Coluna | A marca invisível: O trauma psicológico da enchente na mente do gaúcho
Viver em meio à repetição de desastres naturais é como ter uma ferida que nunca cicatriza
Para nós, gaúchos, a experiência recente com as enchentes severas em 2024 e a triste repetição de fortes chuvas agora em 2025, que novamente inunda nossas cidades, revela uma face menos visível, mas igualmente devastadora, das catástrofes ambientais: o trauma psicológico. Não são apenas casas, bens ou infraestrutura que se perdem; a própria saúde mental da população é abalada, e a recuperação pode ser um processo longo e complexo.
Quando uma enchente atinge uma comunidade, a experiência inicial é de choque e desamparo. A água que sobe rapidamente, a perda do que foi construído com tanto esforço e a ameaça à própria vida geram um medo profundo e paralisante. Mas os efeitos não terminam quando a água baixa. A exposição a esses eventos extremos pode desencadear uma série de problemas de saúde mental, como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), depressão, ansiedade e até mesmo pensamentos suicidas.
Um estudo publicado em 2017 na revista Current Psychiatry Reports, assinado por Norris et al., ressalta que a exposição repetida a desastres aumenta significativamente o risco de desenvolver transtornos mentais. Imagine a situação de quem, após reconstruir sua vida com grande esforço, se vê novamente debaixo d'água. Essa repetição intensifica o sentimento de vulnerabilidade e desesperança, dificultando a capacidade de resiliência e a crença em um futuro seguro.
A perda não se restringe aos bens materiais. A perda da sensação de segurança e a interrupção da rotina diária são fatores críticos. Famílias inteiras são deslocadas, crianças perdem suas escolas, adultos perdem seus empregos, e comunidades inteiras perdem seus pontos de encontro e sua identidade. Uma pesquisa de 2011, publicada no American Journal of Community Psychology por Ruzek et al., enfatiza como o apoio social e comunitário é crucial na recuperação pós-desastre. Contudo, em eventos de grande escala, onde a comunidade inteira é afetada, essa rede de apoio também pode estar fragilizada.
O impacto em crianças e adolescentes merece atenção especial. Eles são mais vulneráveis e podem manifestar o trauma de diferentes formas, como pesadelos, irritabilidade, dificuldade de concentração na escola, regressão no desenvolvimento ou medos intensos. Um artigo de 2014 na revista Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America, por Pfefferbaum et al., destaca a importância de intervenções precoces e contínuas para ajudar essa população a lidar com o trauma e prevenir problemas de saúde mental a longo prazo.
Para lidar com essa realidade, é fundamental que o suporte psicológico seja integrado aos planos de resposta e recuperação a desastres. Não basta apenas reconstruir a infraestrutura; é preciso reconstruir a saúde mental das pessoas. Isso inclui: Acesso facilitado a profissionais de saúde mental: psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais devem estar disponíveis nas comunidades afetadas.
Grupos de apoio: a troca de experiências e o sentimento de pertencimento podem ser poderosos na recuperação.
Programas de resiliência: ensinar estratégias de enfrentamento e promover a capacidade de adaptação em situações adversas.
Atenção especial a grupos vulneráveis: idosos, crianças, pessoas com deficiência e aqueles com histórico prévio de transtornos mentais precisam de suporte direcionado.
A dor de ver nossas cidades inundadas novamente é imensa. Mas, além da solidariedade e da ajuda material, é crucial olharmos para as cicatrizes invisíveis que esses eventos deixam em nossa mente. Reconhecer o trauma, falar sobre ele e buscar ajuda são os primeiros passos para que possamos, como gaúchos, não apenas reconstruir nossas vidas, mas também fortalecer nossa resiliência e nossa saúde mental diante dos desafios que o futuro nos apresentar.
Texto: Luam Ferrari