Como funcionará e quais os desafios da WAICO, a Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial
Nova organização internacional formada inicialmente por 29 países promoverá a cooperação científica e tecnológica em Inteligência Artificial, particularmente no desenvolvimento, no acesso e na aplicação de tecnologias e serviços para fins civis
Criada em Xangai por 29 nações, incluindo China e Brasil, a WAICO (Organização Mundial para Cooperação em IA) busca promover o desenvolvimento ético, seguro e em código aberto da tecnologia no Sul Global. A iniciativa reflete o avanço da governança chinesa em oposição a blocos ocidentais, acirrando a disputa geopolítica com os Estados Unidos, que pressionam parceiros a optarem entre a nova organização e sua própria aliança tecnológica, a Pax Silica.
Em 16 de julho, em Xangai, 29 Estados assinaram o acordo constitutivo de uma nova organização internacional: a WAICO, sigla em inglês para Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial.
Um dos principais objetivos da WAICO é promover a cooperação científica e tecnológica internacional em inteligência artificial (IA), particularmente no desenvolvimento, no acesso e na aplicação de tecnologias e serviços de IA, de forma segura, ética e para fins civis.
Como destacado em nota à imprensa dos Ministérios da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, das Relações Exteriores e da Ciência, Tecnologia e Inovação brasileiros, a WAICO também promoverá ecossistemas de código aberto, sem custos, conforme previsto no artigo 3 de seu acordo constitutivo, e se articulará com processos e organizações internacionais relevantes, em particular no âmbito da Organização das Nações Unidas.
A sede da mais recente iniciativa intergovernamental para a governança da IA será em Xangai e entre seus membros fundadores estão países em desenvolvimento, como a China, o Brasil, a Rússia, o Cazaquistão, a Indonésia, a África do Sul, a Malásia, o Quênia, o Paquistão e a Venezuela, entre outros.
Mas é essencial nomear, ainda, quem decidiu não aderir à WAICO, como é o caso dos Estados Unidos (EUA), do Japão, da Índia, do Reino Unido e de membros da União Europeia, como a França, a Alemanha e a Espanha. Isso não quer dizer que a governança global da IA não seja uma prioridade para esses países, mas sim que há uma disputa em torno de modelos distintos.
A geopolítica da IA
Em negociação intergovernamental há mais de um ano, a WAICO foi divulgada formalmente pelo presidente chinês Xi Jinping apenas um dia antes da edição de 2026 da World Artificial Intelligence Conference (WAIC), também realizada em Xangai.
Ali, a empresa chinesa Moonshot AI anunciou o Kimi K3, um modelo de linguagem de grande porte (LLM) com 2,8 trilhões de parâmetros de pesos abertos - um contraste significativo em relação aos modelos de empresas norte-americanas, como Google, OpenAI e Anthropic, que possuem pesos fechados, ou seja, não podem ser baixados nem modificados por usuários.
Durante a WAIC, Xi demonstrou a centralidade da governança da IA para a China, afirmando que "é preciso trabalhar em conjunto no desenvolvimento da IA, para que seu avanço não se torne um esforço solitário de um único país, e sim uma sinfonia de cooperação internacional". Ele anunciou, ainda, que o país criará, nos próximos cinco anos, cinco mil oportunidades de especialização em IA para profissionais dos Estados-membros da WAICO e das organizações internacionais que apoiam a iniciativa, como a União Africana, a Liga Árabe e a Organização de Cooperação de Xangai, entre outras.
Em seu discurso, o presidente chinês também fez um apelo para que se discutam os possíveis riscos associados à IA e se garanta que ela "permaneça sempre sob controle humano" e, portanto, esteja distante dos modelos que se treinam de forma autônoma, criando sistemas além do controle humano (artificial general intelligence). Xi também afirmou que os países devem se opor à "extrapolação do conceito de segurança nacional no campo da IA, ou à colocação da segurança de um país acima da de outros".
Embora não tenha nomeado um país, essa foi uma crítica às diversas medidas adotadas pelos EUA e seus aliados para restringir, nos últimos anos, o acesso da China a tecnologias de ponta e à IA. Ao encabeçar a criação da WAICO, o Estado chinês evidencia que as tecnologias digitais e a IA se tornaram um pilar importante de sua política industrial, como já apontava sua Global AI Governance Initiative de 2023, e que seu objetivo é influenciar cada vez mais a definição dos princípios, regras e padrões que pautarão a governança global da IA nos próximos anos.
É verdade que as iniciativas regionais e internacionais de governança da IA já são inúmeras. Mas elas avançam sobretudo sob a batuta de países desenvolvidos, como é o caso do Hiroshima AI Process do G7 e dos Princípios para a IA da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Nesse panorama, a criação de uma organização internacional dedicada à cooperação em IA, integrada por países em desenvolvimento - ou do Sul Global - pode mudar radicalmente a dinâmica internacional, levando a compromissos institucionais mais sólidos e permanentes.
A reação de Washington
Diante da elevada adesão à WAICO, o Departamento de Estado dos EUA prepara um verdadeiro ultimato para diversos países: devem escolher um lado na "corrida da IA" com a China e, se optarem por aquele caminho, serão excluídos da coalizão liderada pelos EUA, a Pax Silica.
Criada em dezembro de 2025, a Pax Silica é uma iniciativa norte-americana para construir um "ecossistema tecnológico seguro, resiliente e impulsionado pela inovação". Para tanto, os EUA e mais 23 Estados, bem como a União Europeia, concordaram em "reduzir dependências coercitivas, estabelecer parcerias para assegurar cadeias de suprimentos globais de tecnologia, abordar oportunidades e vulnerabilidades na cadeia de suprimentos de IA e explorar investimentos conjuntos, além de proteger tecnologias sensíveis e construir uma infraestrutura digital confiável".
A Pax Silica, portanto, está fortemente voltada ao acesso a suprimentos e minerais críticos, essenciais à produção de chips e semicondutores, ou seja, parte da infraestrutura das tecnologias digitais e da IA. A WAICO, por sua vez, está mais voltada à elaboração de princípios, normas e padrões que influenciarão a legislação doméstica de seus membros.Mas um elemento não pode ser pensado sem o outro. Logo, para os EUA, países que aderiram à Pax não podem se juntar à WAICO, apoiada pela China, sem ameaçar seus fundamentos e o próprio alinhamento com os EUA.
Segundo essa lógica norte-americana, o Cazaquistão, fonte potencial de minerais críticos que aderiu tanto à Pax Silica quanto à WAICO, precisa fazer uma escolha estratégica, pois não poderá usar simultaneamente infraestrutura de origem norte-americana, como chips da Nvidia, e de origem chinesa, como chips da Huawei. Empresas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos já seguem essa orientação, comprometendo-se a não usar hardware da Huawei, por exemplo.
Revela-se, assim, a geopolítica da IA e a disputa em torno de sua governança.
Agora, é necessário observar os passos iniciais da WAICO para avaliar sua contribuição para a redução das desigualdades na produção e no acesso a tecnologias cada vez mais essenciais, temas que o Brasil, fundador e membro da organização, defende ativamente por meio de sua política externa.
Rúbia Marcussi Pontes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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