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Planeta estará 2°C mais quente já em 2050, diz estudo

Pesquisa prevê que, apesar de todas as promessas feitas no Acordo de Paris, teto de aquecimento deve ser alcançado em poucas décadas.

29 set 2016
14h32
atualizado às 14h43
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A meta estabelecida pelo Acordo de Paris, de evitar que o planeta aqueça mais que 1,5°C até 2100, é considerada arriscada por cientistas: a elevação da temperatura acima desse ponto pode desencadear mudanças climáticas que ameaçam o modo de vida atual.

O estudo mostra que, apesar de todas as promessas feitas pelos 195 países que assinaram o acordo até agora, os temidos 2°C a mais podem ser alcançados já dentro dos próximos 34 anos.
O estudo mostra que, apesar de todas as promessas feitas pelos 195 países que assinaram o acordo até agora, os temidos 2°C a mais podem ser alcançados já dentro dos próximos 34 anos.
Foto: iStock

A marca pode ser ultrapassada já em 2050. Desde a Revolução Industrial, a temperatura média subiu 1°C, segundo informações da Organização Mundial de Meteorologia, e um novo estudo coordenado por Robert Watson, ex-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)

O estudo mostra que, apesar de todas as promessas feitas pelos 195 países que assinaram o acordo até agora, os temidos 2°C a mais podem ser alcançados já dentro dos próximos 34 anos. A análise também é assinada por José Goldemberg, professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

DW Brasil: Como chegaram à conclusão de que já em 2050 o mundo estará 2°C mais quente?

José Goldemberg: O estudo trabalhou com um modelo matemático que usou a trajetória de emissões dos diversos países. Também foram consideradas as Contribuições Nacionalmente Pretendidas (INDC, na sigla em inglês) de todos aqueles que assinaram o Acordo de Paris e se comprometeram a cortar os níveis de CO2 que despejam todos os anos na atmosfera. O nosso documento mostrou que, mesmo considerando todas as INDCs, medidas adicionais são necessárias. Ou seja, a velocidade com que os países estão tomando medidas pra reduzir as emissões tem que ser acelerada.

Sabemos que dez países são os que mais contribuem com gases estufa: China, Estados Unidos, União Europeia, Índia, Rússia, Indonésia, Brasil, Japão, Canadá e México. Desses, cinco são países em desenvolvimento. Os outros são países ricos com os maiores índices de emissão per capta. Por isso, a maior atenção tem que ser voltada para os grandes emissores, porque são eles que poderão adotar medidas que tenham impacto de fato.

Em relação ao Brasil, qual a principal preocupação diante dessa anunciada elevação da temperatura?

Temos estudos feitos aqui que mostram que uma das consequências é a savanização da Amazônia. Esse fenômeno teria um impacto terrível no país. A chuva que cai no Sul e Sudeste do país vem da Amazônia, por exemplo. Se a floresta virar uma savana, o regime de chuvas no Brasil vai mudar completamente. Atualmente, a região Norte está sofrendo com uma seca terrível. Os cientistas ainda não sabem se ela está relacionada diretamente com as mudanças climáticas, mas já é perceptível que essa sucessão de secas está aumentando e, por isso, as suspeitas são grandes.

O Brasil está preparado para enfrentar esse cenário?

Nós sabemos que a savanização da Amazônia, que traria uma mudança no regime de chuvas, provocaria impactos enormes. A nossa agricultura no Brasil, de modo geral, não é irrigada. Se o padrão de chuvas muda, será preciso aumentar a irrigação, o que implica também no aumento dos custos.

Na área de energia, a preocupação é grande também. Vimos que a falta de água nos reservatório levou o governo a usar as usinas térmicas que queimam carvão. Apesar de o Brasil, como um todo, estar reduzindo suas emissões, as do setor de energia estão aumentando. Queimar carvão é ruim para o clima, por isso a situação precisa ser revertida. Existem projetos de mais usinas movidas a carvão e eles são inquietantes. No setor industrial ainda há muito o que fazer: aqui no Brasil, as indústrias têm se preocupado pouco com redução de CO2, com exceção de poucos setores, como o do cimento, que fez alguns estudos.

É possível reverter esse quadro e frear a elevação da temperatura de 2°C até 2050?

Se as coisas continuarem como estão, não vai haver reversão. As previsões são ruins, por isso lançamos esse documento, para alertar que é preciso fazer mais do que está sendo feito.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

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