[Coluna] Entrar na universidade mudou a minha vida
Sou oriundo da periferia e toda minha mobilidade social e conquistas profissionais têm relação direta com o ingresso na universidade. Sou prova viva de que estudar ainda traz retorno e muda vidas. Se você é pobre, estude"Se você é pobre, faz faculdade"
Recentemente vi um vídeo viral nas redes sociais de uma influenciadora oriunda de uma periferia paulista e que ingressou na Universidade de São Paulo (USP). Ela se tornou viral justamente por mostrar o contraste entre o bairro em que mora e sua vida em uma das melhores universidades do mundo.
No vídeo, a influenciadora conta todas as conquistas que teve em sua vida e todas elas, não coincidentemente, têm relação com a educação. Começou com um professor do ensino médio que lhe apresentou a universidade, se estendeu pela primeira vez que andou de avião para apresentar um trabalho acadêmico em outro estado E, também graças à universidade, ela teve a oportunidade de fazer intercâmbio e morar por um tempo em outro país.
Ver o vídeo dela me fez lembrar da minha própria história.
Ah, mas fazer faculdade não traz mais retorno
Aposto que você, leitor, já ouviu alguém dizer que faculdade não traz mais retorno e que é, inclusive, perda de tempo. Costumam argumentar com um caso como: "Conheço alguém que fez Direito, não conseguiu se inserir no mercado de trabalho e hoje trabalha em um supermercado".
O fato é que a literatura ainda corrobora não apenas uma correlação entre anos de estudo e salário, mas também uma causalidade.
Na média, quanto mais anos de estudo, maior a remuneração. Não podemos olhar um caso isolado, sem contexto, para refutar dados reais.
Não subestimo aqui os desafios de inserção no mercado de trabalho, mas há inúmeras variáveis envolvidas também, como, por exemplo, onde a pessoa fez a graduação, seu desempenho no curso, a qualidade da universidade e afins.
Ingressar na universidade mudou a minha vida
Pensar sobre este tema me fez lembrar de mim. Sou natural de um bairro da periferia e o primeiro da família que ingressou na universidade. Cresci vendo meus pais e irmãs trabalhando muito, mas tendo pouca ou nenhuma oportunidade de lazer ou conforto.
Essa percepção me fez questionar aquela famosa afirmação "basta ser esforçado e tudo dará certo". Simplesmente não é verdade, pois se fosse os trabalhadores de shopping e supermercado deveriam estar ricos, e essa não é a realidade.
Minha motivação para ingressar na universidade foi tentar seguir um caminho diferente de todo mundo que eu conhecia, na esperança de que me trouxesse um outro tipo de futuro.
Com muita luta entrei no curso de economia da USP e hoje, com 31 anos, estou há dias a defender minha dissertação em políticas públicas na UFRJ.
Foi dentro da universidade que fundei um programa social de auxílio para jovens da rede pública que hoje é o maior do Brasil e foi graças a esse trabalho e à universidade que todas as outras conquistas, talvez até triviais para alguns, aconteceram comigo: andei de avião pela primeira vez, conheci outros estados do Brasil, conheci outros países e tive a oportunidade de visitar restaurantes que meus pais nunca sonharam em conhecer.
Se eu não tivesse entrado na universidade nada disso teria acontecido. Eu não teria me tornado colunista na DW, não teria conhecido os pesquisadores que conheci, não teria criado o programa social que mudou a minha vida e não teria tido acesso a todas as oportunidades que tive e tenho hoje.
Sou oriundo de um bairro da periferia e toda minha mobilidade social e conquistas profissionais têm relação direta com ter ingressado na universidade. Sou a prova viva de que estudar ainda traz retorno e muda vidas. Se você é pobre, estude.
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Vozes da Educação é escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
Esta é a última edição da coluna Vozes da Educação que Vinícius de Andrade publica desde 2021. A DW Brasil deixará de publicar colunas a partir de abril de 2026.