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Eu fiz uma reconexão com a natureza, diz designer que aproveitou pandemia para mudar

"As pessoas estão percebendo que não vale mais a pena trabalhar com algo que não gostam para ter dinheiro', afirma ele

20 set 2020
13h07
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Eduardo Carriça, designer gráfico que aproveitou a pandemia para se mudar com mulher e filhos para fazenda no Paraná

Sou formado em Design Gráfico e trabalhei por nove anos como editor de Arte em uma editora de livros didáticos em Londrina, no Paraná. Em 2014, minha mulher, que é bióloga, iniciou a produção de orgânicos na propriedade da família em Sabáudia, a cerca de 40 km de Londrina. Comecei a trabalhar meio período para ajudá-la no campo, mas não tinha muito conhecimento.

Desde que me graduei, sempre trabalhei em lugares legais, mas nunca estava completamente feliz. Até que em 2016 decidi fazer um curso de agrofloresta e acabei me apaixonando. É uma reconexão com a natureza. Não me imaginava mais trabalhando no escritório, em uma sala sem janela, com ar-condicionado e oito pessoas. Quando um ficava doente, todos adoeciam juntos.

Eu e minha mulher decidimos adotar a técnica na fazenda. Íamos todos os dias para Sabáudia e sempre com a ideia de morar. O que nos segurava em Londrina era a escola dos filhos. Até que a pandemia chegou e facilitou esse processo, com as aulas online.

Concluímos que era melhor eles estudarem em uma escola comum e terem a vivência no sítio, que eles adoram. De lá pra cá, além da produção agrícola, construímos alojamento, desenvolvemos cursos e um projeto educacional com escolas. Mais de 90% do nosso público não é agricultor. São dentistas, engenheiros, advogados, pessoas que querem deixar os empregos e a vida agitada na cidade e ir morar no campo. Inclusive, depois do nosso trabalho, muitos produtores em Londrina ingressaram na agrofloresta.

Hoje, conseguimos passar mais tempo com as crianças. Eles trocam o desenho para cuidar da terra. Temos orgulho em ser chamados de agricultores, estamos cuidando do solo e colhendo o que dá. Nosso trabalho é a produção, conscientização e profissionalização. A gente produz o alimento e quer ensinar as pessoas a produzirem, mas também queremos conscientizar a população, e isso passa pela educação infantil.

As pessoas estão percebendo que não vale mais a pena trabalhar com algo que não gostam para ter dinheiro e comprar pequenos prazeres. Elas não estão sendo felizes dessa forma. A agrofloresta, antes de ser um grande sistema de produção e mudar totalmente a forma de produzir e a qualidade do alimento, muda as pessoas e a forma como interagem com o planeta. Estamos percebendo qual o nosso papel aqui. A vida é uma só, a gente não come dinheiro.

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