Como a participação dos houthis pode redefinir a guerra no Irã
Ataques com mísseis contra Israel sinalizam possível expansão da ofensiva iemenita para novas rotas estratégicas do comércio global, elevando risco de bloqueio também ao Estreito de Bab el-Mandeb.Os rebeldes houthi do Iêmen, aliados do Irã, romperam sua aparente contenção diante do conflito que atinge Teerã e dispararam dois ataques a mísseis contra Israel neste sábado (29/03) - sua primeira ofensiva desde o início do conflito.
A entrada na disputa levantou preocupações de que a milícia xiita volte a mirar seu poder de fogo também no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, como fizeram no passado. "Nossos dedos estão no gatilho", disse o porta-voz da milícia, Yahya Saree, em um comunicado na sexta-feira.
A expectativa é que os houthi possam iniciar uma nova campanha para interromper o tráfego mercante no Estreito de Bab el-Mandeb, no extremo sul da Península Arábica, por onde a Arábia Saudita tem enviado milhões de barris de petróleo por dia desde o fechamento do Estreito de Ormuz.
Uma tentativa de dificultar o fluxo no Estreito de Bab el-Mandeb, somada ao bloqueio já em curso em Ormuz, afetaria dois corredores marítimos estratégicos. O Mar Vermelho recebe cerca de 12% do comércio mundial rumo ao Canal de Suez, incluindo petróleo, gás natural, grãos e eletrônicos.
A missão naval Aspides, liderada pela União Europeia, vê risco de que a milícia houthi ataque navios internacionais no Mar Vermelho e no Golfo de Áden. A entidade pediu cautela às empresas de navegação, especialmente às ligadas a Israel ou aos Estados Unidos.
"As capacidades militares dos houthis são atualmente consideradas intactas e substanciais", disse o grupo.
Houthis sinalizam futura participação "plena"
Os houthis são parte central do chamado "Eixo da Resistência" do Irã, que inclui grupos militantes no Líbano, Iraque e nos territórios palestinos. Eles controlam a capital iemenita, Sanaa, e grande parte do norte do país, e desde 2014 travam uma guerra civil contra o governo reconhecido internacionalmente, apoiado por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita.
Diferentemente do Hezbollah e de grupos militantes no Iraque, os rebeldes haviam se mantido inativos desde que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro. Tensões internas no país, pressão sobre suas próprias lideranças e receio de retaliações podem explicar a hesitação, pontuam analistas.
Contudo, o grupo parece agora ter mudado de rota, o que pode gerar um novo cenário de pressões globais.
"Tudo o que eles precisam fazer é atingir alguns navios que estejam passando. E isso levaria à paralisação de todo o transporte comercial pelo Mar Vermelho", disse Nabeel Khoury, ex‑vice-chefe de missão da embaixada dos EUA no Iêmen, à Al Jazeera neste domingo.
Uma ofensiva no Mar Vermelho ampliaria ainda mais os impactos na indústria marítima e na economia global. A milícia já provou ser capaz de gerar disrupção na região ao atacar mais de 100 navios mercantes com mísseis e drones, afundar duas embarcações e matar quatro marinheiros durante o conflito entre Israel e Gaza, entre novembro de 2023 e janeiro de 2025.
Para ele, os mísseis contra Israel funcionam como um aviso de uma possível participação plena em uma fase posterior, o que poderia incluir, por exemplo, ataques a instalações petrolíferas no Golfo Pérsico, como fizeram anteriormente durante a guerra civil no Iêmen.
Impacto sobre toda a segurança marítima
O estreito, com 32 quilômetros de largura, é um dos mais movimentados do comércio global de petróleo. Mas ataques houthi a embarcações não apenas elevariam ainda mais os preços do petróleo, alertou Ahmed Nagi, analista sênior do Iêmen no International Crisis Group, à AP. "O impacto não se limitaria ao mercado de energia, [...] mas desestabilizaria toda a segurança marítima", afirmou.
Um quarto do comércio mundial de contêineres também passa por ali rumo ao Canal de Suez. Interromper o trânsito por Bab el-Mandeb força empresas de navegação a desviar seus navios pelo Cabo da Boa Esperança, como ocorreu em 2024 e 2025, aumentando significativamente os custos de frete globais.
"Seria devastador para muitos países", disse Nagi. "Se houver mais pressão sobre os iranianos, ou qualquer escalada, os houthis entrarão com força."
O Mar Vermelho é também um corredor crítico para o gás natural da Europa, já pressionada pela diminuição da oferta desde o início da guerra na Ucrânia. Navios-tanque que transportam gás natural liquefeito — resfriado a temperaturas extremamente baixas para ser transportado por navio — passam rotineiramente pelo Mar Vermelho.
Durante a última tentativa de interrupção, os EUA e Israel responderam com uma intensa campanha aérea contra áreas controladas pelos houthis no Iêmen, que matou a maior parte do gabinete aliado aos houthis em Sanaa. Um cessar-fogo foi acordado em outubro de 2025, interrompendo os ataques no Mar Vermelho.
gq (AP, DPA, OTS)