[Coluna] Subindo o tom, além da dor
A ONU reconheceu o tráfico transatlântico de escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. A decisão se junta à luta histórica da população negra que não aceita que o racismo seja a régua de suas vidas.Assim como aconteceu tantas vezes nos cinco anos em que escrevi para a DW Brasil, comecei a minha última coluna um tanto incerta dos pontos que queria abordar nessa despedida.
Sem sombra de dúvidas, o agradecimento à equipe de editores da DW Brasil era um ponto incontornável, tendo em vista a seriedade e profissionalismo que marcaram nossa relação de trabalho nessa metade de década. Confesso que essa despedida também tem um gosto amargo, tendo em vista que a descontinuidade da Negros Trópicos, bem como a das demais colunas da sucursal, decorre de um corte orçamentário imposto à Deutsche Welle - a emissora pública internacional alemã. E convém lembrar: decisões dessa natureza nunca são neutras.
Negros Trópicos foi concebida (e espero, também, realizada) com o propósito de inscrever as questões raciais, de modo amplo, e o racismo, de maneira mais específica, no centro das análises sobre o Brasil. Para aqueles que acompanharam os cinco anos de colunas mensais - que, conforme a intensidade dos acontecimentos e, não raro, dos horrores que atravessaram o Brasil, tornaram-se quinzenais e, em momentos mais agudos, semanais -, a denúncia do racismo, em suas múltiplas facetas, constituiu uma espécie de mantra que atravessou minha escrita.
Um movimento que se inscreve em um período da história brasileira no qual, ainda bem, um número maior de jornalistas e intelectuais negros e negras ampliaram e consolidaram sua presença em espaços públicos de debate e formação de opinião.
Não há como compreender o Brasil sem reconhecer o racismo
Aqui, recorri deliberadamente à minha formação e atuação como historiadora e professora de História para afirmar, sob diferentes perspectivas, que não há possibilidade de compreender o Brasil sem reconhecer a centralidade do racismo em sua formação social, política, econômica, cultural e moral.
Para tanto, mobilizei reiteradamente exemplos históricos que nos lembram que, tomando de empréstimo um conceito do afropessimismo estadunidense, habitamos um "passado-presente" - uma continuidade que explica, de forma atroz, a desigualdade racial que nos estrutura.
E vejam só? Mesmo com esses 5 anos nas costas - fora toda minha formação acadêmica e a vida vivida de mulher negra - fui pega de surpresa na manhã desse 25 de março de 2026, quando meu filho de 6 anos me perguntou: "mas mamãe, por que a maioria das pessoas pobres são negras?".
A pergunta-constatação não era uma novidade - minha filha mais velha, já havia feito questão semelhante aos atrás (e imagino que muitos pais e mães já passaram por situações semelhantes). O que me surpreendeu foi constatar, de maneira tão crua - ali, no caminho para a farmácia - como, no Brasil, o racismo segue sendo algo tão notório (um exemplo do que significa o óbvio ululante), e ao mesmo tempo tão difícil de ser explicado.
Apelei para o tempo da escravidão, a fim de tentar mostrar para uma criança que está aprendendo a ler (o mundo e as letras), que aquelas pessoas negras e pobres que ele vê na rua não são culpadas pelo estado em que elas se encontram.
Que há uma estrutura muito maior, com uma longa história e que, se não levarmos isso em conta, a resposta para essa pergunta será uma condenação e não uma explicação. E ali, no meio da minha tentativa de explicação, ele perguntou novamente: "Mas a escravidão já não acabou faz tempo? Ninguém fez nada depois pra melhorar isso?"
Fiquei pensando em como encaminhar a resposta. E disse que essa segunda pergunta fazia muito sentido, mas que também era difícil de ser respondida. Minha vontade era dizer que sim, por um lado teve muita gente que não fez nada, e mais ainda, que existiu e ainda existe muita gente que acredita que a diversidade da humanidade deve ser lida pela lente da desigualdade, como se o mundo fosse, por natureza, assim mesmo.
Mas me contive, e disse apenas que ainda tem muita gente que acredita que negros e indígenas são pessoas inferiores, mas que, por outro lado, desde os tempos da escravidão, muitos negros e indígenas estão lutando contra isso, lembrando-o de alguns exemplos de pessoas que ele já tinha ouvido falar. Concluí, dizendo que, à medida que ele for crescendo, ele vai entender melhor o que eu havia explicado.
A luta histórica da população negra
Fiquei com essa conversa na cabeça. Não era ela que imaginava trazer aqui, mas sim, o misto de desespero, medo e indignação que me acometeu ao saber do assassinato de Andrea Marins Dias no último 15 de março. Uma médica de 61 anos, moradora do Rio de Janeiro, que foi morta em meio a uma ação policial, por ter tido seu carro confundido com o de supostos criminosos.
Queria aproveitar esse espaço para reforçar a descrença e o tormento evocados por essa morte: uma mulher negra que fez absolutamente tudo o que é exigido pela sociedade para ficar fora das estatísticas de violência que acometem pessoas negras, mas que não foi poupada, graças às escolhas deliberadas e reiteradas de pensar e executar políticas de segurança pública no Brasil, como tão bem demonstrou a jornalista Cecília Oliveira.
Acontece que nesse mesmo 25 de março de 2026, em que meu filho me questionou sobre a demora na promoção da igualdade para a população negra - mesmo após tantos anos da abolição -, a Organização das Nações Unidas reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Ainda que simbólica, trata-se de uma decisão histórica que não apenas amplia a compreensão de seu papel na formação do mundo ocidental e do capitalismo, mas também inaugura uma agenda internacional de promoção de políticas de reparação histórica, uma pauta antiga e que conecta movimentos negros de diferentes partes do mundo.
Amanhã, quando ele acordar, vou contar sobre essa decisão, e como ela se junta à luta histórica da população negra que não aceita que o racismo seja a régua e o compasso de suas vidas. E, sendo quem sou, contarei outras tantas histórias que o ajudem a entender o tamanho dessa luta e como ele, assim como minha filha, também são frutos dela. Histórias que vêm de longe, e que, desde sempre, aceitam quem estiver disposto a construir os caminhos a percorrer.
Sigamos.
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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.
O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.
Esta é a última edição da coluna Negros Trópicos, que Ynaê Lopes dos Santos publica mensalmente desde 2021. A DW Brasil deixará de publicar colunas a partir de abril de 2026.