemos, nos alimentos que consumimos e no ar que respiramos. A presença de metais no ambiente é resultado tanto de processos naturais quanto, sobretudo, das atividades humanas.
Arsênio, chumbo e mercúrio são alguns dos metais que mais preocupam a saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) classificam essas substâncias como altamente tóxicas e amplamente disseminadas no ambiente.
A exposição humana a esses metais pode afetar diversos órgãos e sistemas, com destaque para o sistema nervoso.
Quando a poluição começa antes do nascimento
Esse cenário se torna ainda mais delicado quando falamos de gestação e primeira infância. Mulheres grávidas que vivem em áreas urbanas enfrentam um risco duplo: além da exposição ambiental constante, a placenta não funciona como uma barreira totalmente eficaz contra a passagem de poluentes, incluindo metais tóxicos para o feto.
Além disso, a imaturidade da barreira hematoencefálica que protege o cérebro ainda em formação do feto aumenta a vulnerabilidade aos efeitos neurotóxicos dessas substâncias.
Arsênio, chumbo e mercúrio têm sido associados a efeitos adversos no neurodesenvolvimento, particularmente durante a gestação, quando ocorrem processos críticos como proliferação neuronal, migração, diferenciação sináptica e mielinização.
Evidências indicam que a exposição precoce a esses metais pode resultar em déficits cognitivos, motores, comportamentais e sensoriais.
O que o sangue do cordão umbilical revela sobre a exposição aos metais
Diante desse cenário, nós pesquisadores do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva e da Maternidade Escola, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, estamos desenvolvendo o Projeto Infância e Poluentes Ambientais, mais conhecido como Coorte PIPA.
O PIPA é um dos poucos estudos brasileiros que analisam simultaneamente a exposição a múltiplos metais utilizando amostras de sangue de cordão umbilical em populações urbanas.
O projeto começou com 844 crianças nascidas na Maternidade Escola da UFRJ, entre julho de 2021 e julho de 2022, cujas mães residiam no município do Rio de Janeiro.
Cerca de 700 crianças tiveram amostras de sangue de cordão umbilical coletadas ao nascimento para medir os níveis de arsênio, chumbo e mercúrio.
Após perdas iniciais relacionadas a óbitos neonatais e mudança de município, um total de 393 crianças retornaram entre 12 e 18 meses de idade para avaliação do neurodesenvolvimento utilizando testes específicos.
Modelos de regressão logística ajustados foram empregados para avaliar as associações entre as concentrações de metais e os desfechos do neurodesenvolvimento, controlando potenciais variáveis de confusão.
O que a ciência já sabe — e o que este estudo acrescenta
Estudos epidemiológicos, incluindo grandes coortes prospectivas, têm demonstrado associações entre a exposição pré-natal a metais e prejuízos no neurodesenvolvimento infantil.
Pesquisas realizadas em coortes da Ásia, Europa e América do Norte sugerem que o arsênio pode interferir em processos neurobiológicos fundamentais, como a migração neuronal, a formação de sinapses e a mielinização, especialmente quando a exposição ocorre durante a gestação.
Em nosso estudo brasileiro, do total de 393 crianças incluídas, todas possuíam dados disponíveis de arsênio, chumbo e mercúrio no sangue do cordão umbilical. As concentrações medianas observadas foram baixas, mas compatíveis com exposições ambientais em áreas urbanas.
A avaliação do neurodesenvolvimento aos 12-18 meses indicou que as crianças com maiores concentrações pré-natais (no sangue do cordão umbilical) de arsênio (acima de ≥1.03 µg/L) apresentaram oito vezes mais chance de falhar no teste de avaliação do desenvolvimento motor grosso.
O desenvolvimento motor grosso é o responsável por, entre outras atividades, o início da deambulação infantil. Os resultados encontrados significam que as crianças que foram expostas a maiores concentrações de arsênio durante a gestação tinham maior chance de demorar a começar a andar, por exemplo.
O maior impacto observado no domínio motor grosso pode estar relacionado à elevada sensibilidade das vias motoras em fases iniciais do desenvolvimento.
Importante esclarecer que alterações precoces nesses circuitos podem se manifestar antes de déficits cognitivos mais complexos, que tendem a se tornar mais evidentes em idades posteriores.
Assim, os resultados sugerem que atrasos motores podem representar um sinal precoce de exposição neurotóxica durante a vida intrauterina.
Por outro lado, não foram observadas associações consistentes entre chumbo ou mercúrio e os desfechos do desenvolvimento.
Por que esses achados importam?
Este estudo demonstrou que a exposição pré-natal ao arsênio, mesmo em níveis relativamente baixos, está associada a alterações no neurodesenvolvimento de crianças até 18 meses de idade, especialmente no domínio motor grosso, em uma população urbana brasileira.
Os achados sugerem que o arsênio pode comprometer etapas precoces do desenvolvimento neurológico, reforçando sua relevância como contaminante ambiental de interesse em saúde pública.
Os resultados destacam a importância do acompanhamento pré-natal das gestantes para identificação de situações de maior risco de exposição a estes metais. Além disso, é importante o monitoramento das fontes ambientais dos mesmos. E ainda realizar avaliação precoce do neurodesenvolvimento nas consultas pediátricas pós-natais. E não menos importante são os estudos longitudinais para compreender melhor os efeitos da exposição pré-natal a metais ao longo da infância.
Além disso, reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à redução da exposição ao arsênio em ambientes urbanos.
A pesquisa contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Saúde, da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do National Institutes of Health (NIH).
Carmen Ildes Rodrigues Fróes Asmus recebe financiamento do CNPq, FAPERJ e Ministério da Saúde.
Arnaldo Prata-Barbosa recebe financiamento do CNPq, bolsa de produtividade em pesquisa, nível 1B e da FAPERJ, Cientista do Nosso Estado (CNE-RJ). Além disso, faz parte do Comitê Executivo da BRnet-PIC, Brazilan Research Network in Pediatric Intensive Care, uma organização científica sem fins lucrativos.
Marlos Melo Martins, Mônica Seefelder de Assis Araujo, Nataly Damasceno Figueiredo e Volney Magalhães Câmara não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.