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Combate à violência contra idosos: reação de moradores a residenciais coletivos revela necessidade de letramento sobre a velhice

Autor argumenta que os termos "etarismo" e "idadismo" mais retiram a força política do neologismo em inglês "ageism" do que ajudam a combater o preconceito e a violência contra a pessoa idosa

12 jun 2026 - 11h59
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Na paleta das cores das efemérides de conscientizações sociais sobre saúde e direitos humanos, este é o Junho Violeta, estabelecido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (SNDPI), e dedicado ao combate à violência e à discriminação contra pessoas idosas. Considero que é a oportunidade ideal para uma reflexão sobre um ponto central no debate do letramento da sociedade superenvelhecida, objeto de minhas pesquisas por duas décadas.

Até que ponto as traduções "etarismo" ou "idadismo", hoje bastante popularizadas na imprensa, na academia e no ativismo no campo do envelhecimento, mais retiram a força política do neologismo em inglês ageism do que ajudam a combater o preconceito e a violência contra a pessoa idosa?

A palavra sempre importa e, por isso, sempre usei a tradução "idosismo". É preciso refletir sobre as outras traduções que podem mesmo fragilizar a pessoa idosa como um sujeito de direitos, como garante a Constituição Federal, e é isso que venho propondo a partir de evidências e argumentos teóricos.

Neste 15 de junho, a sociedade mobiliza-se em torno dessa causa no Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2011, com eventos e manifestações pelo país. São inúmeras as violências tipificadas como crime na Lei 10.741/2003, o Estatuto da Pessoa Idosa. Lembre-se aqui, criado em 2003 com a denominação de "Estatuto do Idoso" e, em 2022, alterado sob a justificativa de letramento. O objetivo foi dar maior relevância e notoriedade à questão de gênero, uma vez que a maioria da população idosa é mulher. A tradução "idosismo" também se baseia nessa premissa.

'Ageismo' se refere à forma de intolerância parelha ao racismo

O neologismo "ageism" foi criado em 1969 pelo psicogeriatra norte-americano Robert Butler (1927-2010) durante uma entrevista ao repórter Carl Bernstein, do jornal The Washington Post (jornalista que fará dupla com Bob Woodward e revelará o escândalo Watergate que derrubará o então presidente Nixon).

Em seu livro, Butler se refere a "uma outra forma de intolerância" parelha ao racismo, baseado em preconceito "étnico", sempre nas palavras dele, e à discriminação de gênero, "sexismo".

Butler quis emprestar uma força política à especificação de um grupo determinado: as pessoas idosas. Diz ele: "O ageismo é uma forma de sistemática estereotipia e discriminação contra pessoas simplesmente porque elas são velhas. Como um grupo, as pessoas idosas são caracterizadas como rígidas em seus pensamentos e maneiras, antiquadas em moral e habilidades. Elas são chatas, mesquinhas, excêntricas, exigentes, avarentas, mandonas, feias, sujas e inúteis."

Butler, em seguida, distingue as pessoas idosas como as principais vítimas de abuso físico, emocional, social, sexual e financeiro. Citando Freud, ele diz que os velhos e velhas são foco do preconceito relacionado às incapacidades ao trabalho e ao sexo, as duas mais importantes atividades do ser humano, segundo o Pai da Psicanálise.

As traduções "idadismo" e "etarismo", de certa maneira, pulverizam ou generalizam o preconceito a todas as idades. O oposto da intenção de Butler. Ele até, já naquela época, acentuava o preconceito aos octogernários.

Além da fidelidade histórica e conceitual, argumentos elaborados a partir de pesquisas e apresentados no meu novo livro "A (difícil) decisão de envelhecer", recém-lançado pela Editora da Unicamp, existem constatações empíricas para a defesa do termo "idosismo". Algumas delas apresentei em 2019 em simpósio da Universidade de São Paulo (USP) sobre envelhecimento ativo.

Caso da City Lapa revelou violência contra pessoas idosas

Uma constatação mais recente e pertinente para abordar aqui é o caso da reação de moradores do bairro da City Lapa, uma das regiões nobres de São Paulo, contra as Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs), o nome técnico dos residenciais coletivos (ou, antes do letramento, denominados asilos).

O caso foi noticiado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 25 de maio, e ganhou repercussão nacional devido justamente à violência das declarações de vizinhos às ILPIs e dirigentes da associação de moradores às pessoas idosas, a pessoas doentes e até mortas. Os moradores estão preocupados com a descaracterização do bairro e a "desvalorização" dos seus imóveis.

O episódio mostra a necessidade de se estabelecer as fronteiras da terminologia como forma de ação contra a violência. Contra quem ela é de fato praticada? Coincidentemente, esse episódio da City Lapa guarda uma relação com a origem do termo cunhado por Butler. A reportagem do Washington Post, para a qual Butler foi entrevistado, era sobre a reação de moradores às novas residências para pessoas idosas carentes nos arredores de suas casas.

O título "Medos relacionados à idade e raça vistos na oposição à construção de moradias" (em tradução livre) descrevia a apreensão de moradores de Chevy Chase, Maryland, um subúrbio rico de Washington, DC, que estavam angustiados com a decisão do governo local de transformar um complexo de apartamentos em habitação popular. O projeto tinha como objetivo oferecer residências para idosos pobres — incluindo afro-americanos — e foi contestado por moradores que temiam que Chevy Chase nunca mais fosse a mesma.

Butler declarou a Bernstein: "As pessoas falam sobre envelhecer encantadoramente, que é o que elas querem, claro. Então, naturalmente, elas não querem ver pessoas que podem estar paralisadas, que não conseguem se alimentar bem… que podem ficar sentadas na calçada e entulhar a vizinhança com bengalas."

Quando perguntado se a reação dos moradores era em função do racismo, Butler teve a sua epifania: "Neste caso, acho que é mais em função do ageismo". Duas décadas depois, o termo já era popular na imprensa norte-americana e entrou para os principais dicionários de inglês.

Sempre haverá o questionamento: mas outros grupos etários também podem sofrer preconceito por idade? Bill Bytheway, prêmio de Realização Excepcional pela British Society of Gerontology, em 2012, e pesquisador sênior na Open University, na Inglaterra, autor dos livros "Ageism" (1997) e "Unmasking Age" (2011) reforçou os mesmos critérios de Butler.

Segundo ele, o "ageismo" pode ter uma definição stricto senso e outra lato sensu. Mas sempre prevalecerá aquela com ênfase na pessoa idosa, por razoável evidência empírica. O número de casos de violência contra esse grupo específico nunca deixam dúvidas.

Por fim, em defesa da adoção de "idosismo" restam ainda argumentos linguísticos que emprestam ao termo a carga semântica proposta por Butler. A tradução literal sempre é inimiga da cultura linguística. É preciso contrastar a suposta neutralidade abrangente dos outros termos com a especificidade de prefixos e sufixos.

Impedir o esvaziamento semântico. Traduções mais abrangentes têm o efeito colateral de tornar o preconceito contra a velhice menos visível, dificultando o combate a essa forma de discriminação e violência. Como nos ensina Alberto Manguel, a tradução é além de arte, um ato político.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Este artigo foi redigido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processo nº 2023/10.344-0).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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