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Cientistas descobrem novas estruturas imunológicas no crânio

24 ago 2026 - 15h26
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Resumo
Pesquisadores descobriram estruturas imunológicas inéditas na medula óssea do crânio de camundongos que atuam como postos de defesa para o cérebro. Semelhantes a linfonodos, esses agrupamentos celulares respondem rapidamente a ameaças como tumores cerebrais, desacelerando sua evolução. O achado redefine o papel do crânio e abre novas frentes para terapias neurológicas, embora a presença e a eficácia dessas estruturas em humanos ainda dependam de comprovação científica.

"Postos de defesa" foram encontrados na medula óssea do crânio de camundongos. Descoberta pode abrir novas frentes de tratamento contra doenças no cérebro.Tradicionalmente, o crânio é definido como uma armadura para o cérebro. Uma nova pesquisa conduzida nos Estados Unidos sugere, contudo, que há muito mais a saber sobre a função protetora dessa parte do corpo.

Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Washington, em St. Louis, identificaram estruturas imunológicas até então desconhecidas na medula óssea do crânio de camundongos, descritas como "postos de defesa" do sistema imunológico.

Evidência em humanos em teste

As estruturas, semelhantes a linfonodos (gânglios linfáticos), responderam a tumores cerebrais antes dos linfonodos mais próximos, localizados no pescoço. Quando os pesquisadores interromperam o funcionamento dessas estruturas em camundongos com glioblastoma, um tipo agressivo de câncer cerebral, os tumores cresceram mais rapidamente, e os animais morreram mais cedo.

"O crânio não deve mais ser visto apenas como uma carapaça protetora ao redor do cérebro", afirma à DW Jonathan Kipnis, autor sênior do estudo. "Ele contém ambientes imunológicos especializados que parecem ser capazes de responder localmente a alterações no cérebro."

A descoberta, publicada na revista científica Nature, vem acompanhada de uma ressalva importante: até agora, os pesquisadores demonstraram o funcionamento dessas estruturas apenas em camundongos, não em humanos.

Kipnis destacou que as evidências em humanos ainda são preliminares. "Encontramos células imunológicas semelhantes na medula óssea do crânio humano, o que sugere que estruturas relacionadas podem existir, mas ainda não demonstramos que elas sejam organizadas ou funcionem da mesma forma que nos camundongos", explica.

Nova perspectiva sobre imunidade cerebral

Durante grande parte do século 20, o cérebro foi descrito como um órgão "imunologicamente privilegiado", ou seja, especialmente protegido da atividade do sistema imunológico. Isso porque inflamações, que são métodos de defesa úteis em outras partes do corpo, podem danificar o delicado tecido cerebral.

A barreira hematoencefálica, que controla rigorosamente o que pode passar da corrente sanguínea para o tecido cerebral, reforçou a ideia de que o cérebro estava amplamente isolado do sistema imunológico convencional do organismo.

Essa visão mudou drasticamente.

Hoje, os pesquisadores sabem que o cérebro se comunica continuamente com o sistema imunológico, especialmente por meio dos tecidos que o envolvem.

O laboratório de Kipnis ajudou a impulsionar essa mudança de perspectiva em trabalhos anteriores, primeiro ao identificar vasos linfáticos nas membranas que cercam o cérebro e, posteriormente, ao demonstrar a existência de minúsculos canais que conectam essas membranas à medula óssea do crânio.

"O conceito tradicional de privilégio imunológico já mudou substancialmente", afirma Kipnis. "Nossas descobertas acrescentam uma nova camada a esse conhecimento ao mostrar que existem estruturas imunológicas especializadas dentro da medula óssea do crânio, junto ao cérebro."

Como funcionam as estruturas

Os pesquisadores acompanharam proteínas que se deslocavam do cérebro dos camundongos por canais microscópicos do crânio até a medula óssea.

Ali, encontraram agrupamentos organizados de linfócitos B e linfócitos T. As células T auxiliam as células B na produção de grandes quantidades de anticorpos potentes que ajudam a combater doenças e infecções.

Encontrar células imunológicas na medula óssea não foi uma surpresa. O que chamou a atenção dos cientistas foi o fato de elas estarem organizadas em estruturas semelhantes aos linfonodos encontrados em outras partes do corpo. Esses centros imunológicos são os locais onde células de defesa atuam em conjunto para responder a ameaças.

Por estarem tão próximos do cérebro, esses centros podem permitir uma resposta imunológica mais rápida e especializada.

"Os linfonodos do pescoço são 'compartilhados' com tecidos como boca, garganta e pele", explica Kipnis. "As estruturas do crânio podem fornecer ao cérebro algo semelhante a seus próprios linfonodos especializados, permitindo que as respostas imunológicas sejam coordenadas localmente."

Por que os centros imunológicos do crânio são importantes

"Nunca havíamos visto estruturas desse tipo em medula óssea saudável", diz Jang Hyun Park, coautor do estudo. "É uma descoberta empolgante que mostra que um cérebro complexo necessita de estruturas imunológicas especializadas para protegê-lo."

Marco Prinz, neuroimunologista da Universidade de Freiburg que não participou da pesquisa, classifica a descoberta como "um marco".

Segundo ele, o aspecto mais significativo da descoberta foi a organização inesperada das células imunológicas. "Acho que ninguém esperava encontrar essas estruturas semelhantes a linfonodos no crânio", afirma à DW.

Mas Prinz ressalta que os pesquisadores ainda precisam demonstrar que esses centros realmente existem e funcionam em seres humanos. "O principal desafio será observá-los também no crânio humano e demonstrar que funcionam ali. Isso realmente mudaria a forma como entendemos a resposta imunológica do sistema nervoso central em humanos."

Ação contra tumores cerebrais

Depois de constatar que a interrupção da atividade desses centros fazia os tumores cerebrais crescerem mais rapidamente, os pesquisadores testaram se seria possível fortalecer a resposta imunológica, por meio de reforços de proteína na medula óssea.

Os animais tratados rejeitaram os tumores com maior eficácia e sobreviveram por mais tempo.

O experimento levanta a possibilidade de, no futuro, direcionar tratamentos para a medula óssea do crânio a fim de influenciar as defesas imunológicas do cérebro, sem a necessidade de administrar a terapia diretamente no órgão.

Qualquer tratamento desse tipo em humanos, porém, ainda está distante. "Primeiro, precisamos confirmar sua organização e função em humanos, entender como essas estruturas mudam em diferentes doenças e determinar como manipulá-las sem provocar inflamações prejudiciais", pontua Kipnis.

Outras doenças cerebrais na mira

As possíveis implicações da descoberta vão além do câncer. No caso de tumores cerebrais e infecções, em que há um enfraquecimento da barreira hematoencefálica que protege o órgão, os estudos indicam que as estruturas imunológicas do crânio podem ter uma função importante.

O papel dessas estruturas diante de doenças como Alzheimer e Parkinson, contudo, "ainda precisa ser demonstrado", já que nesses casos não costuma haver grandes alterações nessa barreira, explica Prinz.

Kipnis acredita que, caso estruturas semelhantes e funcionalmente equivalentes sejam encontradas em humanos, sua relevância poderá ser muito mais ampla.

"Se eu tivesse que apostar, apostaria que essas estruturas desempenham algum papel em qualquer doença cerebral que tenha um componente imunológico", afirma.

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