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'Saúde humana depende de um planeta saudável'

Pesquisadora sueca defende que médicos receitem a natureza como método de prevenir e remediar doenças

13 ago 2018
03h11
atualizado em 14/8/2018 às 15h34
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FLORIANÓPOLIS - A saúde humana depende de um planeta saudável. E falar em conservação da natureza é só uma outra forma de pensar em cuidados com a saúde. Com essas frases, a médica sueca Matilda van den Bosch, professora assistente na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, abriu sua apresentação na semana passada no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, realizado em Florianópolis, na qual trouxe uma série de evidências sobre os benefícios que a exposição à natureza traz para a saúde.

Ela faz parte de uma vertente de pesquisadores, amparados pela Organização Mundial de Saúde, que investiga essas relações e começa a ganhar corpo na área de saúde pública. A proposta é analisar os principais fatores de risco a doenças hoje no mundo e avaliar como o contato com áreas verdes, principalmente em ambientes urbanos, colabora para reduzir esses fatores.

Falta de atividade física, depressão, solidão, estresse, mudanças climáticas são fatores de doenças como obesidade, doenças cardiovasculares e respiratórias, transtornos mentais — problemas que, de acordo com as pesquisas, podem ser amenizados no contato com a natureza.

Ela listou diversas pesquisas realizadas nos últimos anos que mostram essa relação. São trabalhos que observam, por exemplo, redução nos níveis de hormônios do estresse em pessoas que se mudaram para áreas mais verdes do que as que viviam antes — e aumento para quem foi para áreas menos verdes. Também há melhoras nos sintomas de depressão após ter mais contato com a natureza, no índice de atividade física e redução do sentimento de solidão.

Outros resultados também bastante consistentes são o que mostram resultados sobre como as áreas verdes têm efeito positivo na redução de ilhas de calor e de poluição urbanas. E em como as pessoas vivem por mais tempo quando têm acesso à natureza.

Em resumo, defende a pesquisadora, é uma maneira mais barata de garantir bem-estar e evitar danos maiores do que usar remédios. A recomendação para pediatras e médicos em geral: prescrevam mais natureza para seus pacientes.

O setor, porém, ainda não chegou a esse estágio. Ela conta que durante sua formação em medicina não ouviu nenhum vez a palavra meio ambiente. "Nunca conversamos sobre natureza.Era um modelo biofísico da saúde. Tudo o que discutíamos era sobre biologia, as funções do corpo, como ele funciona ou não. Só mais tarde eu percebi por mim mesma que era preciso expandir isso, olhar a questões por diferentes perspectivas sobre saúde. Os seres humanos são parte integrada dos ecossistemas."

Em entrevista ao Estado, ela fala sobre as descobertas e os desafios dessa linha de pesquisa.

A noção de que estar em meio a natureza é algo relaxante, que melhora o humor, o bem-estar, é algo que em geral as pessoas percebem intuitivamente. Mas quanto de fato entendem que é algo que melhora a saúde delas?

Acho que ainda há um certo ceticismo de que estamos falando de algo não muito científico. Além disso, as pessoas não ficam ao ar livre tanto quanto poderiam, não têm essas conexões com a natureza. E se você não tem isso, não tem como saber que faz bem para você. Falta consciência mesmo.

E isso se reflete no sistema de saúde? A gente não vê médicos receitando natureza.

A medicina é baseada em evidências, o que pede testes clínicos controlados e randomizados - algo muito difícil de fazer em um ambiente natural. Acho que às vezes falta ao setor um certo bom senso. Todo mundo meio que intuitivamente de algum modo sabe que é bom quando se está na natureza, mas meio que perdemos essa noção. Muitos médicos em vários países prescrevem atividade física, o que é ótimo. Mas calculo que só uma meia dúzia recomende: vá para a natureza. Não é considerado científico o bastante. Parece coisa de "abraçador de árvores". O que é uma pena, porque já é sabido que tem uma relação custo-benefício boa, não polui o ambiente. Pesquisadores interessados nisso estão tentando criar estudos melhores para criar evidência para o que é obviamente evidente para quem vai à natureza.

Com os dados que já existem, a sra. diria que áreas verdes são um promotor de saúde?

Sim, nós temos evidência de que a natureza traz tantos diferentes benefícios que, pensando em todos eles juntos, podemos dizer que a natureza de fato é uma promotora de saúde. Muita gente às vezes nos diz que há aspectos negativos, como pólen, que traz alergias. Mas com base em todo o conhecimento que já foi adquirido digo que os benefícios são muito maiores que os pontos negativos. Além disso, cem anos atrás não tínhamos tantas alergias, então é possível imaginar que isso ocorresse porque as pessoas ficavam muito mais ao ar livre, mais expostas à biodiversidade.

Quais resultados a sra. destaca como os mais significativos?

Acho que onde há uma evidência consistente e ampla é no efeito que áreas verdes urbanas têm sobre a redução dos efeitos das ilhas de calor. Em alguns casos chegaram a ser relatadas reduções nos níveis de mortalidade e morbidade associadas com calor. Também são consistentes os trabalhos que mostram que pessoas vivem mais se têm acesso à natureza. Outros trabalhos importantes mostraram redução na prevalência de asma, de doenças cardiovasculares. Pessoas que se mudam para áreas mais verdes apresentam uma redução no nível dos hormônios do estresse. O mesmo já foi observado com sintomas da depressão.

Em geral, pessoas que curtem estar na natureza costumam também se preocupar, em geral, em ter uma vida mais saudável, comem melhor, se exercitam, não fumam. Têm todo um estilo de vida com comportamentos saudáveis. Como separar o impacto do contato com a natureza?

De fato essa é uma das questões com as quais lutamos nos nossos estudos. Há muitas variáveis que podem influenciar e que precisamos conseguir separar. O que você está falando é sobre efeito auto-selecionado. Pessoas que já têm um um nível maior de educação e de consciência sobre sua saúde e têm estilos de vida mais saudáveis, também costumam, em primeiro lugar, viver em locais com mais áreas verdes e ser mais propensos a usá-las. No entanto já temos alguns estudos que estabeleceram uma forma de controlar esses fatores. E descobriram que os efeitos da natureza são similares e vão além de questões sócio-econômicas relacionadas.

Havia uma campanha há alguns anos que propunha a ideia de que um planeta saudável é igual pessoas saudáveis.

E o oposto também vale. Se as pessoas estão ao ar livre, na natureza, elas tendem a assumir um comportamento mais ecológico, se tornam mais pró-ambiente. Então se temos pessoas mais saudáveis, também vamos ter um planeta mais saudável.

* A repórter viajou para Florianópolis a convite da Fundação Boticário

Estadão Conteúdo

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